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Liberdade e libertinagem
Editorial Portugal 3 min. 28.04.2020

Liberdade e libertinagem

Liberdade e libertinagem

Foto: AFP
Editorial Portugal 3 min. 28.04.2020

Liberdade e libertinagem

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
O ameaçar irresponsável da vida alheia não é liberdade – é libertinagem, e da egoísta.

A esperança e o medo caminham lado a lado, pelo que aceitando que há males que não podemos controlar - assim abandonando a irracional esperança de que “vai dar tudo certo” - também o medo se esfuma. Devemos esperar o pior, mas fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para evitá-lo. Ao mesmo tempo, compreendamos que somos mais fortes do que pensamos; podemos controlar a nossa mente e recordar a cada momento que é possível sobreviver até aos tempos mais negros. E estes, fatalmente, chegarão!

A filosofia estóica de Séneca resumida no parágrafo anterior permite entender porque é que os seus livros, velhos de dois milénios, se tornaram de repente populares nestes tempos de crise em que vivemos. Ao mesmo tempo não fazem quaisquer favores a quem tenta descolar os rótulos de “filósofo do pessimismo”, ou “depressivo”, que os textos escritos no exílio granjearam ao brilhante cidadão romano nascido em Córdova.

O estoicismo contém lições úteis e actuais, como sublinhou ainda hoje um conceituado professor de Ética, Peter Schaber, ao defender basicamente uma espécie de retorno ao pessimismo. “Alguns países ainda estavam menos preparados do que outros para a pandemia do coronavírus, mas ninguém no mundo estava. E no entanto, uma pandemia sempre foi uma possibilidade que devia ter sido considerada. O problema aqui é que temos tendência a pensar que tudo vai acabar por correr bem, mas devemos mudar a nossa posição e tornar-nos mais pessimistas… de forma activa. Ou seja fazendo tudo para evitar o pior cenário”.

Falhada a prevenção, restou-nos a reacção; e na ausência de uma vacina, de uma cura ou mesmo de testes disponíveis, restou-nos a solução histórica, mais velha do que o próprio Séneca – a quarentena. Os confinamentos impostos em toda a Europa (e mundo) estão a destruir as economias e a levar-nos todos passo a passo até à loucura, mas continuam a ser a única opção para evitar o pior – e o pior, neste caso, seria o desmoronar da sociedade como a conhecemos, com a maioria da população infectada e sem assistência médica. E a verdade é que estamos a começar a colher os frutos das privações do último mês e meio: as famosas curvas estão a achatar, e estamos a marcar datas para o relaxamento das medidas.

É aqui que entram os cantos de sereia: “veem, afinal não era preciso este exagero” ou “isto não passa de uma conspiração do governo de […] (inserir país) para nos assustar/controlar/assaltar (riscar o que não se aplica)”. Ou seja, estamos quase a entrar no domínio da dúvida, aquela fase talvez inevitável em que tudo é posto em causa: valeu a pena? E em Berlim ou Bruxelas, os jovens saem à rua em bandos para contestar o confinamento. E em Washington ou

Chicago, grupos extremistas, armas na mão, reivindicam o seu direito a ir caçar, como queiram, quando queiram, com quem queiram, tudo em nome da “liberdade”. Mas este ameaçar irresponsável da vida alheia não é liberdade – é libertinagem, e da egoísta.

Este sábado passado foi dia 25 de Abril, “o dia inicial inteiro e limpo”, o dia que simboliza para os portugueses a própria essência da Liberdade. Uma boa oportunidade para reflectir sobre o que deste então construímos juntos, e também do que falta construir. Sem nunca deixar de incluir um pensamento recompensador, que bem o merecemos: a resistência e os sacrifícios já feitos pelos portugueses dentro e fora de Portugal nesta crise estão a obter resultados que nos devem deixar orgulhosos e deixar-nos a convicção que, como povo, apesar de 48 anos de ditadura, já regressamos à maioridade. 

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