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Francisco Guerreiro. " Somos o único partido português que defende os direitos dos animais"

Francisco Guerreiro. " Somos o único partido português que defende os direitos dos animais"

Foto: Thierry Monasse
Portugal 10 min. 03.06.2019

Francisco Guerreiro. " Somos o único partido português que defende os direitos dos animais"

O eurodeputado do PAN, antes de ser ativista ecologista e vegan, fazia estudos de mercado e clippings, e chegou a trabalhar para o então comissário Durão Barroso. Hoje é o primeiro deputado de um partido animalista a entrar no Parlamento Europeu.

 O português Francisco Guerreiro, 35 anos, é o primeiro deputado de um partido animalista a entrar no Parlamento Europeu. Na passada semana estreou-se em Bruxelas, numa reunião com o grupo dos Verdes, que se tornou a quarta maior força política. O português acredita que a agenda ecologista vai vingar

A reunião com os Verdes correu bem?

Sim. Foi uma reunião onde os vários partidos se apresentaram e explicaram as suas prioridades e objectivos políticos. Também falámos sobre a nova importância do grupo no Parlamento, onde já não há uma maioria de duas grandes famílias e há a possibilidade de os Verdes, a quarta família europeia, influenciarem as políticas dos próximos cinco anos. E fez-se uma análise sobre o que pode acontecer nas próximas duas semanas, já há negociações com o PPE, com os Social Democratas e talvez também com o ALDE. Vamos perceber se há compromisso real destes grupos em estabelecer pelo menos connosco algumas metas.

O objetivo do PAN era ficar na comissão de Agricultura. Isso aconteceu?

Ainda está em discussão e vamos pressionar para que aconteça. É uma área muito importante para Portugal e para nós, onde podemos influenciar temáticas relacionadas com as alterações climáticas e, nomeadamente, deslocar os fundos comunitários para a agricultura biológica de modo extensivo. Os fundos europeus estão a ser mal utilizados quando se destinam à produção intensiva. A área da agricultura também está muito ligada aos direitos dos animais.

O PAN é muito mais associado aos direitos dos animais do que à conservação da natureza ou aos direitos das pessoas. Têm consciência disso?

Sim e ainda bem. Nascemos como partido animalista que evoluiu para um partido holístico que defende um novo paradigma social e económico para Portugal e para a Europa. Defendemos uma sociedade que funcione de modo sustentável. Nunca poderemos garantir a sustentabilidade do planeta se não tivermos em conta os direitos humanos, uma melhor distribuição da riqueza, uma economia sustentável e o combate às alterações climáticas como a prioridade das prioridades. Mas somos o único partido português que defende de modo directo os direitos dos animais. Felizmente alguns partidos começam a apoiar algumas das nossas causas, o nosso papel também é sermos agentes dessa mudança.

Tem havido várias críticas de sectores mais mainstream na sociedade portuguesa, nomeadamente do Miguel Sousa Tavares, que vos acusa de não terem verdadeira intervenção ecológica.

É porque nunca olharam para o nosso programa. O Polígrafo, que é um site de fact checking, escreveu que essas críticas são falsas. Temos uma política integrada. Tudo isto é muito difícil para os analistas políticos tradicionais, que só vêem o espectro da esquerda e da direita. Mas o que mostram os números é que as pessoas querem outro modo de estar na política, que não assente nas guerrilhas convencionais. Com frequência o PAN está sozinho a defender propostas que nenhuma dessas forças defende.

Que propostas são essas?

Não nos posicionamos nem à esquerda nem à direita, apreciamos as propostas e apoiamos de acordo com os nossos princípios e do que é bom para a sociedade. Lutamos por um desenvolvimento social e económico para as próximas décadas com emprego verde, renegociação da dívida, e não queremos parcerias público privadas que destruam o erário público. Queremos acabar com os subsídios à agropecuária intensiva, à indústria do leite, que tem impactos muito grande na destruição dos aquíferos, dos solos, e no bem estar animal. Queremos que esses subsídios sejam alocados para o mercado dos produtos biológicos de forma a que se tornem mais acessíveis. Somos obviamente a favor do SNS. Quando se fala em medidas sociais, defendemos o Rendimento Básico Incondicional e que haja um projeto piloto para que se estude os impactos desta medida. Gostaríamos que se repensasse o modo como se produz e distribui a riqueza.

Qual é a vossa proposta energética?

Defendemos a existência de um programa fiscal, económico e social para a transição para uma economia descarbonizada. Que haja fundos europeus destinados à descentralização da produção de energia para que as pessoas e empresas possam capacitar os edifícios a produzir a sua própria energia. Queremos também que se deixe de financiar através do Banco Central Europeu os combustíveis fósseis e que esse dinheiro sirva para financiar indústrias limpas. É necessário também haver uma estratégia europeia para a ferrovia, que não existe. Temos que reduzir o desperdício de energia no sector agroalimentar. E teremos que fechar as centrais a carvão, também em Portugal, mais cedo. São estas as principais linhas.

O PAN quer atingir o carbono zero Portugal em 2030.

Sim e isso é exequível. Falta é vontade política.

Mas não está nos planos do Governo.

Não. Está para 2050, mas achamos que pelos dados que nos têm sido mostrados, até porque há uma emergência climática, temos que ser mais audaciosos.

Uma crítica que o Miguel Sousa Tavares fez era que vocês não têm nenhum impacto nas zonas rurais.

Isso é errado e foi demonstrado nas últimas eleições. O PAN tem uma implementação no território nacional, com percentagens muito elevadas também no interior.

Menos em Barrancos (a vila alentejana onde são permitidos touros de morte), onde não recolheram nenhum voto.

Sim, isso é normal. Mas já tivemos.

As causas animais, como a do fim da tourada e dos animais no circo, e do abate de animais saudáveis em canis tornaram o PAN conhecido. Quais as causas animais em que estão envolvidos agora?

Queremos também acabar com o transporte de animais vivos para fora da União Europeia. O que existe é um crescimento do comércio de animais e inclusive para o Médio Oriente. Os animais passam muito mais do que as oito horas permitidas pela UE em transporte, às vezes vários dias. Queríamos que os animais de companhia também ficassem fora do circo e neste momento a lei só se refere a animais selvagens. E também queríamos que acabassem os subsídios para a agropecuária intensiva. Queremos que o IVA, agora a 23%, das rações para animais de companhia seja reduzido. Sabe-se que seria uma medida positiva para a carteira das pessoas. 52% das famílias portuguesas têm animais de companhia. Temos também propostas sobre a preservação da vida selvagem.

O relatório das Nações Unidas que saiu há um mês sobre o risco de extinção de um milhão de espécies favoreceu a votação no PAN?

Também, porque a sociedade está a acordar para a emergência climática em que vivemos. Por isso é que as pessoas estão mais despertas para reduzirem os consumos de produtos animais, terem comportamentos mais sustentáveis no que diz respeito à mobilidade colectiva, para não consumirem tanto plástico. Estes relatórios e os documentários que são muito comuns na internet fazem com que as pessoas estejam mais receptivas a estas mensagens e queiram soluções práticas.

Vocês passaram da defesa estrita dos animais para a biodiversidade.

Sempre o fizemos. O problema é que os meios de comunicação convencionais só estão interessados em temas como as touradas. Por exemplo, apresentámos um proposta de reencaminhamento dos excedentes alimentares das grandes superfícies. Essa proposta foi rejeitada no Parlamento e a comunicação social não falou dela. Há aqui responsabilidade dos meios de comunicação social. Actualmente o leque expandiu-se e felizmente já se percebe que somos um partido que tem todas estas causas integradas.

Outra crítica, esta do jornalista Daniel Oliveira, é que o PAN em vez de uma proposta ecologista tem uma atitude moralista sobre como as pessoas devem viver.

Isso possivelmente é a consciência dele a falar. Nós não impomos nada a ninguém, mas somos é coerentes. Sempre que o partido faz um evento não temos copos de plástico, não temos produtos animais. Se a indústria agroalimentar é uma das mais poluentes, ultrapassa o sector dos transportes, não vamos fazer churrascadas. Nós não dizemos que somos superiores, nem apontamos o dedo. E nem todos os nossos filiados são vegan.

Outra crítica que também vos foi feita pelo Daniel Oliveira é que os vosso congressos são à porta fechada.

Sim, tivemos congressos fechados mas não é algo que seja relevante, podemos abri-los à comunicação. E convidámos jornalistas para o encerramento. A questão é que os jornalistas nunca quiseram saber do PAN.

Como entrou na política?

Vi o vídeo do antigo presidente do PAN, o Paulo Borges, sobre o que defendiam. Achei diferente, fui ler e pesquisar e achei que era um projeto politico interessante, quebrava todas as dinâmicas que eu conhecia a nível da política partidária, esquerda e direita, focava-se em temáticas que para mim são muito relevantes, nomeadamente direitos humanos, questões ambientais, os direitos dos animais, tudo interligado. Filiei-me em 2012, depois em 2013 fui candidato à presidência da Câmara de Coimbra, em 2014 fui terceiro nas listas das eleições europeias, em 2015 fui segundo pelo distrito de Lisboa [nas eleições legislativas] que elegeu o André Silva. Em 2017, candidatei-me também à presidência da câmara de Cascais onde tivemos um resultado também muito bom, elegemos duas deputadas municipais. E agora fui eleito.

Era assessor do André Silva no Parlamento português

Sou também coordenador de comunicação do partido desde 2014. É uma função pro bono e possivelmente vou continuar a assegurá-la. Sou também membro da comissão política há anos.

Antes da política o que fazia?

Era analista de estudos de mercado. Trabalhei em Coimbra durante vários anos numa empresa que fazia clippings de imprensa e relatórios diários para vários clientes. Um deles era o então comissário Durão Barroso.

Como lhe nasceu esta consciência ecológica?

Foi gradual. A minha mãe é bióloga e portanto havia na família uma sensibilidade para estas questões. Eu em miúdo via sempre a BBC vida selvagem. E fui aprendendo e tentando fazer o melhor que podia nas minhas áreas. Desde sempre tenho a mania de apanhar lixo, nas ruas, nas praias.

Vocês trabalham com biólogos ou alguns cientistas estão filiados no partido?

Temos base científica vinda dos nossos filiados, de organizações não governamentais, da sociedade civil. Já há muito conhecimento nas academias. Nós fundamentamos as nossas propostas no conhecimento que está disponível.

Como decidiu tornar-se vegan?

Foi há 10 anos, tinha 25 anos. Vi o documentário Earthlings (Terráqueos) e apercebi-me do impacto que as minhas escolhas nutricionais tinham no bem estar animal e achei que não queria compactuar com aquilo. Fiz uma transição: durante uns meses fui vegetariano, passado pouco tempo deixei também o leite e ovos.

O que vai mudar na sua vida com a eleição para o PE?

Vou ter que encontrar casa em Bruxelas. E depois vou andar para trás e para a frente porque a minha família vai ficar em Cascais. A minha mulher trabalha, é assessora no partido, a minha filha de 11 anos tem a vida feita. E agora tenho uma filha de 2 meses e meio. Não é uma mudança que se tenha que fazer.

Com tanto voo, a sua pegada ecológica vai aumentar bastante.

Sim, mas não há opções. Não é exequível a viagem de comboio, não há ferrovia de alta velocidade até Portugal. O que vamos tentar fazer é colmatar a pegada com campanhas de limpeza e outras iniciativas.

Telma Miguel

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