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Matar uma criança para cobrar uma dívida
Opinião Portugal 2 min. 27.06.2022
Violência

Matar uma criança para cobrar uma dívida

Uma mulher detida por suspeita de envolvimento na morte de uma menina de três anos.
Violência

Matar uma criança para cobrar uma dívida

Uma mulher detida por suspeita de envolvimento na morte de uma menina de três anos.
Foto: Lusa
Opinião Portugal 2 min. 27.06.2022
Violência

Matar uma criança para cobrar uma dívida

Sérgio FERREIRA BORGES
Sérgio FERREIRA BORGES
A Comissão de Protecção de Crianças e Menores visitou-a e apercebeu-se dos enormes problemas financeiros da família.

O sistema nacional de protecção de menores voltou a falhar e isso custou a vida a uma criança de três anos. É mais uma vítima da falta de escrúpulos dos adultos e da passividade negligente do Estado.

Em poucas palavras: a mãe da criança recorria com inusitada frequência aos serviços de bruxaria de uma vizinha, em Setúbal. Mas nem sempre pagava os bons ofícios da bruxa e assim foi acumulando uma dívida. Para conseguir o pagamento coercivo dos “atrasados”, a bruxa raptou a criança e sujeitou-a às mais cruéis sevícias. Torturava a filha e coagia a mãe. Mas as coisas foram longe de mais e a criança acabou por morrer.

A bruxa, o marido e a filha foram detidos na região de Leiria, a meio de uma fuga que não se sabe onde acabaria.

Os casos de violência sobre crianças acontecem, quase sempre, num contexto de famílias desestruturas. Podemos ir mais longe e concluir que não é apenas a desestruturação familiar que provoca estes casos. É sobretudo, a desestruturação das pessoas a quem estão confiadas as crianças, sejam ou não, os seus progenitores.

É mais uma vítima da falta de escrúpulos dos adultos e da passividade negligente do Estado.

Conciliam-se quase sempre a miséria moral, com a miséria social e com a miséria económica. Tudo isto estava reunido, neste caso. A mãe chegou a anunciar que sofria de doença oncológica, para conseguir empréstimos de dinheiro. E recorria a uma bruxa para resolver problemas de instabilidade emocional que afectavam a sua relação com um homem.

Logo após o nascimento desta criança, a Comissão de Protecção de Crianças e Menores visitou-a e apercebeu-me dos enormes problemas financeiros da família. A que juntou ainda o facto de a mãe ter outros cinco filhos e nenhum deles viver com ela. Mas, segundo declarações dos seus responsáveis, a CPCM não tinha meios legais para intervir. “E não se pode retirar uma criança a uma família só por ser pobre”, disse o mesmo um responsável.

Este caso foi antecedido de muitos outros e até hoje nada se fez para evitar esta dramática reincidência. Os cenários, as circunstâncias são sempre muito semelhantes. Os pais - quantas vezes são eles os assassinos! - têm invariavelmente um baixo nível de escolaridade, sem emprego, ou então, emprego de enorme precariedade, baixíssimos rendimentos e hábitos de vida incompatíveis com as suas reais possibilidades. E claro, uma estrutura de personalidade cheia de brechas.

Recordo frequentemente o caso de Valentina, a menina assassinada pelo próprio pai, na Atouguia da Baleia. Em directo, dizia um repórter de televisão que ele, o assassino, saiu de casa, atravessou a rua, foi ao café beber uma cerveja e regressou, sem prestar declarações. A minha perplexidade é esta: que apetite de cerveja terá um homem, horas depois de ter assassinado a própria filha? Um pequeno episódio que é suficientemente eloquente, para definir este tipo de gente. E o quadro legal tem de ser revisto com urgência, de modo a poder lidar com pessoas refractárias dos mais elementares valores e cuja dignidade é refém dos seus próprios vícios.

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