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Grupo de hotéis de luxo deixa trabalhadores sem salário no Algarve e em França
Portugal 5 min. 20.05.2020

Grupo de hotéis de luxo deixa trabalhadores sem salário no Algarve e em França

Grupo de hotéis de luxo deixa trabalhadores sem salário no Algarve e em França

Foto: DR
Portugal 5 min. 20.05.2020

Grupo de hotéis de luxo deixa trabalhadores sem salário no Algarve e em França

Ana TOMÁS
Ana TOMÁS
Funcionários do grupo hoteleiro JJW Hotels & Resorts, do sheik Mohammed Al Jaber, queixam-se de só terem recebido o ordenado de março, e em partes, e muitos recorrem à cantina de um dos hotéis para não passarem "fome".

Se não fossem as refeições que o refeitório do Hotel Penina & Golf Resort, no Algarve, continua a servir a muitos dos trabalhadores portugueses do grupo que detém a estrutura, grande parte deles estaria a passar fome. 

A situação é descrita assim ao Contacto por um dos cerca de 500 funcionários que trabalham para o grupo hoteleiro internacional JJW Hotels & Resorts, do sheik saudita Mohammed Bin Issa Al Jaber, e que têm os salários em atraso. 

Detentor em Portugal dos hotéis de cinco estrelas Penina (em Alvor, Portimão) e Dona Filipa (em Vale do Lobo, Loulé), o Formosa Park (no Ancão) e dos campos de golfe San Lorenzo e Pinheiros Altos, na Quinta do Lago (em Almancil, Loulé),   o grupo começou a pagar, entretanto, os salários de março, mas ainda falta liquidar os de abril, o que está a levar muitos dos trabalhadores a uma situação de desespero.


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Ao Contacto, aquele trabalhador, que pediu o anonimato, explicou que foram pagos os ordenados "apenas a alguns dos colaboradores e apenas do mês de março, pois abril continua por pagar". A mesma fonte acrescentou que houve trabalhadores que receberam "montantes irrisórios" de 400 euros, "sem qualquer justificação" para isso.

Fonte oficial do grupo respondeu esta terça-feira, 18 de maio, ao Jornal de Negócios que o salário da abril deverá ser pago esta semana, justificando o atraso com o facto de toda a hotelaria ter fechado e de isso ter criado problemas financeiros. "Os operadores não nos pagaram as estadias de fevereiro nem de março, o que criou problemas de tesouraria. Tivemos que recorrer ao acionista, que tem vindo a ‘chegar-se à frente’", afirmou àquele jornal.  

A situação dos salários em atraso neste grupo hoteleiro de luxo não estará relacionada apenas com as dificuldades resultantes da crise sanitária, uma vez que em fevereiro já havia ordenados em atraso, que entretanto foram pagos, mas "em tranches  e com dificuldade", acrescenta o mesmo trabalhador ao Contacto.

As dificuldades financeiras com alguns negócios do sheik têm sido notícia em vários meios internacionais ao longo dos últimos anos, assim como os atrasos nos salários em outras empresas associadas ao bilionário, que chegou a ter a sua fortuna avaliada pela revista Forbes em sete mil milhões de dólares e que, em 2013, foi considerado, pela mesma publicação, o 166º homem mais rico do mundo.

Em 2010, a ONG Human Right Watch denunciou que trabalhadores da Jadawel International - pertencente ao MBI Al Jaber, grupo do qual o sheik era chairman - tinham meses de salários em atraso. Uma situação agravada pelo facto de serem trabalhadores imigrantes que estavam na altura deslocados, a trabalhar em instalações da empresa, na Arábia Saudita.

Salários em atraso nos hotéis franceses do grupo

 A situação reportada no Algarve é semelhante à que se passa em alguns hotéis do JJW Hotels & Resorts, em França. Em abril, cerca de 60 empregados de duas unidades de Paris - os hotéis  Balzac e Vigny  - continuavam à espera do pagamento dos seus salários de março.

Apesar de alguns dos funcionários terem sido colocados em lay-off, a maioria continuou a trabalhar a tempo inteiro, nos hotéis ou em teletrabalho, noticiou a  France Bleu, no dia 7 do mês passado. 


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40% desses cancelamentos pediram reembolsos de dinheiro dos pagamentos já efetuados

Tal como em Portugal, os trabalhadores ouvidos pela rádio francesa também atribuíram o atraso no pagamento dos salários a dificuldades financeiras anteriores à crise provocada pelo novo coronavírus, uma vez que desde 2013 o grupo hoteleiro recorria a um plano de empréstimos e que necessitaria do acordo dos bancos para desbloquear a verba para pagar os ordenados.

Na semana passada, alguns trabalhadores dos hotéis do Algarve manifestaram-se em frente à residência de um dos filhos de Al Jaber, na Quinta do Lago.  

Bloco de Esquerda questiona governo português

O deputado do Bloco de Esquerda, João Vasconcelos, eleito por Faro, está a acompanhar o caso dos trabalhadores das estruturas algarvias e define a situação como "preocupante". Não só pelo número de trabalhadores afetados, mas também pelo facto de vir a somar mais uma crise à grande crise que a região já enfrenta, por depender em grande parte dos setores ligados ao turismo.


Covid-19. Manual para poder passar as férias no Algarve
Entre as recomendações, Região de Turismo do Algarve, estão os procedimentos de limpeza e higienização, formação de colaboradores e informação a disponibilizar as turistas e visitantes, de acordo com as orientações da Direção-Geral da Saúde (DGS) e as diretrizes internacionais.

"Denunciámos a situação [através do portal despedimentos.pt] e vamos remeter algumas questões para o governo. É uma situação grave e complicada. Mas exigimos que os salários sejam pagos, até porque, à partida, é uma grande empresa, com uma certa pujança", afirma ao Contacto, acrescentando que no Algarve, 80% da população vive praticamente do turismo e atividades conexas e que se adivinha uma conjuntura "dramática" para a região. 

"Quando se acabar o lay-off [nas empresas] a situação vai ser ainda mais complicada, vão existir falências, desemprego e tem de haver apoios. Não só já apresentámos, no Parlamento, um plano de emergência social e económica para o Algarve, como defendemos que haja medidas extraordinárias, da parte do governo, para trabalhadores e pequenas empresas, de forma a evitar uma catástrofe social na região".

Questionado sobre se os hotéis do JJW Hotels & Resorts recorreram ao lay-off para alguns trabalhadores, tal como aconteceu em França, João Vasconcelos disse não ter ainda dados que lhe permitam confirmar essa situação. Uma questão que também não foi possível confirmar junto do grupo, assim como outras, tendo fonte da empresa adiantado apenas ao Contacto que no final desta semana seria emitido um comunicado oficial à imprensa.

Entretanto, a notícia do Jornal de Negócios, refere que os campos de golfe já estão a funcionar e que os hotéis Penina e Dona Filipa deverão reabrir a 4 e 7 de junho, respetivamente. O Formosa Park mantém-se com obras de remodelação.

O deputado do BE teme, no entanto, que isso possa não ser suficiente para resolver o problema dos trabalhadores com situação salarial por regularizar. 

"Muito dificilmente estas unidades hoteleiras irão ter muitos clientes já nos próximos tempos, porque se não há turistas,turistas estrangeiros, ou se há são muito poucos, [a ocupação] vai ser residual. É por isso que além de exigirmos que os salários sejam pagos, defendemos que haja apoios extraordinários para situações de despedimentos", remata.


 


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