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Um homem com “um entusiasmo contagiante”
Portugal 3 min. 10.09.2021
Jorge Sampaio

Um homem com “um entusiasmo contagiante”

Jorge Sampaio com as duas gémeas de Mafômedes que conseguiu que voltassem à escola.
Jorge Sampaio

Um homem com “um entusiasmo contagiante”

Jorge Sampaio com as duas gémeas de Mafômedes que conseguiu que voltassem à escola.
Foto: LUSA
Portugal 3 min. 10.09.2021
Jorge Sampaio

Um homem com “um entusiasmo contagiante”

Madalena QUEIRÓS
Madalena QUEIRÓS
“Às vezes parecia uma criança pequena, na forma como se entusiasmava”, relata comovido Tiago Monte Pegado que foi consultor para a juventude no primeiro mandato da presidência de Jorge Sampaio.

Apesar de parecer um homem um pouco distante, quem conviveu de perto com Jorge Sampaio, recorda o seu “entusiasmo contangiante”. “Às vezes parecia uma criança pequena, na forma como se entusiasmava”, relata comovido Tiago Monte Pegado que foi consultor para a juventude no primeiro mandato da presidência de Jorge Sampaio. 

Quando o conheceu era um jovem estudante de arquitectura e Sampaio liderava a Câmara de Lisboa. Tiago Monte Pegado, na altura da associação de estudantes da Faculdade de Arquitectura, já admirava o seu passado, enquanto dirigente estudantil na década de sessenta na luta contra o fascismo. E a sua personalidade fascinou-o. A partir daí Tiago Monte Pegado nunca mais se afastou. Dedicou todo o seu tempo livre à campanha presidencial de Sampaio na década de noventa, na qual recorda estar rodeado de pessoas com uma pluralidade de origens políticas.

Dias depois da vitória reencontraram-se, por acaso, no meio de uma paisagem de sobreiros, em pleno interior do Alto Alentejo. “Ainda bem, que o encontro!”, disse Jorge Sampaio. “Tenho estado a pensar nos problemas da juventude e gostava de falar consigo”. Surpreso Tiago viu-se mais de duas horas a andar e a falar com o eleito presidente com a paisagem alentejana em pano de fundo.

Mas foi no Forte de Catalazete que esta conversa continuou. Foi convidado por Jorge Sampaio para uma reunião e, na altura, levou o seu amigo Gustavo Cardoso, que também era dirigente estudantil. No final da conversa Tiago e Gustavo disseram, a medo que iam pensar em quem poderia ajudá-lo nas questões da Juventude. Sampaio reagiu com humor: “Mas ainda não perceberam? Afinal porque é que pensam que vos chamei para falar comigo? Quero que sejam vocês!” E assim Tiago começou a sua aventura como consultor para a juventude do presidente Jorge Sampaio, juntamente com Gustavo Cardoso.

Recorda o seu sentido de “grande gratidão” e a “aprendizagem estruturante e estrutural” que lhe proporcionou. “Era um homem de grande exigência, rigor intelectual, humanismo incrível. Um verdadeiro republicano”, diz. Com “uma enorme sensibilidade não ficava indiferente a qualquer injustiça. Era um homem muito à frente do seu tempo.”

E depois conta uma sucessão de episódios que viveu ao lado de Sampaio que o marcaram profundamente. O discurso arrepiante que fez na Assembleia-Geral das Nações Unidas em defesa de Timor-Leste, num inglês perfeito e que “acordou o mundo todo para o problema”. O dia em que receberam os estudantes que sobreviveram ao massacre de Santa Cruz, no Palácio de Belém e em que tiveram que ficar afastados para não se comoverem. “Se ficarmos frente a frente vou começar a chorar antes de si”, disse-lhe então Tiago na preparação da reunião. Afinal aguentaram-se os dois sem deixar cair uma lágrima.

Mas são conhecidos os muitos momentos em que Sampaio se emocionou em público. O arquitecto recorda que Sampaio se “comovia sobretudo com as injustiças”. “As injustiças profundas contra as quais lutava eram o motor que lhe dava energia para procurar novas soluções para resolver os problemas”.

  O Presidente da Republica,Jorge Sampaio, durante a visita que hoje efectuou a Escola EB2/3 de Paranhos, no Porto em 2004.
O Presidente da Republica,Jorge Sampaio, durante a visita que hoje efectuou a Escola EB2/3 de Paranhos, no Porto em 2004.
Foto: LUSA

Das Semanas da Educação promovidas pelo Presidente, recorda o episódio das gémeas de Mafômedes que conseguiu que voltassem à escola, depois de ter convencido os pais que queriam que elas trabalhassem para ajudar a família. Um momento simbólico que fica para a história na luta contra o abandono e insucesso escolar em Portugal porque as pessoas interiorizaram que “a escola era de facto para todos”.

O mais recente programa de bolsas para estudantes sírios que reforçou quando foi anunciada a tomada de Cabul pelos taliban, “é outro exemplo” do quanto visionário era Sampaio, enquanto político. Percebendo que o país só poderia ter futuro “se essas pessoas não desaparecessem, nem deixassem de estudar”. Um homem sempre à procura de soluções surpreendentes para os problemas e preocupado com os outros e com o mais pequeno dos problemas.

Tiago Monte Pegado recorda emocionado que a história de Sampaio terminou justamente onde tudo começou, no início do seu primeito mandato presidencial: no Hospital de Santa Cruz.  Uma figura que vai fazer muito falta à política portuguesa, concluiu.

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