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Je vous salue Marie

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13 de Outubro

Je vous salue Marie


por Luís Pedro Cabral/ 23.10.2021

Peregrinos ,negócios e ambientes.

No passado 13 de Outubro, que assinala a “sexta” aparição de Nossa Senhora do Rosário aos três pastorinhos, o Santuário de Fátima encheu-se de novo de gente. Algo que em 109 anos da sua existência, nunca tinha acontecido, aconteceu nos dois anos anteriores. Foi como se por causa da pandemia os peregrinos tivessem cumprido a mais dura das penitências. Acabaram neste dia as suas moratórias. Voltou a Fátima o seu alimento: a multidão.

Um dia, a simples existência de três crianças para sempre desapareceu numa aparição. Francisco Marto era a imagem anacrónica de um homem num corpo de um menino. Tinha um olhar circunspecto, triste. As suas feições não encontravam correspondência na idade. Em 1917, fazia nove anos. Usava uma carapuça de campino, jaleca curta, um saco de farnel ao pescoço, na mão um cajado. Era o mais reservado dos pastorinhos. Jacinta, dois anos mais nova, e Lúcia Rosa dos Santos, prima direita de ambos e a mais velha, completavam a tríade.

Foto: Valter Vinagre

Na aldeia de Aljustrel, freguesia de Fátima, concelho de Ourém, todos sabiam que Manuel Pedro Marto era um homem sério, de bom trato e escassas palavras, incapaz de faltar aos compromissos e às missas. Casou em 1897 com Olímpia de Jesus, que já tinha dois filhos do primeiro matrimónio. Jacinta, com sete anos, era a mais nova da prole. E a mais extrovertida, dentro do seu traje de comadre, sempre alegre e comunicativa. Nos antípodas do irmão, constantemente à procura de esconderijo entre uma família de onze pessoas, coisa que não era possível em casa, que já parecia de miniatura sem gente. Era um labirinto sem recanto, onde a privacidade não era possível. Também não era sítio para se esconder um segredo. 

De têmpera, era Francisco, o menos expansivo dos seus nove filhos, quem mais se assemelhava ao pai, considerada uma pessoa de elevado sentido de justiça, temente a Deus e à Igreja, a quem a história reservaria o papel secundário de um “austero cartuxo”, que o luto vestiu, como uma pele, e as lágrimas escondeu, como um homem. Lúcia dos Santos era filha de António dos Santos, irmão de Olímpia, a mais nova de sete irmãos. De feitio, estava entre Jacinta e Francisco. Nem era tão calada como o primo, nem tão faladora como a prima. Usava quase sempre um lenço à cabeça, como uma mulherzinha do campo, como Jacinta.

Aljustrel era um casario com meia-dúzia de casas, onde habitava menos de uma centena de pessoas, entregues a si próprias, cercadas de uma vastidão que só no olhar lhes pertencia, condenados ao que a terra lhes dava, dependendo da cultura da batata, do trigo e do milho. E do pastoreio, que ficava entregue às crianças, como eles, que trabalhavam mal tinham corpo para isso. Os tempos, na transição da monarquia para os verdes anos da I República, eram mais duros que o pão, quando havia. 

Viviam no limiar da miséria, paredes-meias com os animais. Havia mais fome do que escolaridade. Era na missa que a aprendizagem se fazia. O mundo, lá no seu lugar inacessível, de onde chegavam imprecisos relatos da mais sangrenta das guerras da Humanidade, estava ainda mais longe do que a Metrópole, capital de tudo e de nada. Para eles, Lisboa não passava de um lugar imaginário, algures entre o céu e o inferno. A sua realidade eram eles, na sua pequena geografia. O seu isolamento era de tal modo perfeito que às tantas já não sabiam se tinham sido eles a isolar-se do mundo ou este a isolar-se deles. Até que três crianças, na sua inocência transcendental, inverteram a ordem de todas as coisas, atravessando mundos maiores que este, viajando por toda a parte sem sair do seu lugar. Que sortilégio, trazer todo o universo católico, apostólico, romano, ao mais isolado dos seus confins.

No dia 13 de Maio de 1917, nas suas transumâncias pelos limites da aldeia, eles convocaram a si este mundo e o outro. Juraram segredo, mas não foram capazes de o guardar. Assim se construiu a mística de Fátima, enquanto as suas vidas desabavam, ascendendo eles, pela via sacra da penitência, à prometida eternidade. Fátima é hoje um santuário muldimensional, altar do mundo, lugar incontornável no calendário mariano. Aljustrel é uma aldeia-museu, à sombra da fé. Do seu anonimato já só conserva um perfume subtil, quando os peregrinos se vão. Os seus pastos, ainda incólumes, são o pasto dos veneráveis. Os da aldeia já não vivem da terra, vivem daquela ser a terra dos pastorinhos.

Foto: Valter Vinagre

De Maio a Outubro, dia 13 é sagrado naquelas paragens. Está para Aljustrel como o Verão para o Algarve. Há uma palavra que se evita, mas que é inevitável: turismo. Se lhe chamarmos turismo religioso, ainda vá que não vá, mas a expressão apropriada é “local de culto”, como diz o senhor Joaquim, que tem uma mercearia mesmo ao lado da casa onde nasceram Francisco e Jacinta, quase em frente à casa de Lúcia. Nestes dias, as ruas de Aljustrel mais parecem uma feira, com algo de medieval, apesar de não haver um peregrino sem um telemóvel em punho, fotografando o que é típico e o que não é. Anda às voltas pela aldeia um pequeno comboio para transportar aqueles a quem as pernas já pesam de mais. Tudo é visitável, tudo idolatrável. 

“Esta é a parede onde os pastorinhos tiraram a famosa fotografia; esta é a casa onde vivia a família Marto – por favor, respeitem a fila; este é o quarto onde dormiam os meninos – por favor, não toquem na mobília; este é o quarto onde dormiam as meninas; esta é a lareira onde se aqueciam no rigor do Inverno; aqui Lúcia fazia as suas orações; ali Francisco se sentava a comer um pedaço de pão e queijo; aquela é a via sacra; aquela a sagrada azinheira; aquela a sagrada rocha onde eles descansavam”. Tudo é típico, nesta altura. Todos são comerciantes. Há santos e santinhas de plástico por toda a parte, terços, fios e colares, casacos de lã, brinquedos para as crianças, aqueles azulejos com adágios populares: “As mulheres quando se juntam a falar da vida alheia, começam na lua nova e acabam na lua cheia” ou “Os homens são o diabo, não há mulher que o negue. Mas todas elas procuram um diabo que as carregue”. O diabo é o ancestral lado B desta história. O diabo foram os últimos dois anos, onde não se via uma alminha na aldeia. O negócio dos pastorinhos são a sua subsistência sazonal. Sem peregrinos, não há milagres.

O regresso do altar

13 de Outubro de 2021, quarta-feira da semana passada. No Vaticano, o Sumo Pontífice, Papa Francisco, evocara a sexta aparição de Nossa Senhora dos Pastorinhos, na Cova da Iria, convidando os católicos à recitação do terço. “Que a bem-aventurada Virgem Maria, de que hoje recordamos as aparições em Fátima, nos guie pelo caminho da contínua conversão e penitência para ir ao encontro de Cristo, sol de justiça. Que a sua luz nos liberte de todo o mal e disperse as trevas deste mundo”. Em Fátima, as palavras do primeiro pastor, como quase tudo ali, são sagradas. Mas a sua convocatória, no destino das palavras, era desnecessária.

Num dos parques de estacionamento de apoio ao Santuário de Fátima, o metro quadrado começava a ser um achado. O sector norte estava preenchido por um exército de autocarros, cujas manobras não aconselhavam a ousadia dos veículos ligeiros, que se estendiam a sul, em direcção a um jardim quase imaculado, não fossem as placas que diziam: “proibido acampar neste local” e uns contentores pré-fabricados a servir de WC. Lá dentro, cheirava à multidão da noite passada. Os mais corajosos, com uma toalha ao ombro, a equilibrar o “nécessaire” na extremidade dos lavatórios, escovavam os dentes com a máscara pendurada no antebraço.

Que a sua luz nos liberte de todo o mal e disperse as trevas deste mundo

Papa Francisco

Cá fora havia sol e havia pó e, mesmo não sendo absoluto, um pesado silêncio. De uma carrinha, estilo furgão, que tinha por baixo chinelos de piscina, alinhados como pantufas junto ao tubo de escape, tendo estendido junto à porta de correr lateral um toldo improvisado, com muros feitos de cobertores, escapavam-se vozes roucas e um aroma de café acabado de fazer. Ao fundo, num recanto do parque de estacionamento, ouviu-se o rasgar prolongado de um fecho éclair, vindo de uma tenda individual de um conjunto de três, cujas cores não eram bem perceptíveis. Algumas pessoas retiravam farnéis e cadeirinhas dobráveis das malas dos carros, um senhor estava entretido a dar lustro a um Mercedes topo de gama com um paninho de camurça. De outro carro, que acabara de estacionar, saiu uma rapariga do lado do condutor com os óculos a descair pelo nariz, contornando a viatura até à porta do passageiro, para extrair de lá um homem que vinha atrás de uma bengala.

Uma adolescente, munida de telemóvel e headphones, nitidamente desconfortável dentro de um vestido de eucaristia, rendado nas mangas, passava pelo local, fazendo os possíveis para não ser associada aos pais. O que não era de todo incompreensível, já que ele se apresentava de bermudas de sarja, um pólo com a insígnia de um canguru, um daqueles bonés com abas para as orelhas, tipo legião francesa, ténis de caminhada em gore-tex, sendo que ela, sem “griffes” que fossem visíveis, se apresentava mais sóbria que um abstémio. E

Tinha uma écharpe que certamente lhe faria calor, com um hoddie cinzento à cintura, em torno de um vestido de flores que não davam com ela, mas davam com o jardim que antecede o enorme largo que à distância mais parece um lago de mosaico branco onde flutua a estátua do cardeal Eugenio Pacelli, em que em 1939 se transformaria no Papa Pio XII, e em 1936 produziu estas declarações, de certo modo proféticas, de certo modo não: “Estou obcecado pelas confidências da Virgem à pequena Lúcia de Fátima. Essa obstinação de Nossa Senhora contra o suicídio que representaria a alteração da fé, em sua liturgia, sua teologia e sua alma. Ouço ao redor de mim os inovadores que querem desmantelar a Capela Sagrada, destruir a chama universal da Igreja, rejeitar os seus ornamentos, fazê-la ter remorso do seu passado histórico”. Com a sua estátua virada para a monumental Basílica da Santíssima Trindade, via-se bem que o tempo, aqui, não tinha decorrido assim.

Nas lojas de Fátima vende-se um sortido infindável de artigos religiosos, de todo o tamanho e feitio.
Nas lojas de Fátima vende-se um sortido infindável de artigos religiosos, de todo o tamanho e feitio.
Foto: Valter Vinagre

A obra custou 70 milhões de euros, tem mais de 40 mil metros quadrados de área e tinha sido inaugurada precisamente há 19 anos, por ocasião dos 90 anos das aparições. Nos seus traços contemporâneos define uma muralha gigante, cuja forma semi-circular faz os peregrinos escorrer naturalmente para o recinto, que fica entre o grande templo e a Basílica de Nossa Senhora do Rosário, no seu polígno irregular, antecedida de uma enorme escadaria, lá ao fundo, junto ao queimódromo das velas, onde se encontra a modesta capelinha das Aparições. Este conjunto, ilustra bem o crescimento do fenómeno de Fátima no tempo.

A caminho do recinto, passou em inusitada velocidade uma família espanhola, devidamente identificada por um estandarte nacional e pelos decibéis que faziam, interrompendo por breves momentos a lentidão própria dos que sabem que o dia é longo. A marcha dos peregrinos não se deixou contagiar. Entre estes, são muitos os doentes, muitos os idosos, aqueles que caminham sozinhos, com o passo atrasado pelo pensamento, outros que deliberadamente o demoram para poder decantar o sentimento da chegada. A pressa não é para ali chamada, ao contrário das lágrimas que irrompem em algumas faces. Uns já se benziam. Outros paravam, para rezar. Havia no ar qualquer coisa, que os crentes entendem por mística. Dois anos depois, Fátima despertava do seu sono pandémico para se tornar de novo no altar do mundo.

Uma Senhora vestida de branco, mais brilhante que o Sol.

Irmã Lúcia

No recinto da fé, as pessoas aglomerava-se usando máscara, posicionando-se nos círculos desenhados no chão, como um arquipélago de distanciamento social, que no ano passado e no outro afastou de Fátima o seu sagrado alimento: a multidão. Parecia longínquo, quase etéreo, o som das colunas espalhadas pelo recinto, que é atravessado por um corredor de laje da via penitencial, pelo qual se arrastam como podem aqueles que transportam consigo promessas. O seu sofrimento é o sofrimento de todos os que àquela hora já faziam um corredor humano para a sua passagem, aguardando por um dos momentos altos do dia: a procissão, com o andor que transportaria a imagem de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, mais tarde. Ecoava o refrão dos refrões, como um chamamento: “Avéé! Avééé! Avé, Maria! Avééé! Avééé! Avé Maria! Dia 13 de Maio, na Cova da Iria, nasceu, brilhando, a Virgem Maria...”

O segredo mal guardado

O que aconteceu nessa data na Cova da Iria, só os três pastorinhos podiam saber. Para todos os efeitos, eram testemunhas de si próprios. Jacinta, a tagarela do triunvirato, só conteve o segredo até à janta. Começou a falar mal acabou de engolir a sopa, contando à mãe que no terreno do pai de Lúcia, onde tinham apascentado o seu rebanho, lhes tinha aparecido uma senhora. Uma senhora tão linda, que não conseguia descrevê-la, embora vontade não lhe faltasse. A mãe, desconfiada, decidiu confrontar Francisco. Este acabou por confirmar o relato da irmã. A mãe mais desconfiada ficou. Na manhã seguinte, tiraria a questão a limpo com a mais velha dos três. Para seu espanto, Lúcia confirmou a versão dos filhos. Os três seriam submetidos ao primeiro de muitos interrogatórios, fazendo às suas famílias a reconstituição da tal ocorrência.

Os pastorinhos asseguravam que o céu primaveril, límpido e sereno, foi rasgado por um clarão, como se fosse um relâmpago. E que, sobre uma azinheira com pouco mais de um metro de altura, que eles podiam identificar de olhos fechados, lhes apareceu a Virgem Maria. Lúcia escreveu assim nas suas memórias: “Uma Senhora vestida de branco, mais brilhante que o Sol, espargindo luz mais clara e intensa que um copo de cristal cheio de água cristalina”. Segundo as crianças, Lúcia era quem tinha o condão de comunicar com a celestial aparição. A Virgem Maria perguntara-lhes, diziam, se estavam dispostos a suportar os sofrimentos mais atrozes pelas ofensas dos homens e pela conversão dos pecadores. 

Eles aceitaram o incomensurável encargo, não imaginando ainda o que significava tal sofrimento. E a Mãe de Deus, contaram eles, elevou-se serenamente, subindo em direcção ao nascente, até se transformar em céu. E a mãe de Lúcia irritou-se solenemente. Era melhor contar a verdade, se não ia ver o que era sofrer. Maria Rosa dos Santos, era das poucas mulheres de Aljustrel que não era iletrada. Nunca acreditou naquela versão milagrosa. Mas, se algum milagre era impossível na aldeia era a manutenção de um segredo. Este segredo, havia de disseminar como uma rede social.

Nos últimos dois anos não se via uma alminha em Aljustrel. O negócio dos pastorinhos são a sua subsistência sazonal. Sem peregrinos, não há milagres.
Nos últimos dois anos não se via uma alminha em Aljustrel. O negócio dos pastorinhos são a sua subsistência sazonal. Sem peregrinos, não há milagres.
Foto: Valter Vinagre

O primeiro dos milagres, foi o da multiplicação. No dia 13 de Junho, já não estavam sozinhos. Entre os que queriam acreditar e os que iam tirar teimas, juntaram-se na Cova da Iria perto de meia-centena de pessoas. Cada um, viu a sua coisa. Os pastorinhos viram a Nossa Senhora, que rogou que rezassem o terço todos os dias, dizendo a Lúcia que aprendesse a ler. Lúcia queria que os levasse para o Céu com Ela. No que a si dizia respeito, não seria tão cedo, pois morreria de velhice. Francisco e Jacinta veriam em breve essa vontade satisfeita. Antes de desaparecer no éter, a Nossa Senhora do Rosário mostrou-lhes o seu imaculado coração, que amparava na palma da sua mão direita. Estava cercado de espinhos, metáfora dos pecados da Humanidade. Era por esses espinhos que eles tinham de padecer. Pelo menos, era isso que os videntes diziam em casa e aos estranhos que massificavam à sua porta. A palavra espalhara-se muito para além dos que eles podiam imaginar. À data da suposta terceira aparição, 13 de Julho de 1917, já estavam mais de duas mil pessoas na Cova da Iria, rezando para que tudo aquilo fosse verdade.

Numa falsa lentidão, a vida daquelas crianças já não era capaz de voltar ao que era quando não era dia 13. Deixaram de ser simples os pastorinhos. Passaram a ser pastores de um rebanho que todos os dias engrossava. 

Enquanto eles sofriam para converter os pecadores, estes convertiam as suas palavras em factos. Chegavam à Cova da Iria sempre como pastorinhos, saiam de lá sempre profetas. Anunciavam a visão do Inferno, falavam das almas penadas e da conversão, de castigo e de salvação. Viviam de terço na mão, rezando, sofrendo, sofrendo, rezando. As suas provações já não decorriam somente da pobreza. Eram agora auto-infligidas. Francisco e Jacinta tinham entrado numa espiral de abnegação asceta. Cumpriam longos períodos de penitência, de fome e de sede, de mortificações em nome da “conversão dos pecadores”. A sua fama fortalecia, enfraquecendo eles a olhos vistos.

Para os três pastorinhos, a pressão tornou-se quase insustentável. A família Marto foi a mais fustigada na construção do fenómeno de Fátima. Os interrogatórios eram infindáveis, a começar pelos inquisidores domésticos, que não se coibiam de fazer o que faziam os desconhecidos que lhes batiam à porta, assim como as autoridades civis e eclesiásticas, que à socapa enviavam emissários, para avaliar aquela “sobrenatural” perturbação da ordem pública. O inquisidor-mor dos pastorinhos, era no início o seu maior detrator, havia de converter-se mais tarde no mais fervoroso crente, depois de acompanhar os pastorinhos à Cova de Iria. O cónego Manuel Nunes Formigão, que já havia estudado os fenómenos de Lourdes, seria a peça-chave na causa de Fátima.

De toda a parte vinham pessoas para os conhecer, para os interrogar, para lhes pedir intercessão. Doentes, estropiados, azarados da vida, um exército infindável de pecadores todos dias ajoelhavam a seus pés. Um peso descomunal caiu sobre estas crianças e sobre as suas famílias. Não demorou muito para que a questão se tornasse política. Foi por essa razão que os pastorinhos não estiveram na Cova da Iria no dia 13 de Agosto, dia anunciado para a quarta “aparição”. Nesse dia, a multidão ficou sozinha, a contemplar uma azinheira.

Artur Oliveira dos Santos, administrador do concelho de Ourém, foi a Aljustrel conhecer os “videntes”. Ofereceu-lhes boleia na sua charrete para o local das “aparições”, para controlar o frémito da multidão pelo caminho. Não era uma boleia, era um rapto. Durante dois dias, os pastorinhos foram interrogados até à exaustão, chegando mesmo a ser ameaçados de morte. Nem o prior de Fátima, que os interrogou primeiro, nem o administrador do território tiveram sorte. O trio não retirou uma palavra à sua versão. O rapto apenas veio consolidar a sua fama. No dia 15, quando já se encontravam no lugar dos Valinhos, próximo da Cova da Iria, Lúcia e Francisco dizem ter sentido um chamamento etéreo, atraindo-os para o local das “aparições”. Chamaram Jacinta, que tinha ficado em casa em orações. E assim se terá cumprido, com sacro retroactivo, a quarta aparição. Lúcia afirmou que a Virgem Maria lhe prometeu que na sexta aparição “faria um milagre para que todos acreditassem”. Pediu-lhes que rezassem muito. E que no dia 13 de Setembro ali estivessem de novo, pois Ela se desvendaria pela quinta vez.

Nesse dia, aos pastorinhos seriam revelados os segredos de uma verdadeira multidão. Foram à Cova da Iria cerca de 20 mil pessoas, não havendo uma que não tivesse algo para lhes pedir. São díspares os relatos da suposta quinta aparição. Os pastorinhos garantem que Nossa Senhora apareceu envolta numa nuvem nenúfar, por cima da abençoada azinheira. Houve quem dissesse que do céu caiam uma espécie de flocos de neve, que mais pareciam pétalas de rosa. E quem tivesse visto um globo luminoso. Outros, a lua e as estrelas. De boca em boca, correram relatos incríveis de muitas curas milagrosas.

A basílica de 70 milhões de euros, tem mais de 40 mil metros quadrados de área e tinha sido inaugurada precisamente há 19 anos, por ocasião dos 90 anos das aparições.
A basílica de 70 milhões de euros, tem mais de 40 mil metros quadrados de área e tinha sido inaugurada precisamente há 19 anos, por ocasião dos 90 anos das aparições.
Foto: Valter Vinagre

No dia 13 de Outubro, a Cova da Iria era uma ilha, envolvida por um mar de gente, com afluentes de toda a parte, que escorriam desde Aljustrel, orgulhosa e assustada do lugar que conquistara no mapa. Chovia a cântaros. O terreno era um lamaçal, pisado por mais de 70 mil alminhas devotas. Lúcia afirmou que a Virgem Maria pediu que rezassem pelo fim da guerra (I Guerra Mundial). E que naquele local fosse erigida uma capela em sua honra. A certa altura, a mais velha dos pastorinhos gritou para a populaça que olhassem para o sol. E houve quem saísse da Cova da Iria com relatos dos mais estranhos fenómenos atmosféricos. Ou seria outra coisa? Queriam acreditar que sim. As nuvens e o sol rasgados por um disco prateado, que girava como uma bola de fogo, descrevendo ziguezagues, precipitando-se sobre a multidão, como um meteoro do apocalipse, que se deteve sobre as suas cabeças, erguidas ao céu escurecido. Foram talvez uns dez minutos de prodígios, que haviam de ficar para sempre no imaginário de Fátima, ali tão perto. Todos ajoelharam na lama, para rezar. Em torno de uma azinheira metafísica, que se tinha transformado em altar.

Os arautos de Aljustrel estavam mais fortes que nunca. E nunca tão fracos, por via das suas penitências. Lúcia tinha saúde de ferro. Cumpriu uma longa vida de clausura, morrendo a 13 de Fevereiro de 2005, em Coimbra, aos 97 anos. Francisco e Jacinta cumpriram a sua profecia de vida breve. Em finais de 1918, o rapaz adoece gravemente. Jacinta adoece quase em simultâneo. Portugal era assolado pela gripe pneumónica, uma pandemia vestida de praga bíblica, que no mundo matou mais de 40 milhões de pessoas. Em Portugal, fez dezenas de milhares de mortos. Francisco suportou cinco meses de agonia. Morreu a 4 de Abril de 1919, em Aljustrel. Jacinta seria internada por dois meses no Hospital de Santo Agostinho, em Ourém, voltando a casa para se despedir desta para sempre. 

O que mais caracteriza Fátima é o silêncio.

Olímpia dos Santos deu razão aos médicos que aconselhavam internamento urgente em Lisboa. Jacinta partiu para o Orfanato de Nossa Senhora dos Milagres, hoje Convento das Irmãs Clarissas do Desagravo, junto à Basílica da Estrela. Onze dias depois, foi para o hospital Dona Estefânia, onde cumpriria a sua derradeira penitência. Morreu no dia 20 de Fevereiro de 1920, num leito de dor. A família Marto não teve de vestir-se de luto. Dois dos irmãos de Francisco e Jacinta tinham sucumbido também à doença. Deles, a história fala pouco. Não há nada de milagroso quando os pais têm de fazer o funeral de quatro filhos. O grande milagre foi pôr o mundo inteiro a rezar por eles, fazendo para sempre o que estes pais fizeram até ao fim das suas vidas.

Fátima no seu lugar

No Santuário de Fátima, o dia 13 de Outubro de 2021 só não foi como todos os outros por via pandemia Covid 19, a segunda deste século. A meio da manhã, Fátima, assim como o recinto do Santuário, estavam preenchidos de gente. No centro da cidade, a azáfama era total, com as esplanadas atestadas e o ruído à rédea-solta. Por baixo do toldo que assinalava a Papelaria Santa Cruz, ficava o sinal da Santa Casa da Misericórdia. Havia uma fila imensa para comprar o Euromilhões, que tinha um gordo “jackpot” e as resmas de Raspadinhas, que os crentes raspavam logo depois, ávidos da intercessão de Nossa Senhora do Rosário na sua conta bancária. As lojas tinham os seus artigos expostos até à rua, desde tractores de brincar, raquetas de praia, tachos e talheres, loiça alusiva aos pastorinhos, um sortido infindável de artigos religiosos, de todo o tamanho e feitio. 

Nos últimos dois anos não se via uma alminha em Aljustrel. O negócio dos pastorinhos são a sua subsistência sazonal. Sem peregrinos, não há milagres.
Nos últimos dois anos não se via uma alminha em Aljustrel. O negócio dos pastorinhos são a sua subsistência sazonal. Sem peregrinos, não há milagres.
Foto: Valter Vinagre

A poucos metros, fica o largo comercial, que tem uma galeria com cubículos de venda, onde mal se vêem os vendedores, atrás de um mostruário de santos e santinhas. Pernas, pés, mãos, meninos, meninas, anjinhos de cera com placas penduradas com os cartões de crédito aceitáveis, órgãos internos com o símbolo MBway, canivetes e porta-chaves e leques e carteiras, Fátima, em todos os seus desdobramentos comerciais. Os comerciantes de Fátima não cabiam em si de contentes. Já tinham fome de vender, tal como os peregrinos tinham fome de ali estar. Foi como se tivessem todos passado uma tormenta, uma interminável moratória da fé. Não há rua, casa, pensão, hostel, hotel, restaurante, um só estabelecimento que não tivesse gente e que não tenha um sacro nome. O snack-bar/ pastelaria Santo António, nas imediações da “boulevard”, tem uma meia-de-leite razoável, mas uma palavra-passe para a internet bastante frágil: “Santo123”.

No recinto do Santuário, o povo sacerdotal já o enchia por completo. Zelosos seguranças, dentro de fato e gravata, circulavam por todo o perímetro, tentando disfarçar os seus “walkie-talkies”, aconselhando aqueles que não a tinham a colocar a máscara no devido lugar. Faziam-no por gestos, como se benzessem a própria face. O que mais caracteriza esta multidão é o silêncio que o silêncio faz num imenso murmúrio. É como se a dor de cada um fosse a mesma dor. A fila para queimar as velinhas atravessava todo o recinto. As medidas ainda em vigor de saúde pública determinavam uma certa organização geométrica, cumprida religiosamente.

De Maio a Outubro, dia 13 é sagrado naquelas paragens. Está para Aljustrel como o Verão para o Algarve.
De Maio a Outubro, dia 13 é sagrado naquelas paragens. Está para Aljustrel como o Verão para o Algarve.
Foto: Valter Vinagre

Lá vinha a imagem de Nossa Senhora do Rosário, como se levitasse, por entre um mar de gente multinacional, que à sua passagem ainda acena comovida com os seus lencinhos brancos, que já não vê com os olhos, mas através de um ecrã de telemóvel, como uma disrupção tecnológica na primordial solidão, que no colectivo da fé consegue o que já parecia impossível: redimensionar o fenómeno de Fátima à escala planetária, fazendo-o em tempo real, como se milagrosamente o tempo não tivesse passado. Foi um dia pleno na sua liturgia, que aos peregrinos de novo encheu o coração. À noite, o silêncio era outro. Conseguia ouvir-se os joelhos de uma senhora, ainda jovem, com o seu lenço à cabeça, como outrora usava Jacinta, quando ainda era criança. Era evidente a sua dor, a energia que emanava sozinha naquele lugar de multidão, arrastando-se pela via penitencial, erguendo os olhos ao céu, trespassando a noite. Lá ao fundo, junto ao tocheiro, onde ardiam ainda as chamas sagradas, ficava o seu destino: a Capelinha das Aparições. É lá que se encontra o princípio de Fátima, alicerçado no mais ancestral dos nossos medos: o fim.

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