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Isabel do Carmo. Jorge Sampaio, um presidente da “liberdade”
Portugal 4 min. 10.09.2021
Jorge Sampaio/ 1939-2021

Isabel do Carmo. Jorge Sampaio, um presidente da “liberdade”

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Isabel do Carmo. Jorge Sampaio, um presidente da “liberdade”

AFP
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Jorge Sampaio/ 1939-2021

Isabel do Carmo. Jorge Sampaio, um presidente da “liberdade”

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
A médica e ativista política recorda o amigo de longa data e companheiro da luta estudantil contra a ditadura nos anos 60, e na defesa dos presos políticos. "Lutámos pela liberdade", diz.

“Jorge Sampaio deve ser lembrado como um homem de grande estatura política, baseado numa estrutura moral e personalidade muito sólida e muito respeitadora dos direitos humanos e capaz de ter atitudes de coragem quando elas são necessárias”. É assim que a médica e ativista política portuguesa Isabel do Carmo defende que o amigo e colega da luta estudantil pela liberdade durante os anos da ditadura deve ser recordado.

“Sinto a sua morte como a perda de um líder da nossa geração do Dia do Estudante, em 1962”, diz Isabel do Carmo relembrando que ambos estiveram envolvidos nas lutas académicas contra a ditadura. Aquele que viria décadas mais tarde a ser Presidente da República de Portugal, tornou-se na altura o rosto da revolta estudantil do início dos anos 60 contra a ditadura de Salazar.

Jorge Sampaio era presidente da Associação Académica da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, onde se licenciou em Direito, e o secretário-geral da Reunião Inter-Associações Académicas (RIA), em 1961 e 1962, liderando o importante Movimento do Dia do Estudante, de contestação à opressão do regime que se manteria ativo até ao 25 de abril.

Rodrigo Cabrita

Líder movimento estudantil

Isabel do Carmo, estudante de medicina e dirigente da Comissão Pró-Associação da Faculdade de Medicina, era das raras mulheres envolvidas neste combate. “Em 1962, pela primeira vez, encheu-se o Estádio Universitário de estudantes, a tribuna era presidida por Jorge Sampaio e eu era a única mulher naquele palanque frente a um estádio cheio”, recorda esta médica ligada às Brigadas Revolucionárias.

“Foi um importante momento de levantamento dos jovens contra o Governo, da nossa reivindicação de jovens universitários, com vinte e poucos anos, pela liberdade”, reconhece Isabel do Carmo lembrando que “a guerra colonial tinha começado e o ambiente era o da iminência destes jovens rapazes irem para a guerra”.

“Lutávamos pela liberdade, na época vivíamos com a opressão do regime, não tínhamos liberdade nenhuma, todos os plenários e assembleias estudantis eram feitos em confronto com a polícia”, vinca.


Jorge Sampaio, na altura presidente da Câmara Municipal de LIsboa, no meio da multidão no desfile comemorativo do 25 de Abril, na praça do Rossio, em Lisboa, em 1990.
Jorge Sampaio. Presidente, socialista, paciente e conciliador
Foi um dos protagonistas da crise académica do princípio dos anos 60, que gerou um longo e generalizado movimento de contestação estudantil ao Estado Novo.

Defesa dos presos políticos

Muitos anos mais tarde, Isabel do Carmo e muitos outros colegas do movimento do Dia do Estudante, juntaram-se no movimento de candidatura à presidência da República de Jorge Sampaio, em 1996.

“Para mim, o facto de Jorge Sampaio se tornar Presidente da República foi como o corolário dos anos de luta, um símbolo de que o movimento pela liberdade tinha alguém a representá-lo ao mais alto nível”, entende Isabel do Carmo. A par com a luta dos estudantes, Jorge Sampaio desempenha também um papel ativo na defesa dos presos políticos.

A ativista recorda ainda outro momento de grande significado: a visita à prisão de Caxias por ocasião dos 25 anos do 25 de abril: “Com Jorge Sampaio, eu e muitos outros presos políticos do regime fomos em excursão visitar a cadeia onde nós próprios estivemos presos. Foi um momento muito especial, uma consagração da nossa vitória, a vitória da liberdade".

Em 2004, Jorge Sampaio condecora Isabel do Carmo com o grau de grande oficial da Ordem da Liberdade, uma distinção que a enche de orgulho. "Ele era uma pessoa muito discreta, mas sei que tinha bastante amizade e respeito por mim, tendo-me condecorado com a medalha da Ordem da Liberdade".

Contra a guerra do Iraque

Jorge Sampaio era um “homem de causas de grande coragem”. A decisão de dissolução da Assembleia da República, no governo de Santana Lopes, em 2004, é para Isabel do Carmo, um dos exemplos da coragem do amigo. Foi a primeira vez que um presidente da República portuguesa usou esse poder. 

“Lembro-me que falei com ele na altura da dissolução, foi o único que lançou a 'bomba atómica', como ficou conhecida, e teve direito a fazê-lo. Ele era uma pessoa muito discreta e disse-me na conversa que sucederam coisas muito graves e ele tinha de tomar aquela decisão. Tomou-a sozinho, embora já houvesse pressões, mas a decisão coube-lhe a ele”, realçou Isabel do Carmo. Para esta médica houve outra decisão fundamental do presidente Jorge Sampaio: “Enquanto chefe das Forças Armadas opôs-se à participação do exército português Portugal na invasão do Iraque”.


O antigo Presidente da República, Jorge Sampaio, participa na sessão evocativa dos 30 anos do Moderno Planeamento Estratégico de Lisboa que foi introduzido durante o seu primeiro mandato na Câmara Municipal de Lisboa, no Cineteatro Capitólio, em Lisboa, 27 de janeiro de 2020. MÁRIO CRUZ/LUSA
Morreu Jorge Sampaio
O antigo Presidente da República Jorge Sampaio morreu esta sexta-feira aos 81 anos, disse à agência Lusa fonte da família.

Mesmo depois da saída da vida política, a ativista política vinca que Jorge Sampaio “continuou muito sensível às guerras naquela zona, continuando solidário com esses povos e, sobretudo com os jovens estudantes, ao criar a Plataforma Global para os Estudantes Sírios, tendo agora anunciado o seu empenho em trazer também estudantes afegãos”.

A antiga companheira de luta fala da “grande estima” que tinha pelo seu amigo Jorge Sampaio: “Como amigo tinha uma grande estima por ele, uniu-nos uma amizade profunda, e eu tinha uma grande admiração por Jorge Sampaio. Era uma pessoa especial, que nunca se pôs em bicos de pés, nunca quis dar nas vistas, um homem justo e muito discreto”.

Jorge Sampaio faleceu esta manhã, aos 81 anos, no Hospital de Santa Cruz, em Lisboa, onde estava internado desde sexta-feira passada. O antigo presidente da República estava de férias no Algarve com a família quando se sentiu mal, com problemas respiratórios tendo sido hospitalizado no Hospital de Portimão, sendo depois transferido para Santa Cruz em Lisboa. 

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