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Freitas do Amaral. O homem que cresceu com a democracia
Portugal 3 min. 03.10.2019

Freitas do Amaral. O homem que cresceu com a democracia

Freitas do Amaral. O homem que cresceu com a democracia

Foto: Lusa
Portugal 3 min. 03.10.2019

Freitas do Amaral. O homem que cresceu com a democracia

"Sinto-me honrado quando um fascista me vira a cara", disse Freitas do Amaral em entrevista à Visão em julho passado. Uma frase forte para um homem que começou a carreira universitária no marcelismo e que mostra a evolução para a esquerda do fundador do CDS.

Com a morte de Freitas Amaral fecha-se um ciclo da história política portuguesa. O fundador do CDS era o único líder vivo dos que comandaram os quatro grandes partidos durante o período que sucedeu à revolução dos cravos em 1974. Depois da partida de Francisco Sá Carneiro, em 1980, de Álvaro Cunhal, em 2005, e de Mário Soares, em 2017, Diogo Freitas do Amaral, o homem que se mostrou ao país de loden na campanha presidencial contra o fundador do PS, morreu, esta quinta-feira, aos 78 anos, depois de ter sido internado no Hospital CUF de Cascais, a 17 de setembro. O governo já anunciou que vai decretar luto nacional para o dia do funeral.

Uma vida na política

Freitas do Amaral nasceu na terra natal da mãe, na Póvoa de Varzim em 1941, durante a 2.ª Guerra Mundial, apesar de os pais viverem em Lisboa. O pai, Duarte Pinto de Carvalho Freitas do Amaral, engenheiro civil, chegou a ser secretário de Salazar no Ministério das Finanças e deputado à Assembleia Nacional pelo partido único durante o regime fascista.

Licenciou-se em direito em 1963 pela Universidade de Lisboa e casou-se dois anos depois com Maria José Salgado Sarmento de Matos, escritora que adotou o pseudónimo Maria Roma. Tiveram quatro filhos: Pedro, Domingos, Filipa e Joana. Próximo de Marcello Caetano, o homem que substituiu Salazar, terá recusado várias vezes o convite para integrar o Governo. Do presidente do Conselho, Freitas dizia ser seu “mestre e amigo”.

Foi técnico do Ministério das Finanças e procurador da Câmara Corporativa. Em 1974, fundou o CDS com Adelino Amaro da Costa e Basílio Horta, entre outros. O novo partido apresentava-se como força de centro e democrata-cristão, mas rapidamente se posicionou à direita do espectro político nacional. Nesse mesmo ano, Freitas do Amaral foi nomeado membro do Conselho de Estado. 

Em 1976, os deputados do CDS foram os únicos a votar contra o texto da Constituição, apesar de terem votado favoravelmente grande parte dos artigos da lei magna surgida depois da revolução, nomeadamente o objetivo de construir uma "sociedade sem classes". Fez ainda parte dos governos da Aliança Democrática (AD), entre 1979 e 1983, sob a liderança de Sá Carneiro, do PSD, e de Gonçalo Ribeiro Telles, do Partido Popular Monárquico (PPM). Assumiu o cargo de vice-primeiro-ministro, ministro dos Negócios Estrangeiros e primeiro-ministro interino depois da morte de Sá Carneiro.

Na célebre disputa presidencial, em 1986, com Mário Soares, Freitas do Amaral perdeu na segunda volta por uma diferença reduzida. Em 1992, quando Manuel Monteiro assumiu a presidência do CDS, abandonou o partido. Três anos depois aceitou o reto de presidir a Assembleia Geral da ONU.

Em 2 de março de 2003, depois das manifestações mundiais contra o começo da invasão do Iraque pelos EUA, Freitas do Amaral participa num comício contra a guerra na Aula Magna, juntamente com personalidades de esquerda. 

Entre 2005 e 2006, foi ministro no primeiro governo liderado por José Socrates (PS).

O seu último texto público foi um artigo, assinado com Francisco Louçã e Pilar del Rio, para defender um voto contra a eleição de Jair Bolsonaro. 

Luto nacional

O primeiro-ministro lamentou hoje a morte do fundador e primeiro líder do CDS, Freitas do Amaral, e adiantou que o Governo vai decretar luto nacional no dia do seu funeral.

"Acabou de falecer um dos fundadores do nosso regime democrático. À memória do professor Freitas do Amaral, ilustre académico e distinto Estadista, curvamo-nos em sua homenagem. Apresentamos à sua família, amigos e admiradores as nossas sentidas condolências", refere uma nota do gabinete de António Costa.

Na mesma nota, adianta-se que "o Governo decretará luto nacional coincidente com o dia do funeral, o que será acertado nas próximas horas e de acordo com a indicação da sua família".

A título pessoal, e como seu antigo colega de Governo, António Costa salienta que não pode deixar de recordar o muito que aprendeu "com o seu saber jurídico, a sua experiência e lucidez política e o seu elevado sentido de Estado e cultura democrática, que sempre praticou".

Com Lusa

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