Escolha as suas informações

Francisco Pinto Balsemão: Uma lição de coerência e transparência
Opinião Portugal 11 min. 20.09.2021
Memórias

Francisco Pinto Balsemão: Uma lição de coerência e transparência

Memórias

Francisco Pinto Balsemão: Uma lição de coerência e transparência

Foto: Lusa
Opinião Portugal 11 min. 20.09.2021
Memórias

Francisco Pinto Balsemão: Uma lição de coerência e transparência

Diogo RAMADA CURTO
Diogo RAMADA CURTO
Coerência, transparência e humildade, são algumas das virtudes reveladas por Francisco Balsemão nas suas memórias. Qualidades que faltam na política portuguesa considera o historiador Diogo Ramada Curto na crítica que faz à biografia que é hoje apresentada publicamente em Lisboa. Este é o primeiro de três artigos sobre as memórias do patrão da imprensa portuguesa.

Ao contar a sua vida, Francisco Pinto Balsemão dá uma lição de transparência e, até, de humildade (Memórias, Porto Editora, 2021, 999 pp.) Tudo virtudes que faltam na cultura política portuguesa. É que, aqui, os políticos têm-se afirmado geralmente pela sua adesão a ideologias, com as quais querem fazer crer que mantêm uma relação de coerência, mas acabam por esconder as suas vidas, mascarar ou jogar com as suas origens e dissimular as suas próprias histórias.  

Estas volumosas memórias começam por fazer a crónica da sua família, do seu círculo restrito de amigos, da sua educação escolar e universitária, terminando no serviço militar.        

Herdeiro único pelo lado paterno, Balsemão passou a infância num enorme domicílio da Lapa, em Lisboa, onde viviam por andares os pais, tios e uma avó. Casa com jardim, quase uma quinta murada, com criadagem, hortelão, criação de galinhas, perus pelo Natal, mais as inevitáveis relações de vizinhança, com merceeiros, carvoeiros e miúdos da mesma rua. Casa e família, onde de portas adentro também existiam mexericos, mas que se impuseram desde cedo como o lugar dos afectos concentrados no menino bem-amado. Tão amado que pôde partir em busca de outros horizontes. 

Como em quase todas as famílias de posses e elevado estatuto, onde a burguesia dos negócios se aliara com a nobreza, existiam diferenças de riqueza e orientação política entre o lado materno e o paterno, que acabaram por convergir no salazarismo. Ao lado da mãe, Castro Pereira, composto por muitos tios e primos, mais ligados ao Turf e ao Tauromáquico, não faltava a origem numa bastardia de D. Pedro IV, o que explica a defesa familiar da Monarquia, caída em 1910. 

 Já do lado paterno, a militância republicana do avô parece ter estado associada a características mais empresariais, com origens na Guarda, que se vieram a desenvolver tanto do ponto de vista industrial, quanto naval e colonial. Da família do pai, mais aberta e associada ao Grémio Literário, sobressai o tio Xico, que estudou em Leeds, e a avó Luzia que, depois de viúva, casou segunda vez com um ministro do último governo da Monarquia, cujo nome nunca era pronunciado, por indesejado. O retrato da casa e da família não ficaria completo sem uma referência à mesa e às conversas ali havidas entre pai, mãe e filho, com uma refeição em inglês e outra em francês por semana.

Até aos dez anos de idade, Francisco Pinto Balsemão foi educado em casa pelas professoras de português, francês e inglês. Só à luz dos padrões habituais, este modelo educativo, centrado na família e em tutores privados, pode ser considerado um arcaísmo principesco. O certo é que ele estava bem estabelecido, entre as classes altas, em Portugal e por essa Europa fora. Neste caso, correspondeu a um modo de protecção em relação a um jovem sobre o qual recaíam muitas expectativas e que, aos dez anos de idade, foi estudar para o Liceu Pedro Nunes (1947/48-1953/54), onde esteve sete anos, até entrar na Faculdade de Direito de Lisboa. Além do futebol e do pingue-pongue, em que se sagrou logo campeão, fugiu às aborrecidas formaturas da Mocidade Portuguesa envolvendo-se na vela. Depois, nas férias passadas em Cascais, um barco a remos, que os pais lhe ofereceram aos 13/14 anos, ajudou a estimular nele a independência e a fazer boa figura junto das meninas da Praia da Conceição. 

Pela mesma altura, as Férias Grandes, passadas em Cascais, dividiam-se entre a praia e a Parada, um clube que impunha regras máximas de exclusivismo social. Por razões que, já à época, pareciam óbvias ao próprio autor, aos horizontes muito limitados da Parada, o então adolescente opunha a sua curiosidade pelo Dramático de Cascais, onde se fazia sentir a presença de raparigas. No fundo, era já a busca de um universo mais alargado que preocupava o jovem, sempre interessado no elemento feminino. 

Aliás, a mesma preocupação em cultivar as amizades e procurar outros mundos – que não se restringissem à família, nem ao liceu, mas que se encontravam dependentes dos chamados tempos livres – foi plenamente desenvolvida com a entrada na Faculdade. Uma entrada que deu azo ao aumento de cilindrada da mota e depois se traduziu na passagem para o carro, a permitir um alargamento da esfera de acção e das saídas noturnas. O sentido das obrigações universitárias, com as quais sempre cumpriu, só foi interrompido pelo chumbo no 2.º ano: “foi um dos maiores choques da minha vida”, confessa, com sinceridade. Mas nem de perto, nem de longe, esse jovem que crescia e entrava na idade adulta considerou a Faculdade de Direito e o movimento estudantil como estando no centro do seu mundo. 

O estudo, sobretudo depois do chumbo, era importante e nunca deixou de ser levado a sério. Porém, havia também as peregrinações noturnas lisboetas, do Galo à Taberna Sevilhana, do Maxime ao Texas Bar, sem esquecer o Hot Club. Uma espécie de escola da vida, necessariamente boémia, capaz de criar e ajudar a sedimentar laços de amizade para sempre. Só assim se compreendem: as histórias divertidas das noites passadas em Tossa de Mar, na Costa Brava, onde ele e os amigos conseguiram ficar por mais uns dias, tocando nos tempos mortos do conjunto musical residente, a troco de bebidas e de noites bem passadas, rodeados das inevitáveis raparigas bonitas; ou a vitória à roleta em Monte Carlo, que pagou ao autor e aos seus amigos, já sem dinheiro, a viagem de regresso a Portugal.  

 Pinto Balsemão ainda frequentou o então chamado 6.º ano de Direito. Privou então, com os professores mais conhecidos, todos eles ligados ao governo de Salazar: Marcello Caetano, Silva Cunha, Soares Martínez e Lumbrales. Porém, os ensaios que preparou para cada uma das cadeiras continham em si matéria controversa que punham em causa, por exemplo, a política colonial, o corporativismo ou o condicionamento industrial. Uma série de irreverências que o levaram, pura e simplesmente, à não conclusão do mesmo curso complementar.

Sem dúvida mais importante do que os conteúdos académicos é a longa evocação dos amigos que o acompanharam nos tempos da universidade. A Costa Reis, Morais Leitão, Ruella, André Gonçalves Pereira – todos já falecidos, mais ou menos da mesma idade – dedica as páginas mais tocantes dos primeiros capítulos das suas memórias. Trata-se de uma manifestação profunda do valor atribuído aos laços de amizade e do quanto, na sua vida, dependeu de um “reduzido círculo de amigos” (p. 107). 

Através da última constatação acerca dos amigos e das cumplicidades partilhadas (dia e noite), descobre-se um dos fios condutores da vida de Francisco Pinto Balsemão: o da lealdade e exigência dela para com os amigos que lhe estão próximos. Por isso, será escusado especular sobre o sentido da honra e do respeito pela reciprocidade das trocas, e como é que tudo isto entronca numa genealogia das virtudes (mais do que de ideias ou ideologias). É que existe, num último momento da formação do autor das memórias, um pormenor que pertence ao mesmo quadro de valores e que, por isso mesmo, não pode ficar esquecido, pois tem valor exemplar.

Nos três anos e meio que cumpriu de serviço militar, depois de uma recruta relativamente branda, como ele próprio confessa, Balsemão integrou por convite o gabinete de Kaúlza de Arriaga, subsecretário de Estado da Aeronáutica. Começou como aspirante e passou a alferes, tendo chegado a ajudante-de-campo e chefe de redacção da revista da Força Aérea, Mais Alto. Com Kaúlza, Balsemão diz que aprendeu a decidir, a inovar, a saber tratar simultaneamente de muitos assuntos, a fazer valer o prestígio da organização em que se encontrava, impondo-se nos diferentes canais políticos. Enfim, tal como num laboratório de uma primeira experiência laboral, a importância de quem chefia e sabe tomar decisões, com carisma, mas também com o sentido da racionalidade e da divisão do trabalho, Balsemão aprendeu muito com Kaúlza. 

O registo dessa primeira experiência de trabalho e o elogio das indiscutíveis qualidades de Kaúlza, como militar e dirigente político, equivalem a um acto de reconhecimento e de coragem. No gabinete, aprendeu a saber lidar com uma organização militar (bem mais eficiente do que a do gabinete civil do Ministro da Saúde, Soares Martínez, onde esteve como secretário, depois do serviço militar). As viagens que fez a Angola e Moçambique despertaram nele um amor por África. E os trabalhos na referida revista – inclusive as reportagens – lançaram-no no mundo do jornalismo e da imprensa periódica. 

O sentido de gratidão e de respeito que Balsemão sempre manifestou em relação a Kaúlza surge bem documentado em duas situações. Primeiro, de 1969 a 1973 quando Balsemão integrou a chamada Ala Liberal, na Assembleia Nacional, começou por pedir conselho ao general, mantendo com ele relações positivas que estavam de acordo com a sua atitude reformista. Segundo, depois do 25 de Abril ou, melhor, do 28 de Setembro, quando Kaúlza foi preso e depois, em 1977, quando fundou o MIRN, altura em que Balsemão se terá afastado definitivamente. Equívocos gerados pelo jornal Expresso também contribuíram para um ressentimento de Kaúlza em relação a Balsemão. No entanto, vem agora o autor das memórias – com uma coragem pouco comum – reconhecer que o seu afastamento foi um erro e apresentar como que um pedido de desculpas póstumo. É que, nas suas palavras, haverá que reconhecer que Kaúlza não foi “o horroroso fascista em que alegadamente se transformou, ou o transformaram, depois do 25 de Abril” (p. 112).

Da leitura destas Memórias e sub conditione, será já possível chegar a algumas conclusões, com base nos primeiros quatro capítulos. A primeira é que nelas se recorre a um estilo que é, ao mesmo tempo, enxuto e descritivo, onde se afloram pequenas situações ou episódios. Neste, insinuam-se modos salutares de auto-depreciação, ironia e humor. Tudo isso, como bem notou Marcello Caetano, com “clareza da exposição e da prosa” (p. 193). Só num ou noutro caso, curiosamente em referência às caçadas de África ou às noites de Luanda (pp. 48, 105), derrapa o autor num bem escusado mau gosto poético-literário. E pena é que assim tivesse acontecido, talvez por mau conselho ou inadvertência de revisores ou editores!  Ou será isso o resultado do magistério de Baptista-Bastos, que o autor considera surpreendentemente tê-lo ajudado a melhorar a sua própria escrita (p. 138)?  

Mais importante que as questões de estilo: Balsemão autorrepresenta-se sem peias. Com coragem e sentido de honra, assume as suas origens, não escondendo ter nascido em berço de oiro e ter sido herdeiro único. De um modo quase exemplar para os seus descendentes, põe a tónica na ética de trabalho do seu pai, cujos resultados lhe permitiram um certo enriquecimento, a ponto de ter substituído o eléctrico e o andar a pé pelo carro com chauffer. De igual modo, o jovem Francisco Pinto Balsemão procurou cavar para si uma margem de actuação que lhe permitisse superar as suas origens e aquilo que parecia estar determinado à partida. As peregrinações noturnas, as viagens e a atracção pulsional e amorosa fazem parte desta maneira de sair de casa e de partir à conquista do mundo. De maneira nenhuma se limitou ao brocardo: o que o berço dá a tumba leva. 

Amigo dos seus amigos, Balsemão sabe também reconhecer o papel daqueles que contribuíram para a sua formação e nele confiaram (pouco importando as divergências políticas, como demonstra o caso da sua relação com Kaúlza, descrita com pormenor). Enfim, bom aluno em casa, no liceu e na Faculdade de Direito, a sua formação parece ter sido muito mais devedora da sua relação com a família e com os amigos, enquanto fonte de afectos e de aprendizagem. Sem esquecer a lição memorável das noites no Galo, à saída do Parque Mayer, acompanhadas ao piano por Eugénio Pepe.   

(O autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico).











Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.