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Há 102 anos a “pneumónica” levou os pastorinhos de Fátima e o pintor Amadeo de Souza-Cardoso
Portugal 6 min. 04.03.2020 Do nosso arquivo online

Há 102 anos a “pneumónica” levou os pastorinhos de Fátima e o pintor Amadeo de Souza-Cardoso

Há 102 anos a “pneumónica” levou os pastorinhos de Fátima e o pintor Amadeo de Souza-Cardoso

Foto: DR
Portugal 6 min. 04.03.2020 Do nosso arquivo online

Há 102 anos a “pneumónica” levou os pastorinhos de Fátima e o pintor Amadeo de Souza-Cardoso

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
Em seis meses a gripe espanhola causou dez vezes mais mortos do que os soldados que tombaram em Angola, Moçambique, Flandres, nos quatro anos que a guerra durou.

No mês de maio de 1918 chegava a Portugal a Gripe Espanhola ou Pneumónica, que se viria a tornar na pandemia mais mortífera da história humana recente, estimando-se que tenham morrido entre 50 milhões a 100 milhões de pessoas no planeta.

Já a assolar Espanha, o vírus foi trazido para Portugal pelos trabalhadores sazonais alentejanos regressados de Badajoz, no país vizinho. Os primeiros casos registaram-se em Vila Viçosa, alastrando pelo Alentejo e daí para todo o país. Nem as ilhas escaparam.

Em Portugal terá custado cerca de quase 120 mil mortos, segundo um estudo epidemiológico sobre esta pandemia, liderado por Baltazar Nunes, por ocasião do centenário da Gripe Espanhola.  


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Da peste negra ao coronavírus, passando pela gripe espanhola
O governo chinês introduziu o uso de uma aplicação para telemóvel que indica a ficha de quarentena: verde para quem pode sair às ruas, amarelo para quem deve ficar isolado por uma semana e, vermelho, para as pessoas que têm de ficar duas semanas isoladas.

 "A pandemia de 1918-19 foi responsável por um excesso de 117 764 óbitos por todas as causas, valor que corresponde a uma taxa de 195,7 óbitos por 1000 habitantes (ou cerca de 1,96% da população de todas as idades)", indicam os resultados de um novo estudo 'A Pandemia da Influenza 1918–1919 em Portugal: uma análise regional do impacto da morte’, realizado pela equipa deste epidemiologista do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, em Lisboa.   

Na fase mais aguda, “em seis meses, esta gripe causou cerca de 10 vezes mais mortos do que os soldados que tombaram em Angola, Moçambique, Flandres, nos quatro anos que a guerra durou”, vinca o historiador Fernando Rosas, num programa da RTP sobre a Pneumónica.

Foi num país pobre, massacrado pelos efeitos da primeira guerra como a fome, e em plena convulsão social e política, com Sidónio Pais no poder, que a pandemia chegou, com todas as condições para fazer de Portugal um dos países mais martirizados pela doença e com mais elevadas taxas de mortalidade na Europa. No velho continente, a Gripe Espanhola ceifou cerca de 2,6 milhões de pessoas (1,1% da população).

Uma das particularidades da Pneumónica foi afetar sobretudo jovens adultos, dos 20 aos 40 anos.

Pastorinhos de Fátima não resistem à Gripe

Meses depois dos pastorinhos Jacinta e Francisco terem assistido a alegada aparição de Nossa Senhora de Fátima, a gripe espanhola levou-os, bem como a outros jovens artistas portugueses em ascensão como o pintor Amadeo de Souza-Cardoso ou o pianista António Fragoso, entre outros.

Para além das condições sociais e económicas frágeis, a população portuguesa durante a pandemia também passou por outros surtos epidémicos recorrentes como o tifo, a varíola, e tuberculose.


A Gripe Espanhola seria hoje tão devastadora?
A pandemia de 1918-1919 matou mais de 20 milhões de pessoas no mundo, só em Portugal, mais de 100 mil. Atualmente seria assim tão mortal? Podem os estudos sobre este flagelo ajudar nos planos de combate à pandemia do novo coronavírus? As respostas do especialista.

A tudo isto, junta-se a incapacidade da medicina para lidar com este vírus, de uma "perigosidade nunca vista", como escreveria o médico Ricardo Jorge, ex Diretor Geral da Saúde, em 1918. Na altura, não havia profilaxia nem medicação eficaz para o tratar. “A epidemia que zomba da medicina”, noticiava ‘A Capital’ em outubro de 2018, como lembra o médico Álvaro Sequeira no artigo ‘A Pneumónica’, em 2001.

Nem meios financeiros e humanos, com os médicos e enfermeiros ainda nas frentes de guerra.

Do Alentejo a todo o país e ilhas

As zonas fronteiriças são as primeiras a serem atingidas pela pandemia, depois, as ligações rápidas entre Madrid, Lisboa e Porto, e as peregrinações,facilitam a sua disseminação rápida. Isto na primeira fase, mais calma. A partir de setembro o país vive o período mais intenso, com o pico da Gripe em outubro.

O impacto da pandemia deu-se em duas fases, a primeira entre julho de 1918 e janeiro de 1919, com pico em outubro, e a segunda entre abril e maio de 1919, sendo o primeiro mês o pior, indica o estudo de Baltazar Nunes.

No norte, a Pneumónica chega através dos soldados que regressaram às suas regiões. Também as feiras, romarias, e vindimas deslocaram populações e trabalhadores, dumas regiões para outras, “disseminando velozmente a doença”, refere Álvaro Sequeira.

Às ilhas, a Gripe só chegou em setembro de 1918. Os passageiros infetados do vapor Mormugão propagaram a doença mal o navio atracou no Funchal. Dias depois foi a vez dos passageiros de um navio proveniente de Bordéus, França contagiarem os habitantes de Ponta Delgada, Açores.

Lisboa : 250 funerais num dia

Até finais de setembro as autoridades desvalorizaram o alarmismo das populações, que presenciavam já um número anormal de mortes. Consideraram tratar-se de mais um surto de gripe normal. No entanto, já havia “populações dizimadas” a norte, como em Amarante, “onde as populações chegaram a esboçar movimentos de revolta”, escreve Álvaro Sequeira no seu artigo.


A Gripe Espanhola seria hoje tão devastadora?
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Em outubro, Lisboa vive um cenário dantesco. Numa semana faleceram 400 pessoas e num só dia houve 250 funerais, enumera Fernando Rosas. “Nos bairros populares enrolaram-se os corpos em lençóis e depositam-nos à entrada para serem levados pelas carretas”.

Há lojas, esquadras, correios e outros serviços fechados porque os seus empregados ficaram todos doentes.

A sociedade “vê a epidemia”, com as “mortes súbitas, em plena rua”, os funerais numerosos, muitos de familiares ou conhecidos, como “padeiros, leiteiros, médicos”, escreve Álvaro Sequeira.

Em outubro, o médico Ricardo Jorge é nomeado Comissário Contra a Gripe.

Fecho de escolas e fim de apertos de mão

Como primeiras medidas, adia o início do ano escolar, proibe visitas aos hospitais, e a realização de feiras e romarias. Contudo, as salas de espetáculos continuam a funcionar.

Devido à sobrelotação dos hospitais pelo país, transformam-se liceus em enfermarias para acomodar mais doentes.

“Acabar com os cumprimentos de uso e apertos de mão ou ósculos de cerimónia, gestos que repugnam à higiene e até à cultura. As reverências chegam (…)”, escreveu Ricardo Jorge como medida de prevenção do contágio.

Repouso, dieta ligeira, aspirina e cuidados higiénicos eram os tratamentos receitados e ineficazes.

Descontos no vestuário de luto

A situação foi aproveitada por marcas e comerciantes. Nos jornais da época publicitava-se xaropes e elixires e produtos para desinfetar a casa.

Os Armazéns do Grandela ofereciam “10% de desconto no vestuário de luto para as famílias” e outra loja publicitava: “o preventivo para a terrível epidemia é usar um casaco de lã dos que vende a Casa Áurea”.

O período mais grave da pandemia coincidiu com uma sucessão de acontecimentos políticos, desde o racionamento dos alimentos, uma tentativa revolucionária, morte de presos políticos, uma greve geral, que culminaram em dezembro com o assassinato de Sidónio Pais.

Lisboa: Miséria e fome

Em outubro, é levantada a proibição às feiras e romarias e em novembro as escolas iniciam o ano letivo. No último mês do ano o Presidente da República é morto.

“Um quadro geral de miséria, de necessidade e fome. Foi o que a epidemia desenrolou na cidade de Lisboa, do mesmo modo como tinha vindo desenrolando no país inteiro”, declarava Lobo Alves, diretor dos hospitais civis, em 1920, citado por Fernando Rosas. 


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