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Medo do medo?
Opinião Portugal 3 min. 22.10.2020

Medo do medo?

Medo do medo?

Foto: Chris Karaba
Opinião Portugal 3 min. 22.10.2020

Medo do medo?

Redação
Redação
Eu cá por mim acho que o medo é que é medonho! Só espero ser capaz de dizer ao medo quando me aparecer pela frente: NÃO TENHO MEDO DE TI.

Ao longo da história da humanidade o medo tem sido motor ao mesmo de evolução e de retrocesso. O medo dos predadores levou os primeiros humanos a unir forças, obrigando-os a entenderem-se, pelo menos face a um inimigo comum.

Terá sido também o medo, do desconhecido, da incerteza e da dúvida, a levar o humano a procurar respostas no além. As fúrias da natureza e as desgraças humanas foram sendo vistas pelo prisma do fenómeno religioso, numa abordagem que dura há milénios. Ao longo do tempo, com a evolução do conhecimento e das ciências mas também da cultura e da arte, os preceitos religiosos foram caindo por terra, cedendo espaço ao pensamento racional. A ciclos e contraciclos, lá fomos abandonando antigas certezas religiosas, sobretudo aquelas que nada tinham a ver com o domínio espiritual. A terra deixou de ser o centro do universo e de ser plana, os terremotos deixaram de ser resultado da fúria dos deuses e as doenças já não são castigos divinos! Quer dizer, ainda há para aí muita gente a acreditar nessas patranhas, mesmo se são uma ínfima minoria.

Por outro lado, nem a ciência nem a cultura conseguiram provar ou a existência ou inexistência de deus ou de deuses, e as religiões continuam a proliferar, num mundo ao mesmo tempo cada vez mais secularizado, com tensões crescentes e extremar de posições.

Nada tenho contra alguém que acredite que uma virgem deu à luz, que o Messias virá ao Mundo para nos salvar ou que se se portar bem tem à sua espera não sei quantas virgens no Paraíso. Como nada tenho contra quem acredita em fantasmas, em Ovnis ou que o Elvis e a Marilyn Monroe ainda estão vivos e casados!

Custa-me a aceitar mas respeito as crenças de cada um! O que já não posso aceitar é que essas fés e crendices sejam utilizadas no espaço público como modo de demonstrar o que quer que seja ou determinar esta ou aquela decisão. A religião pertence à esfera privada e nela deve continuar.

Os pais de alunos de uma escola de Famalicão que se opuseram a que os seus filhos frequentassem as aulas de Cidadania, tal como os pais dos alunos que em França vieram à praça pública pedir sanções contra o professor que numa aula sobre a liberdade de expressão mostrou as caricaturas de Maomé, bebem da mesma fonte: a fonte do fanatismo religioso, do desrespeito pelas convicções dos outros e, “in fine”, da ignorância.

Como muitas vezes acontece, o fanatismo de uns alimenta a raiva de outros, ainda mais fanáticos e ignorantes e as consequências são as que conhecemos: mais um acto bárbaro e terrorista cometido em nome de uma religião supostamente insultada.

E o que resta? Resta o medo! Medo de se exprimir livremente, mesmo num espaço, esse sim sagrado, como a escola! Medo de ensinar. Medo de criticar. Medo de chocar. Medo de insultar. Medo de blasfemar. Medo de tudo e mais um par de botas!

Eu cá por mim acho que o medo é que é medonho! Só espero ser capaz de dizer ao medo quando me aparecer pela frente: NÃO TENHO MEDO DE TI!

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