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Greve. Estivadores de Lisboa com salários em atraso há mais de um ano
Portugal 5 min. 20.02.2020

Greve. Estivadores de Lisboa com salários em atraso há mais de um ano

Greve. Estivadores de Lisboa com salários em atraso há mais de um ano

Foto: Contacto
Portugal 5 min. 20.02.2020

Greve. Estivadores de Lisboa com salários em atraso há mais de um ano

Bruno Amaral de Carvalho
Bruno Amaral de Carvalho
Têm salários em atraso há 18 meses e famílias passam por dificuldades. Começaram uma greve com adesão total e empresa diz que tem problemas financeiros. Estivadores de Lisboa acusam-na de seguir uma estratégia encapotada para criar outra entidade com condições laborais piores.

Está a ser total a adesão dos estivadores à greve de duas semanas e meia de convocada pelos estivadores do porto de Lisboa. Com centenas de contentores parados como pano de fundo pelo segundo dia consecutivo, os trabalhadores das empresas Liscont, Sotagus, Multiterminal e TMB concentraram-se para denunciar que foram empurrados para esta ação de luta devido ao incumprimento das atualizações salariais acordadas e pelos salários em atraso nos últimos 18 meses.

Em declarações ao Contacto, o presidente do Sindicato dos Estivadores e Atividade Logística (SEAL), explicou que um dia antes da greve os estivadores estiveram reunidos com representantes da Associação de Empresas de Trabalho Portuário de Lisboa (AETPL) sem que tivesse havido qualquer cedência de alguma das partes. “Nós voltámos a colocar as nossas condições. Irmos para a mesa de negociações até ao final do semestre para tentarmos encontrar soluções para os problemas financeiros da empresa, reconhecerem e aplicarem o aumento salarial que assinaram em 2018 e pagar os salários em atraso”, explicou António Mariano.

António Mariano, presidente do SEAL
António Mariano, presidente do SEAL
Foto: Contacto

Do outro lado, de acordo com o sindicalista, a proposta da empresa foi de reduzir os salários, que estão congelados desde 2010, em 15%. Por sua vez, esta empresa de cedência de mão-de-obra às empresas de estiva, que reconheceu à Lusa que a adesão à greve está a ser total, ao contrário do que esperava, adverte que a paralisação só vai agravar ainda mais a situação da empresa. Uma responsabilidade que o presidente do SEAL atribui à direção da AETPL que diz estar sob “gestão danosa”. Para António Mariano, as empresas de estiva querem “afundar” a AETPL para levar ao despedimento coletivo da maioria dos trabalhadores do Porto de Lisboa para que outra a substitua com piores condições laborais.

"A situação financeira da AETPL só é desequilibrada porque os tarifários que eles [empresas de estiva] praticam, de cobrança do custo do estivador à empresa de trabalho portuário, mantém-se inalterado há 26 anos. Se tivesse sido atualizado, não era nos 65% da inflação, mas em 10 ou 15%, a empresa de trabalho portuário (AETPL) teria uma situação financeira excelente", defendeu.

Ainda à Lusa, Diogo Marecos, da AETPL, reiterou que tem uma estrutura de custos que já não comporta longos períodos de inatividade, como tem acontecido nos últimos anos devido a "greves sucessivas", que têm tido como consequência a perda de vários armadores/linhas de navegação, por falta de confiança no porto de Lisboa.

Jordi Aragunde, ex-presidente da International Dockworkers Council, explicou ao Contacto que este é um processo que já teve lugar noutros países. Participou nas negociações anteriores e recordou que estivadores de todo o mundo já fizeram atos de solidariedade com a luta dos colegas portugueses e podem voltar a fazê-lo. “Têm condições laborais acordadas entre sindicato e empresas, com os seus elevados níveis de formação, de produtividade, de profissionalismo, que é o que pede o setor. Havia uma estratégia preparada para afundar a AETPL para abrir caminho à Porlis para acabar com os trabalhadores com condições laborais dignas e introduzir gente sem condições, sem preparação e com salários de miséria e precariedade”.

Salários em atraso afetam famílias

Em 2018, com o apoio do governo, a empresa e o SEAL chegaram a acordo para um aumento salarial que foi assinado pelas duas partes e que nunca foi cumprido pela empresa. Há cerca de ano e meio que os trabalhadores têm salários em atraso e decidiram avançar para a greve. Paulo Vermelho é um dos que só recebeu 390 euros em janeiro por 50 dias de trabalho. Com 40 anos de idade e 15 anos de estiva, denuncia que há 18 meses que recebe o salário a prestações. “Fruto da luta anterior, os patrões assinaram com a direção do sindicato um aumento de 4% em 2018 e de 1,5% em 2019. Esse acordo foi rasgado. Nós cumprimos a nossa parte e eles não. Andamos a trabalhar todos os dias sem dinheiro e ainda por cima estamos a ser pressionados para fazer horas extraordinárias, mesmo sem receber”, afirma.

Foto: Contacto

O trabalhador denuncia também que há colegas que têm também esposas desempregadas e que estão a passar mal: “Ao início do mês, cai a prestação da casa, do carro, do infantário, é preciso pagar explicações aos filhos, é preciso comprar roupa”. Para já, estes estivadores estão a fazer greve ao primeiro turno durante uma semana e meia mas Paulo Vermelho avisa que se não houver cedências por parte da empresa vão avançar para a greve total, que está prevista para a semana seguinte.

“Eles têm uma empresa de mão de obra barata montada há muitos anos que se chama Porlis e o objetivo é afundarem a AETPL para nos chamarem para essa empresa a um preço reduzido e ao preço que eles quiserem”, acrescenta antes de apontar o dedo ao governo: "Esse senhor assina em frente à ministra, faz contratos com a gente mas em portugal vale tudo. Até hoje não se vê o governo pronunciar-se. Eu se assinar o contrato da minha casa e não pagar até ao final do mês fico sem a casa. Este senhor não cumpre nada”.

Foto: Contacto

Outro dos grevistas, que pediu anonimato, denunciou que recebem os salários em quatro ou cinco vezes. Confirma que em janeiro só receberam 390 euros. Há 18 anos na estiva, revela que isto afeta muita gente. “Estou a ser acompanhado por um psicólogo. Faltam os mantimentos, tenho de pagar o carro e a casa. Uma pessoa chega a casa irritada e, sem querer, fala mal para a filha e para a mulher e as coisas complicam-se a nível familiar”, descreve. “Eu eu tenho tido a ajuda dos meus pais e dos meus sogros e ainda não cheguei ao patamar de não pagar contas mas tenho muitos colegas que não têm esse apoio. Tenho um amigo em particular que já não pode ter a filha na creche porque tem três filhos e não tem sogros. Está sozinho. A situação está a agravar e este é o mês em que estão a dificultar mais o pagamento”.

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