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Moscavide. Uma freguesia em choque com um homicídio anunciado
Portugal 10 min. 27.07.2020

Moscavide. Uma freguesia em choque com um homicídio anunciado

Moscavide. Uma freguesia em choque com um homicídio anunciado

Portugal 10 min. 27.07.2020

Moscavide. Uma freguesia em choque com um homicídio anunciado

Ana TOMÁS
Ana TOMÁS
Bruno Candé foi baleado este sábado em plena via pública. Autor do homicídio terá ameaçado de morte o jovem dias antes e proferido insultos racistas, mas para já as autoridades não confirmam que tenha sido esse o motivo do crime. Família e comunidade reclamam justiça.

Num dia normal, Bruno Candé estaria sentado, com a sua cadela Pepa, num dos bancos da Avenida de Moscavide, a principal artéria da freguesia com o mesmo nome, pertencente ao concelho de Loures. Mas esta segunda-feira não foi um dia normal. Num desses bancos estão agora flores e notas de pesar. 

Nas ruas, nos cafés e no pequeno comércio que se prolonga pela avenida, não há outro assunto, nem lamento. Bruno Candé, de 39 anos, foi morto à queima-roupa, com quatro tiros, no sábado, ao início da tarde, em plena via pública, por um idoso de 76 anos. 

O crime chocou a população, que assistiu incrédula ao homicídio. Alguns populares tentaram reanimar a vítima, enquanto outros, como Rui, dono de uma ourivesaria em frente ao local onde ocorreu o crime, detiveram o homicida até chegar a polícia. 


"Não consigo compreender. É uma estupidez" diz ao Contacto, ainda em choque e visivelmente emocionado. Apesar de não ter testemunhado o momento em que Bruno foi assassinado, acabou depois por ser um dos primeiros a impedir que o idoso fugisse. Saiu da ourivesaria quando este já tinha guardado a pistola no bolso. Com outros homens, de estabelecimentos comerciais próximos, conseguiu deter e imobilizar o homicida, até a polícia chegar, impedindo, ao mesmo tempo, diz, que a população revoltada o agredisse.

Crime de ódio?

Os motivos do crime ainda não estão totalmente apurados, mas a família e algumas testemunhas acreditam ter-se tratado de um homicídio de ódio com motivos racistas. 

Na quarta-feira anterior ao homicídio, o idoso, branco, e o jovem ator, negro, ter-se-ão envolvido numa discussão que terá começado por causa da cadela da vítima e que acabou com o homicida a fazer insultos de teor xenófobo e ameaças de morte. 

 "O seu assassino já o havia ameaçado de morte três dias antes, proferindo vários insultos racistas", afirmou a família, em comunicado, no sábado, acrescentando que "face a esta circunstância, fica evidente o caráter premeditado e racista deste crime" e exigindo que "a justiça seja feita de forma célere e rigorosa". 

Segundo Rui, durante a discussão, que terá subido de tom, com um dos empregados da sua ourivesaria a ter saído para separar os dois, o idoso não só ameaçou a vítima de morte como terá feito alusão ao facto de ter armas em casa.

"Eu vou-te matar porque eu tenho armas em casa", terá dito o homicida à vítima, nessa discussão.

A frase foi também ouvida por outras pessoas, como refere Vânia, que trabalha no café ao lado e onde Bruno costumava ir frequentemente.

Ao Contacto, recorda, que nessa discussão, "mesmo já depois de as pessoas os terem separado, o homem [homicida] continuava com a bengala a bater-lhe".

Vânia diz que Bruno Candé lhe contou que o idoso fez insultos à sua mãe, dizendo que esta "estava numa senzala" e que tinha ido "àquelas pretas todas", tal como a ela.

Frequentadora do mesmo café em Moscavide, uma vizinha do ator, nascido em Lisboa, em 1980, e morador no Casal dos Machados, na freguesia do Parque das Nações, acrescenta que o idoso estava sempre "a mandá-lo para a terra dele". 

Bruno Candé tinha 39 anos. Era ator e deixa três filhos menores.
Bruno Candé tinha 39 anos. Era ator e deixa três filhos menores.

Não conseguem determinar se os insultos de quarta-feira foram o culminar da discussão que começou por causa da cadela, ou se esta seria o pretexto para essas provocações. 

"Começou tudo por causa da cadela. A cadela estava deitada ao pé do Bruno e ele [o idoso] dizia que tropeçava na cadela. Mas ele tinha tanto espaço para passar...Eu passei tantas vezes e nunca tropecei", conta Rosa Neves, vizinha do ator. 

Porém, para estas mulheres não há dúvidas de que o crime foi motivado por ódio racial. Rui, no entanto, atribui-o a outros motivos, questionando a sanidade do homicida, devido à sua idade, e que poderá ter contribuído para que as próprias ameaças de morte não tenham sido valorizadas e traduzidas em queixa à polícia.

Em declarações ao jornal Público, desta segunda-feira, o comissário do Comando Metropolitano de Lisboa (COMETLIS) da PSP, Luís Santos, afirmou que "da inquirição das testemunhas todas do local, ninguém fala de atos racistas" e que os relatos que ouviram de "diálogos ou confrontos" potencialmente relacionados com o crime, "não falaram nunca em questões racistas". No entanto, ressalva, "há muita coisa que agora se poderá desenvolver" durante a investigação, que está a cargo da Polícia Judiciária (PJ).

Segundo, o JN, no interrogatório da PJ, o arguido rejeitou que o ato tenha tido motivação racista e atribuiu o crime a desavenças a propósito do incidente com a cadela da vítima.

Mas esta manhã, quando foi ouvido no Tribunal de Loures, ter-se-á “remetido ao silêncio”, refere fonte judicial citada pela Agência Lusa.

O homem de 76 anos, que confessou o crime, vai aguardar o julgamento em prisão preventiva e está indiciado por homicídio qualificado e posse de arma proibida.

Racismo e banalização do mal

"A questão da motivação e do ódio, se é racial ou não, cabe aos peritos e aos investigadores determinar", começa por ressalvar Pedro Neto, diretor-executivo da Amnistia Internacional de Portugal. 

Neste caso, diz, em declarações ao Contacto, "tudo leva a crer que haja ódio e que o racismo tenha contribuído para isso". "O crime que foi cometido, se foi por ódio, se foi por ódio racial é um fator que nos preocupa muito e pedimos às autoridades judiciais que façam o seu trabalho, que investiguem as motivações e que a justiça funcione conforme o Código Penal". 

Mas, para Pedro Neto, "não basta isso", porque "vive-se um ambiente em Portugal que legítima este discurso de ódio, este discurso racista". Por outro lado, considera que o debate está polarizado entre dois extremos, em que "ora qualquer coisa é racismo, ora nada é nunca racismo". 

"Eu vejo um caminho muito grande a ser percorrido em termos de educação, não só formal, mas educação para o respeito, para a multiculturalidade, para a tolerância e aceitação das nossas diferenças", assinala Pedro Neto, lembrando que a educação também dever ser para toda a sociedade civil e não apenas concentrada nas escolas. "Recordo-me que há uns anos tivemos a campanha 'Todos diferentes, Todos Iguais'. Se calhar está na altura de repetir".


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A educação para esses valores deve também estender-se às polícias. "A formação tem de ser mais exigente, contínua, melhorada, e tem de ser também centrada em valores. A polícia e os agentes de segurança do Estado são os primeiros defensores dos Direitos Humanos, são eles que têm a primeira obrigação de assegurar que eles são vividos e defendidos no nosso país", defende Pedro Neto.

 O Bloco de Esquerda de Loures exige que todos os pormenores e motivações do crime sejam devidamente apurados. E a Associação SOS Racismo reclama "justiça" contra um homicídio cujo "caráter premeditado não deixa margem para dúvidas de que se trata de um crime com motivações de ódio racial".

Um crime numa avenida multicultural e étnica

Bruno Candé é descrito por aqueles que com ele conviviam como uma pessoa discreta, pacífica e educada que se fazia acompanhar sempre pela sua cadela, era uma presença habitual na Avenida de Moscavide, por onde diariamente passam pessoas de várias etnias e nacionalidades, que vivem na freguesia que lhe dá nome.

Mas a simples multiculturalidade pode não ser o garante de tolerância e até pode contribuir para a negação da existência do racismo.

"Os bons exemplos não eliminam os maus exemplos e estes não podem eliminar os bons", começa por dizer, alertando que o facto de uma dada área ter uma grande diversidade étnica e cultural "não invalida que o mal aconteça e que não tenhamos de agir perante o mal para o prevenir".

Além disso, lembra que o racismo é muitas vezes "a ponta do iceberg"em relação a outras questões que "se lhe associam de forma grave", como as barreiras económicas, a pobreza ou a multidiscriminação. "Uma mulher negra e pobre não têm vida fácil em Portugal. Se calhar uma mulher branca e pobre também não, mas ao estar a falar numa não anulo a outra". 

É tendo essas dimensões presentes que se contribui para que o fenómeno não fique escondido e seja debatido e combatido, com a reflexão necessária.

Bruno Candé Marques foi morto com quatro tiros à queima-roupa, no sábado à tarde.
Bruno Candé Marques foi morto com quatro tiros à queima-roupa, no sábado à tarde.


"É preciso escutarmo-nos uns aos outros. Ainda que haja episódios que não têm que ver com racismo, que têm que ver com desavenças de outro tipo de ordem, isso não quer dizer que não haja episódios em que o problema é, de facto, o racismo."  

Por isso, sublinha que é preciso não o negar e lembra que já houve outros casos em que ele terminou em morte. "Existe racismo. Ele é visível, quotidiano, subtil, mas também tem exemplos levados ao extremo e de atentar contra a vida humana", afirma, aludindo ao assassínio de Alcindo Monteiro, ocorrido há 25 anos.

Bruno Candé, um ator que preparava o regresso aos palcos     

Só com a sua morte é que muitos que se cruzavam diariamente com Bruno Candé souberam que era ator, mas reconhecem que se notava que era instruído. "Sabia falar, respondia certo", recorda Vânia, elogiando também a disciplina e os cuidados que tinha com o animal de estimação, a quem não permitia que tocassem sem a sua autorização, caso fossem desconhecidos. 

Tirando a forma brusca como às vezes reagiu nessa situação,"era uma pessoa muito correta. Chegava aqui com a música dele e pedia-me autorização para ouvir a música", exemplifica. "Não merecia isto".

Pai de três filhos menores — dois rapazes de cinco e seis anos e uma rapariga de dois — era ator da companhia de teatro Casa Conveniente, desde 2010, tendo também participado em telenovelas.

Há três anos sofreu um acidente grave de bicicleta, por atropelamento. Esteve em coma e , segundo a família, ficou com sequelas e a mobilidade limitada. 

Mas a sua ligação ao teatro manteve-se sempre. 

"As primeiras palavras de que ele se lembrou foi o texto do espetáculo “A Missão” de Heiner Muller", escreveu a companhia na sua página de Facebook, numa mensagem de pesar pela sua morte. 

Segundo colegas, Bruno Candé estaria a preparar-se para voltar aos castings para novelas e à peça " Escuro que te Ilumina ", o espetáculo em que a Casa Conveniente e Zona Não Vigiada têm estado a trabalhar, e que parte da sua vida e da sua recuperação do acidente.

Desconhecendo esse seu lado, Rosa Neves recorda, sobretudo, o Bruno Candé que andava sempre com a sua cadela e que gostava de ouvir música alto e, dessa forma, a dava a ouvir à vizinhança toda.

Lembra-se que lhe pedia para a baixar, quando a punha a tocar pouco depois das 8h, e que ele acedia ao pedido com bons modos. "Tudo é boa gente, tanto é o branco como é o preto, conforme for a educação."

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