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Manual de sobrevivência para quem passa o Natal em Portugal
Portugal 9 min. 16.12.2020 Do nosso arquivo online

Manual de sobrevivência para quem passa o Natal em Portugal

Manual de sobrevivência para quem passa o Natal em Portugal

Foto: LUSA
Portugal 9 min. 16.12.2020 Do nosso arquivo online

Manual de sobrevivência para quem passa o Natal em Portugal

Ana TOMÁS
Ana TOMÁS
Apesar de manter restrições, o país prepara-se para aliviar algumas medidas e não limita o número de visitantes por casa.

Para quem vive no Luxemburgo e numa Europa cada vez mais confinada um Natal passado em Portugal poderá parecer um paraíso. No caso dos emigrantes, não só porque  é um regresso à terra de origem e ao reencontro com a família, mas também porque as restrições, impostas pela pandemia, são mais suaves a sul do que no Grão-Ducado e países vizinhos.

O Governo português vai permitir a circulação entre concelhos no Natal e Ano Novo, e o horário do recolher obrigatório e de funcionamento dos restaurantes será flexibilizado. Um contraste com a realidade luxemburguesa, mas que não será suficiente para demover Tânia Carvalho da decisão de ficar no Grão-Ducado, nesta quadra.

Aos 33 anos, e a viver no sul do país há mais de oito, casada e com dois filhos, este é o terceiro ano que não regressa ao Entroncamento para passar o Natal com os restantes familiares. Eles são a única coisa de que sente falta no Luxemburgo, apesar de um dos seus irmãos viver em França, junto à fronteira.

"Este ano, o Natal vai ser aqui", diz ao Contacto, acrescentando que vai aproveitar esses dias para passar mais tempo com as crianças. Mesmo assim não nega que é nesta altura que as saudades apertam. "Normalmente, vamos sempre a Portugal passar o Natal, porque é a época em que mais me custa cá ficar. Éramos para ter ido no verão. Não fomos porque as coisas não estavam em condições para irmos e nós temos crianças, não podemos correr riscos com elas. Depois pensámos em ir no Natal, mas decidimos não ir."

Ao contrário dos natais em Portugal, onde estão "habituados a uma casa cheia", com pais, irmãos, sobrinhos e cunhados a superarem a dezena, desta vez a data será passada apenas a quatro, podendo vir a juntar-se mais duas pessoas, o limite de visitas permitido no Luxemburgo, em cada casa, este ano.

Em Portugal não há um máximo de pessoas definido para estar na mesma habitação, além dos seus residentes, ainda que para os ajuntamentos em eventos e celebrações informais o limite seja de cinco, salvo se forem do mesmo agregado familiar.

As regras de Natal e Ano Novo em território português

O Governo português decidiu permitir que as famílias se juntassem no período das festas, apostando numa lógica de “máximo de pedagogia e o mínimo de regras”, como disse António Costa em entrevista ao Observador, no início deste mês. Essa é, pelo menos, a realidade para o Natal, que o primeiro-ministro avisou, desde logo, não poder ser igual ao dos outros anos. Já a passagem de ano "vai ter todas as restrições".


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No período do Natal, a circulação entre concelhos é permitida e o horário para se poder andar na via pública é mais alargado que o atual, nos concelhos de risco elevado, muito elevado e extremo. Mas há regras: não serão permitidos ajuntamentos com mais de seis pessoas na rua. 

Na noite de 23 para 24 é possível atravessar concelhos para quem se encontrar em viagem. A possibilidade mantém-se nos dias 24 e 25 e será permitido circular na via pública até às 2h do dia seguinte, e no dia 26, até às 23h. 

Neste período, que apanha as festas e parte do fim de semana, há também boas notícias para a restauração. Nas noites de 24 e 25, os restaurantes vão poder funcionar até à 1h, e no dia 26, sábado, poderão estar, excecionalmente, abertos até às 15h30 nos concelhos de risco muito elevado e extremo. Recorde-se, que nos fins de semana que antecedem o Natal, os restaurantes, nessas zonas, têm de fechar às 13h, estando apenas disponíveis para serviços de takeaway.

O Funchal é, para já, a única cidade a manter o seu tradicional fogo-de-artifício, uma vez que o Governo da Madeira goza de autonomia para definir as suas próprias regras.
O Funchal é, para já, a única cidade a manter o seu tradicional fogo-de-artifício, uma vez que o Governo da Madeira goza de autonomia para definir as suas próprias regras.
Foto: LUSA

Ao contrário do que acontece no Natal, no período do Ano Novo não será possível circular entre concelhos. A proibição começa entre a meia-noite do dia 31 e dura até às 5h de dia 4 de janeiro. 

Na noite da passagem de ano é possível circular na via pública, dentro do mesmo concelho, até às 2h, mas não para assistir a animação de rua ou ao tradicional fogo de artifício. Estão "proibidas festas públicas ou abertas ao público", pelo menos, em Portugal continental. É possível, no entanto, passar o ano num restaurante, já que estes estarão em funcionamento até à 1h. Tal como a 26 de dezembro, no primeiro dia de 2021, os estabelecimentos de restauração podem estar abertos até às 15h30 nos concelhos de maior risco. Sem qualquer restrição adicional, as cerimónias religiosas, incluindo a Missa do Galo, poderão realizar-se, cumprindo as normas da DGS.

Sobreviver ao Natal

Apesar da flexibilidade dada para esta altura do ano, o Governo sublinha que os portugueses devem continuar a cumprir as normas sanitárias e, durante as festas de Natal e Ano Novo, evitar juntar muitas pessoas em casa, estar muito tempo sem máscara e em espaços fechados, pequenos e pouco arejados.

Os especialistas em saúde reforçam os avisos e dão alguns conselhos práticos de como organizar a casa, os convívios e os comportamentos para que a pandemia não transforme esta quadra festiva num pesadelo em janeiro.

Elisabete Ramos, investigadora do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP) e presidente da Associação Portuguesa de Epidemiologia (APE), lembra que os cuidados devem começar já nas duas semanas que antecedem no Natal, sobretudo para quem passar a data fora. "Reduzir ao máximo contactos, ou com pessoas com quem habitualmente não se contacta, evitar jantares com outras pessoas, grupos, e situações em que se possa estar mais desprotegido" são alguns dos conselhos que a especialista deixa aos emigrantes que se preparam para sair do Luxemburgo, e não só, para se juntarem aos seus familiares em Portugal.


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A opção de realizar um teste de rastreio antes da viagem não invalida o seguimento dessas restrições, até porque os níveis de incidência entre os dois países são semelhantes. "Se alguém imagina que possa ter estado em risco, é melhor que faça o teste. Por outro lado, é importante pensar que um teste negativo não garante a cem por cento que não haja infeção, porque temos sempre um período em que já houve um contacto, mas ainda não há carga vírica suficiente para que o teste dê positivo", explica Elisabete Ramos.

Uma quarentena voluntária antecipada é a melhor forma de prevenção antes do reencontro familiar, que vai trazer outros desafios. Sinalizados como potenciais focos de contágio, os momentos de refeição pedem cautelas extra na ceia e no almoço de Natal, que costumam reunir diferentes agregados familiares à mesa. Este ano, defende a investigadora, o lema deve ser "partilhar mais as histórias do que propriamente a refeição". "Quem vem visitar o país, visita várias pessoas e quer estar com muita gente, por isso, aquelas pessoas que, de facto, não vão estar na ceia de Natal, que se visitem sem partilha de refeição, para que possam estar a conversar com alguma distância e sempre com máscara", ilustra.

No que se refere à ceia e ao almoço de dia 25, Elisabete Ramos recomenda "minimizar ao máximo o número de pessoas que estarão a jantar juntas". Ainda que Portugal não tenha imposto um número fixo de visitantes, a investigadora defende que mais importante é tentar que o número de pessoas seja "o aceitável" para o espaço disponível e para cada família. "O princípio é sempre o mesmo, é juntar o mínimo possível e de acordo com as condições do espaço físico onde as pessoas vão estar juntas, se se podem distribuir por duas salas, por exemplo." Além da distribuição espacial dos convidados, dividir os grupos por "bolhas" também é preferível a fazê-lo por idades. "Se as pessoas que habitualmente já contactam mais ficarem juntas, o Natal não vai ser um risco muito maior."

Em caso de pernoita ou de alojamento na casa dos familiares, os cuidados descritos devem ser reforçados e a investigadora aconselha que se adote uma postura de maior afastamento e autovigilância ativa. "Deve-se ter particular cuidado com as pessoas mais vulneráveis, como os idosos, e mesmo estando em casa, andar de máscara, lavar as mãos várias vezes, ou usar gel desinfetante, e, antes de vir, tentar fazer, se possível, uma espécie de quarentena", refere, acrescentando que numa altura que é também propensa a gripes, é importante estar alerta e não desvalorizar os sinais do corpo. "Se a pessoa sente que está com alguma febre, com aqueles arrepios, dor de cabeça, deve, em caso de dúvida, tomar medidas como se fosse uma infeção por covid. Isto é, manter ainda mais a lógica da distância, da máscara, da lavagem das mãos, de não partilhar alimentos."


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Na segunda-feira, a Ministra da Saúde, Marta Temido, também deixou um apelo público aos portugueses para que vivam o Natal deste ano de “forma refletida e cuidadosa”. "Não podemos, em nome dos próximos natais, em nome das nossas famílias e em nome dos profissionais de saúde, abandonar a atitude que temos tido. Não lhes podemos pedir mais e temos de ouvir o pedido deles para termos o máximo cuidado na nossa vida diária", reforçou em declarações aos jornalistas.

Semana decisiva para evitar "puxar o travão de mão"

Mesmo apostando na pedagogia e no reforço das recomendações, só na sexta-feira, quando o Governo fizer nova avaliação da evolução dos números da pandemia se saberá se o aligeirar das restrições no Natal e Ano Novo são mesmo para ficar.

No dia 18 de dezembro, será revisto o mapa de risco e reavaliada a situação epidemiológica de cada concelho. "Se necessário", lê-se no site oficial sobre a covid-19, haverá um "agravamento das medidas". Um aviso que António Costa deixou de imediato, assim que anunciou as exceções para a quadra natalícia. "Se as coisas se alterarem radicalmente, se voltarmos a ter um crescimento exponencial da epidemia, teremos de puxar o travão de mão", afirmou.

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