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Morreu Ruben de Carvalho, o arquiteto musical da Festa do Avante
Portugal 7 min. 11.06.2019

Morreu Ruben de Carvalho, o arquiteto musical da Festa do Avante

Morreu Ruben de Carvalho, o arquiteto musical da Festa do Avante

Foto: LUSA
Portugal 7 min. 11.06.2019

Morreu Ruben de Carvalho, o arquiteto musical da Festa do Avante

Ao Contacto, Sérgio Godinho afirmou que “é uma perda muito grande para a cultura portuguesa”. "Ruben de Carvalho adorava a vida e se teve tempo de uma última despedida, deve ter dito para si ‘foi bonita a Festa, pá!’”, disse o primeiro-ministro português, António Costa acerca do falecido dirigente comunista.

 Morreu Ruben de Carvalho, dirigente histórico do PCP, um dos principais organizadores da Festa do “Avante!”, desde a sua primeira edição, em 1976, e antigo chefe de redação do semanário com o mesmo nome. O jornalista, que morreu na madrugada desta terça-feira no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, tinha sido vereador da Câmara Municipal desta cidade, deputado à Assembleia da República e era membro do Comité Central comunista.

Ao Contacto, o jornalista Fernando Correia recordou que o conheceu quando estudava na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e Ruben de Carvalho fazia parte da Direção da Comissão Pró-Associação dos Estudantes do Ensino Liceal. Eram os anos de sobressalto estudantil e participaram ativamente na luta académica que abalou os alicerces do regime em 1962. Em 2016, o Observador publicava uma entrevista em que Ruben de Carvalho abordou a influência familiar na sua opção política. A mãe era militante do PCP em 1930 e o pai que “era médico do jornal Século”, de acordo com Fernando Correia, também atendia muitos intelectuais neorrealistas. “Esse convívio influenciou-me muito. O Alves Redol, o Leão Penedo, o Rogério de Freitas, o Lima de Freitas, eram visitas frequentes. Estamos a falar de 1958, das eleições presidenciais do Humberto Delgado. Tinha 14 anos. O mesmo ano em que levei pela primeira vez uma cacetada da polícia numa manifestação na Estefânia”, lembrou ao Observador. Entre 1961 e 1974, foi preso seis vezes e foi vítima de tortura policial.

O jornalista e comentador do DN Pedro Tadeu recorda ao Contacto “um amigo de longa data” que foi redator coordenador do Século, em 1963, e chefe de redação da Vida Mundial em 1967, “com 20 e poucos anos quando essa responsabilidade era normalmente atribuída a gente mais velha”. Ao longo da vida, colaborou com inúmeros órgãos de comunicação como a Seara Nova, Notícias da Amadora, O Diário, Diário de Lisboa, Século Ilustrado, Politika, A Capital e o Expresso. Com o fim da ditadura, Ruben de Carvalho destaca-se, em 1974, como chefe de redação do primeiro Avante legal. Ao seu lado, como subchefe, Fernando Correia testemunhou a capacidade de “organização da redação”, “os conhecimentos gráficos” e a “experiência” que permitiu imprimir o jornal nas mesmas rotativas que imprimiam o Século. Já Pedro Tadeu trabalhou no Avante com Ruben de Carvalho até 1995, ano em que este passou a assumir outras responsabilidades.

Um homem extraordinariamente culto”

Ávido consumidor de música, Ruben de Carvalho destaca-se como crítico musical no Século Ilustrado e assina diversas publicações estrangeiras que lhe permitem ter um conhecimento que seria fundamental como um dos principais arquitetos da Festa do Avante. Em vários países, os partidos comunistas organizavam eventos de grande dimensão para divulgar os respetivos jornais como o francês L’Humanité e o italiano L’Unitá. Dois anos depois de encabeçar a redação comunista, o PCP decide lançar a Festa do “Avante!” quando não havia praticamente eventos culturais desta dimensão no país.

Na entrevista ao Observador, Ruben de Carvalho recordou o pulo que deu da cadeira quando rebentou uma bomba que destruiu a cabine elétrica que ia abastecer a festa a dois dias da inauguração, em 1976. Apesar do atentado, o evento político-cultural prosseguiu na mesma. O jornalista Pedro Tadeu considerou, em conversa com o Contacto, que o mérito do histórico dirigente comunista foi de ter criado “uma indústria musical” em Portugal. Antes, “não havia concertos de grande dimensão ao ar livre e passou a haver uma primeira geração de técnicos e engenheiros de som”.

O músico Sérgio Godinho afirmou ao Contacto que foi um “desbravador” e que Ruben de Carvalho criou algo “inédito” com a Festa do Avante. “Eu não sou do PCP e é uma festa aberta. O mérito é ter criado uma festa maior do que o partido a nível musical. Não é uma festa sectária e ele trouxe grandes figuras”. A primeira vez que o cantautor português participou na festa foi na FIL e recorda-se do “cariz popular” do evento. “Vamos sentir todos a falta dele”.

O músico Luís Varatojo foi uma das muitas testemunhas dessa inovação cultural. “Penso que o Ruben teve um papel muito importante na música e na cultura portuguesa. No caso da música, privei com ele e era uma pessoa de grande cultura musical. Conhecia música de todo o mundo. Não há ninguém insubstituível mas ele tinha um conhecimento invulgar”, afirmou ao Contacto. O ex-vocalista e guitarrista de bandas que pisaram várias vezes os palcos da Festa do “Avante!” como Peste & Sida e A Naifa destaca a versatilidade da programação do evento anual comunista pelo qual Ruben de Carvalho foi responsável durante mais de quatro décadas. “Iam todos os géneros. Música experimental, fado, música ligeira, expressões de heavy metal que nem sempre tinham espaço noutros lugares. Ali, sentiamo-nos sempre em casa”. Luís Varatojo não deixa de recordar o ambiente nos bastidores onde “todos os artistas se sentiam em casa com Ruben e a Madalena [companheira do histórico comunista]”. Ruben de Carvalho foi também responsável pelos concertos de música clássica e ópera pela primeira vez em Portugal ao ar livre para milhares de pessoas.

Para além do contributo enquanto jornalista, Pedro Tadeu destaca o seu papel na divulgação cultural e até na “reabilitação do fado”. Depois de 1974, este género musical era visto “como algo de direita” e Ruben de Carvalho fez um importante trabalho de promoção do fado também à esquerda. “Revolucionário da cabeça aos pés, era dialogante e estabelecia relações com todas as áreas políticas”, afirma o jornalista e comentador do DN, dando o exemplo do programa “Radicais Livres” da Antena 1 com a participação de Ruben de Carvalho e Jaime Nogueira Pinto.

Em declarações à RTP, o cantor Luís Represas considerou este "um dia particularmente triste" pois "perdemos um homem extraordinariamente culto", de uma "cultura superior a todos os níveis", entre os quais o da música. O músico recordou o ano de 1976, durante o qual os Trovante passaram noites em casa de Ruben de Carvalho "a ouvir música compulsivamente".

"Ele mostrava claramente que era um homem que apostava sempre no futuro" e tinha uma "visão muito para a frente", declarou Represas. Tinha uma mentalidade "profundamente progressiva", acrescentou. "O Ruben era um amigo. (...) Era capaz de compreender aquilo que nos separava, buscando sempre mais aquilo que nos unia".

Representantes políticos despedem-se de Ruben de Carvalho

Foi no parlamento que o secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, recordou a figura de Ruben de Carvalho. Numa declaração emocionada, lembrou o “intelectual comunista”, o “homem de combate e de confronto de ideias” que “lutou pela liberdade e pela democracia. Num comunicado assinado pelo secretariado do partido, os comunistas destacaram que “ao longo de toda a sua vida, Ruben de Carvalho empenhou-se na luta, com o seu partido, pela liberdade e a democracia, por uma sociedade nova liberta da exploração e da opressão, o socialismo e o comunismo”.

Em visita a Cabo Verde, o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa reagiu à morte do histórico do PCP destacando o "jornalista e homem de cultura, defensor da liberdade desde jovem, deputado à Assembleia da República, vereador da Câmara Municipal de Lisboa" que "deixa um rasto de saudade em todos quantos tiveram o privilégio de partilhar a sua afabilidade de trato e reconhecer o seu empenhamento profundo na defesa das causas em que acreditava".

O primeiro-ministro, António Costa, transmitiu o pesar pela morte de Ruben de Carvalho ao secretário-geral do PCP e publicou várias mensagens no Twitter onde lembrou a amizade mútua. “Antes de mais, um amigo, numa amizade que construímos nos 6 anos de intenso convívio na CM Lisboa. As vicissitudes da política nunca nos permitiram trabalhar tão estreitamente quanto eu teria, teríamos, gostado e seguramente a cidade muito teria beneficiado. Homem de cultura e inteligência política invulgares, sentido de humor e extraordinária exigência de caráter, seduzia adversários, com a capacidade de construir e honrar os compromissos que Lisboa exigia. Ruben de Carvalho adorava a vida e se teve tempo de uma última despedida, deve ter dito para si ‘foi bonita a Festa, pá!’”.


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