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Madonna e os carros dela

Madonna e os carros dela

Foto: AFP
Editorial Portugal 3 min. 10.07.2018

Madonna e os carros dela

Sergio Ferreira Borges
Sergio Ferreira Borges
Ficámos a saber que, para a Câmara de Lisboa, o Ministério da Cultura e Madonna são entidades semelhantes.

Para mim, os cidadãos são todos iguais em direitos e deveres. Por essa razão, abomino os privilégios, sejam quem forem os beneficiários. Mas há portugueses pacóvios que se deixam deslumbrar por uma estrela pop, no caso, Madonna.

A cantora norte-americana, que recentemente fixou residência em Lisboa, onde comprou um palacete, na zona das Janelas Verdes, já percebeu que o poder político em Portugal é saloio e que cede facilmente aos seus caprichos.

Por isso, pediu à Câmara Municipal o privilégio de lhe conceder um terreno onde pudesse estacionar os seus 15 – eu disse 15 – automóveis. E a Câmara, subserviente, correu diligentemente para o Museu Nacional de Arte Antiga, pedindo àquela entidade que cedesse o seu próprio parque de estacionamento para responder às extravagâncias da cantora.

Felizmente, o diretor do museu, António Filipe Pimentel, recusou o absurdo pedido. A Câmara não desistiu e conseguiu encontrar uma alternativa, ali próxima, nas traseiras do Palacete Pombal, situado a 300 metros da residência da cantora.

O terreno em causa é propriedade municipal e a Câmara diz que a cedência é temporária, durando até à conclusão de obras que decorrem na Rua das Janelas Verdes. E, para amaciar a decisão, diz que em tempos aquele espaço também já foi cedido, para os mesmos fins, ao Ministério da Cultura. Ficámos a saber que, para a Câmara de Lisboa, o Ministério da Cultura e Madonna são entidades semelhantes.

Imaginem uma situação inversa. Por exemplo, se Cristiano Ronaldo decidisse fixar residência em Nova Iorque, a Câmara local ceder-lhe-ia um espaço para estacionar a sua frota automóvel? Claro que não. E até ridiculizaria a ousadia de tamanha pretensão.

Em Portugal, tudo é diferente. Os pacóvios instalaram-se no poder e acham que uma vedeta pop, de fama mundial, tem direitos idênticos aos de um ministério e que quem manda tem a obrigação de ceder à extravagante ostentação de uma mulher que tem dinheiro a mais e bom senso a menos.

Diz a Câmara que, terminada a cedência do terreno, Madonna vai pagar por ele uma renda, mas não diz de quanto será, nem que tipo de contrato será celebrado. Está mal. Tudo o que é público deve ser transparente, única forma de permitir o escrutínio dos cidadãos.

Por acaso, Madonna é-me completamente indiferente. Tão indiferente que, apesar de ter recebido convite para um dos seus espetáculos em Portugal, preferi ficar em casa. E, por esquecimento, nem sequer exerci o acto benemerente de dar o convite a alguém mais interessado do que eu.

Mas ainda que se tratasse de qualquer outra celebridade credora da minha admiração, eu deploraria sempre uma subserviência deste tipo.

Quem viver em Portugal terá sempre de se sujeitar às mesmas regras dos portugueses, sem usar alguma vez de privilégios bizarros, absurdos, injustificáveis.

A zona onde a cantora vive é de muito difícil estacionamento, reconheço. Mas é tão difícil para ela como é para os que lá moram ou lá trabalham. E a Câmara Municipal tem a obrigação de tratar todos os cidadãos com equidade e insuspeita igualdade. Mas não está a fazê-lo, reconhecendo a uma estrela mundial direitos que são negados a qualquer outro cidadão. Que culpa têm os moradores locais que Madonna tenha 15 automóveis? Que culpam têm os portugueses que Madona tenha adotado um estilo de vida que o espaço urbano não comporta?

Enquanto escrevo, lembro-me da Rua de S. Bento, onde morava Amália Rodrigues. O estacionamento era proibido dos dois lados da rua. Para resolver a questão, Amália estacionava dentro das instalações do Clube Nacional de Natação, bem ao lado da sua moradia e, por isso, pagava uma avença. Nunca teve o atrevimento de pedir à Câmara Municipal a cedência de um terreno. E só tinha dois carros.

Mas Madonna é Madonna. É americana, riquíssima, famosa em todo o mundo e, por isso, ainda há quem pense que a sua permanência em Lisboa vai trazer benefícios económicos à capital e ao país. Quando um dia se fizerem essas contas, talvez percebam que se enganaram.

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