Escolha as suas informações

Mata, Marcelino!
Opinião Portugal 3 min. 22.02.2021

Mata, Marcelino!

Opinião Portugal 3 min. 22.02.2021

Mata, Marcelino!

Sérgio FERREIRA BORGES
Sérgio FERREIRA BORGES
Com a sua morte, Marcelino da Mata desencadeou uma polémica estéril, tão estéril, porque grande parte dos portugueses não sabe, ou não se lembra, do passado desta figura.

Recordemos alguns factos. Marcelino da Mata era um guineense que se juntou ao exército português, para combater o seu próprio Povo, durante a guerra colonial. Foram-lhe atribuídos feitos heróicos, consagrados com as mais altas distinções do Estado português. Só Cruzes de Guerra parece que foram três. A par disso, um mercenário sem qualquer formação foi conseguindo sensibilizar os altos comandos que o promoveram a 1º cabo e depois a capitão, graduado em tenente-coronel. Em tudo isto, há muita bizarria que ninguém, alguma vez, conseguiu justificar.

Os feitos épicos que justificaram tão vertiginosa progressão (…) não passaram de abomináveis massacres...

Os feitos épicos que justificaram tão vertiginosa progressão, segundo algumas fontes, não passaram de abomináveis massacres contra a população civil, completamente desarmada, provocados pelo ódio étnico. Ele pertencia à etnia Papel e odiava a etnia Balanta, maioritária na Guiné-Bissau. Naquele pequeno território, existem 12 etnias e quatro línguas nacionais (os chamados dialectos), com reconhecimento oficial. Justificava o seu ódio com o facto, nunca provado, de os guerrilheiros do PAIGC terem chacinado a sua família.

Mas, em todas as ex-colónias, existiram outras figuras semelhantes que nunca mereceram tanta condecoração e tanta promoção. Ainda na Guiné-Bissau, lembro-me de ouvir falar de um tal "Penalty", que me foi descrito como um "pintas" dos bairros populares de Lisboa. Depois de cumprir pena no forte de Elvas por deserção, foi enviado para aquela antiga colónia, onde chefiou um grupo de mercenários de recrutamento local, com o qual cometeu as mais hediondas barbaridades.

Em Moçambique, ficou célebre um tal Daniel Roxo que actuava na região do Niassa. Tal como Marcelino, também justificava as suas atrocidades com a morte da mulher, às mãos da Frelimo. Depois da independência, foi combater para Angola, como mercenário, a soldo da África do Sul do apartheid. Acabou por se abatido, na fronteira entre Angola e a Namíbia. Havia outro, com a mesma origem e igual destino. Chamava-se Ponciano Gomes Soeiro e chegou a ser graduado em sargento, pelo exército colonial.

Por tudo isto, não se percebe que Marcelino da Mata tenha alcançado a glória de ser o militar português mais condecorado, enquanto outros da mesma estirpe tiveram de fugir após o 25 de Abril, para continuarem a matar, ganhando assim a sua indecorosa vida.


O Capitão Marcelino da Mata participa na manifestação de comandos africanos, da Guiné-Bissau, junto ao Ministério da Defesa contra o abandono por parte das autoridades portuguesas, em Lisboa a 21 de agosto de 1986.

Manuel Moura / Lusa
As estátuas do presente
Quem é o "nós" que celebra Marcelino da Mata como "herói"? De que "heróis" precisa a direita para reescrever a história? Uma crónica de Raquel Ribeiro.

Como não se percebe a polémica gerada com a sua morte e que logo dividiu a sociedade portuguesa. A direita mais conservadora alinhou na defesa deste a quem chamam de "herói nacional", contra aqueles que, no seu entender, mancharam a honra da Pátria. Do outro lado, ficou o bom-senso daqueles que questionam as responsabilidades de quem promoveu este oprobrioso escândalo.

E os argumentos rapidamente foram substituídos pelos insultos mais infames. O que demonstra que o tempo não está de feição, para aqueles que têm opinião própria, porque, em troca, arriscam-se a receber o mais vil enxovalho. A sociedade portuguesa está pesada, como chumbo. Tão pesada como foi a vida de Marcelino da Mata, a quem os soldados portugueses inverteram os nomes, para lhe chamarem Mata Marcelino. Porque terá sido?

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.