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Marx é que tinha razão
Opinião Portugal 3 min. 07.10.2021
Plano Nacional de Leitura

Marx é que tinha razão

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Marx é que tinha razão

Foto: Wikimedia Commons
Opinião Portugal 3 min. 07.10.2021
Plano Nacional de Leitura

Marx é que tinha razão

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
Muito medo tem a direita de que as pessoas leiam livros. As "guerras culturais" alimentadas pelos liberais de pacotilha em Portugal continuam: agora é o Plano Nacional de Leitura sob ataque.

Esta semana, um liberal da pacotilha portuguesa da escola Friedman deu-se conta de que o Plano Nacional de Leitura incluía o livro do teórico britânico Terry Eagleton, "Porque é que Marx tinha razão" (um livro de 2011, recentemente publicado em português pelas Edições 70). Os liberais têm demasiado tempo nas mãos, põem-se a fazer control+find até ao fim do Google ao sábado de madrugada e não sabem que a luz azul do ecrã lhes faz mal.

Terry Eagleton, 78 anos, é especialista em literatura inglesa e teoria literária, foi aluno de Raymond Williams, e a sua longa obra debruça-se, entre inúmeros estudos teóricos, sobre análise literária (sim, coisas como Shakespeare, as irmãs Charlotte ou Emily Bronte, Samuel Richardson, clássicos canónicos anglófonos) sob um prisma marxista.

Coincidentemente, Eagleton foi professor em Manchester. Engels também viveu em Manchester, Marx visitou-o muitas vezes: parece haver aqui todo um complot da esquerda para dominar o livre pensamento a partir do noroeste industrial britânico.

Para os potenciais leitores que salivam ao primeiro som do termo "marxista", Eagleton escreveu "Porque é que Marx tinha razão". Para continuar a explicar que o marxismo não é uma doutrina, nem um sistema, nem um modelo, nem um regime, nem um credo, nem um governo; que Marx não era político, mas um filósofo especialista em História e Economia; e que o marxismo é uma ferramenta de leitura do mundo que tem no seu centro o estudo das relações e conflitos socio-económicos e de classe. 

E que, portanto, quando Terry Eagleton lê Shakespeare usando marxismo, essencialmente passa à frente das questões amorosas pueris da juventude para explicar que situação económica dividia Capuletos e Montéquios, em Verona, e porque é que Julieta e Romeu não podiam ser amantes.

Muito medo tem a direita de que as pessoas leiam livros. Num país 'sovietizado' como Portugal, é evidente que o Plano Nacional de Leitura é uma cartilha de doutrinação ideológica, dos livros juvenis de "Uma Aventura" passando pelo novo romance da Lídia Jorge.

Tudo se pode analisar com o marxismo como ferramenta, lendo todo o cânone d’Os Lusíadas ao José Rodrigues dos Santos (se houvesse quem o fizesse na academia lusófona). Nunca o marxismo foi tão útil, porque o pensamento de Marx deixou um legado teórico com que ainda hoje podemos analisar o mundo, e cito Eagleton: "Alienação, a 'mercantilização' da vida social, uma cultura de ganância e agressão, o hedonismo irracional e o niilismo crescente, a existência humana constantemente privada de significado e valor: é difícil encontrar uma discussão inteligente destas questões que não tenha uma dívida séria para com a tradição marxista."

Talvez o busílis esteja na expressão "discussão inteligente", coisa praticamente impossível com a direita que nos calhou. Até o Plano Nacional de Leitura, criado em 2006 para combater os baixíssimos níveis de literacia em Portugal, e que inclui livros recomendados, em vários géneros (literários!) e para todas as idades, escolares, universitárias, adultos, está agora sob ataque com acusações de "marxismo cultural".

Como dizia Marx, "as ideias da classe dominante são, a cada época, as ideias dominantes". Isto é, quem tem poder económico é quem detém o poder sobre os espíritos, a cultura, as ideias e a sua disseminação. Muito medo tem a direita de que as pessoas leiam livros. Num país "sovietizado" como Portugal, é evidente que o Plano Nacional de Leitura é uma cartilha de doutrinação ideológica, dos livros juvenis de "Uma Aventura" passando pelo novo romance da Lídia Jorge. Já eu, cá do norte industrial britânico, e participando activamente desse complot, só espero que as pessoas leiam mais Terry Eagleton (e Marx).

(Autora escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.)

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