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Fiolhoso, a aldeia mais luxemburguesa de Portugal

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Fiolhoso, a aldeia mais luxemburguesa de Portugal

Fiolhoso, a aldeia mais luxemburguesa de Portugal
Emigração

Fiolhoso, a aldeia mais luxemburguesa de Portugal


por Maria MONTEIRO/ 06.05.2022

O largo central da aldeia, palco do reencontro entre os emigrantes e os conterrâneos, já esteve para ser designado de Praça do Luxemburgo, mas a câmara de Murça nunca avançou com o projeto.Foto: Rui Oliveira/Contacto

Fica no concelho de Murça e é assim conhecida porque a maior parte da população está emigrada no Grão-Ducado. Durante o ano, está praticamente vazia, mas em agosto passa de cerca de 300 habitantes para o triplo. Não há ligação umbilical ao Luxemburgo como esta na emigração portuguesa.

Na praça central de Fiolhoso, logo a seguir à saída da EN 212, um grande guarda-sol com a palavra "Diekirch" prefacia a história de uma comunidade repartida pelos mais de 1.800 quilómetros que separam os dois países. Ao início da tarde, o salão de visitas da aldeia, que está quase deserto nos outros dias do ano, conta com cerca de uma dezena de convidados que se recostam na esplanada e põem a conversa em dia.

Foto: Rui Oliveira/Contacto

Num lugar onde o ritmo da vida é definido por quem não está, basta olhar para o calendário para perceber a razão deste movimento. Estamos na semana da Páscoa, uma das épocas festivas que, a par do Natal e das Festas de Fiolhoso, em agosto, marcam o regresso e o reencontro de muitas pessoas que têm um pé em Portugal e outro no Luxemburgo.

(...) O emigrante português não parte para levar uma vida melhor no estrangeiro, mas para encontrar os meios de construir uma vida melhor 'em casa'.

Aline Schiltz, geógrafa que vive entre Portugal e o Luxemburgo

É o caso de Adélia Macedo, 57 anos, cuja família começou a disseminar-se pelo Grão-Ducado em meados dos anos 1970. Era criança quando o pai foi em busca de melhor sorte, embalado pela onda de emigração que começara na década anterior rumo à Europa central e que, depois de se evidenciar na França, ganhou força no território luxemburguês.

Os 43 anos que Adélia Macedo passou no Luxemburgo permitiram-lhe construir casa no Fiolhoso e em Medernach.
Os 43 anos que Adélia Macedo passou no Luxemburgo permitiram-lhe construir casa no Fiolhoso e em Medernach.
Foto: Rui Oliveira/Contacto

Na altura, era costume o chefe de família ir à frente para arranjar trabalho e alojamento para preparar a ida da mulher e dos filhos. Ao contrário dos irmãos rapazes, que acompanharam o pai, e da mãe, que os seguiu pouco depois, Adélia ficou em casa dos padrinhos nos dois anos seguintes à espera de se juntar ao resto da família.

O que tenho, o que os meus filhos têm, agradeço ao Luxemburgo.

Adélia Macedo, ex-emigrante

"Fui para o Luxemburgo com 11 anos, mas não me dei muito bem", confidencia. Não sabe apontar exatamente o que comprometeu o seu processo de integração, mas "andava constantemente doente". "Acho que não me adaptei bem ao clima", supõe. Voltou após alguns meses, mas ao fim de dois anos, viu-se obrigada a dar uma segunda oportunidade ao país. "A saudade dos meus pais e irmãos era muita."

Enquanto o buraco que tinha no peito fechava, o coração de Adélia abria espaço para o companheirismo que encontrara na escola em Larochette, perto da aldeia de Medernach onde a família residia. "Fui às aulas menos de um ano, o tempo suficiente para atingir a idade permitida para trabalhar, mas tive muita sorte com as amigas que fiz", relata.

Lançou-se na vida profissional numa nettoyage à sec, uma empresa de limpeza a seco, onde ficou por seis meses. Nos dois anos seguintes, esteve numa padaria, mas os patrões não lhe queriam dar as férias para ir casar ao Fiolhoso. Então, arranjou trabalho num café durante meio ano e começou a alinhavar os planos para o enlace. Tinha 18 anos.

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Tirar férias para ir casar à terra
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O rapaz por quem se apaixonara, Fernando, era da mesma aldeia, mas estava emigrado em França. O "namorico" desenrolava-se por telefone e carta. "Era mais bonito do que agora; talvez por isso o amor dure mais tempo", envaidece-se. Após juntarem os trapinhos na terra natal, ainda tentaram a sorte em França, mas ela não conseguia arranjar trabalho. Então, resolveram assentar arraiais no Luxemburgo, já que a experiência de cinco anos dizia a Adélia que ali teriam mais perspetivas de futuro.

O princípio da vida a dois foi "um bocadinho duro", pois Fernando teve problemas com a documentação para regularizar a situação de residência, o que o impedia de conseguir um contrato de trabalho. A generosidade de um aliado improvável permitiu ao casal sair do imbróglio. "Foi o tio do [Jean-Claude] Juncker que fez os papéis ao meu marido", revela a mulher, ainda hoje grata pela intervenção de Édouard Juncker (1921-1999), burgomestre de Ettelbruck durante mais de 20 anos.

Adélia encontrara trabalho pouco depois de voltar ao Grão-Ducado. "Meti um anúncio no jornal a dizer femme de chambre cherche de travail, plein temps, 48 heures par semaine", recapitula num francês desembaraçado. Começou a fazer limpeza na casa de uma senhora, mas o primeiro mês foi uma aflição. Estava grávida, mas receava que, se a patroa soubesse de antemão, não lhe desse oportunidade de mostrar o seu valor. "Antigamente, não aceitavam uma mulher grávida no trabalho", reconhece.

Ao contrário do que esperava, a notícia foi recebida com compreensão. Ficou ali durante oito anos, mas nunca sentiu que tinha as asas cortadas. Começava, aliás, a sonhar com voos maiores, até porque agora tinha três bocas para alimentar, fora a sua e a do marido. "Se arranjares um trabalho melhor, vai, que não fico zangada", encorajava a patroa, as suas palavras reproduzidas por Adélia.

Nessa altura, Fernando já estava a trabalhar na Goodyear, uma empresa norte-americana de pneus que se estabeleceu no Luxemburgo no âmbito de uma política de diversificação económica levada a cabo pelo Estado para diminuir o peso da indústria siderúrgica e atrair capital estrangeiro.

"Os portugueses encontravam trabalho na construção e as mulheres, sobretudo, na limpeza e na restauração, mas muitos passaram a ocupar os postos de trabalho recém-criados", relata Aline Schiltz, geógrafa que vive entre Portugal e o Luxemburgo, no seu trabalho final de licenciatura "A emigração portuguesa no Grão-Ducado do Luxemburgo. Análise do impacto local na aldeia de Fiolhoso" (2003).

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A primeira de todas as escolhas
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O derradeiro poiso laboral de Adélia foi um hospital, onde parou durante 28 anos, até regressar ao Fiolhoso há cerca de cinco, depois da reforma do marido. O tempo que passou no Luxemburgo é uma amálgama de memórias felizes cimentadas entre as longas jornadas de trabalho e a folga semanal em que ajudava a mãe a tomar conta de crianças e a fazer as lides domésticas.

Quase não sobrava tempo para o descanso, mas as dificuldades não deixaram qualquer réstia de amargura na sua voz; pelo contrário, desdobra-se em louvores ao país que a acolheu durante 45 anos. "O que tenho, o que os meus filhos têm, agradeço ao Luxemburgo", declara, salientando a inviabilidade de lhes "dar um bom viver" aqui.

Mais do que a prosperidade económica que lhe permitiu construir uma casa no Luxemburgo e outra no Fiolhoso, ou a possibilidade de ir à descoberta do mundo — Adélia acredita que nunca teria conhecido o Brasil se não saísse da aldeia —, a emigração deu liberdade de escolha aos seus filhos. "Uma foi estudar para a Alemanha, um para a Bélgica e a outra quis ficar no Luxemburgo", conta. "Eles puderam decidir e isso antes não acontecia."

O país [Luxemburgo] é muito bom, mas quem não trabalha não tem muito que fazer.

Adélia Macedo, ex-emigrante

Hoje, a família continua repartida entre os dois países. Os três filhos, com 37, 34 e 26 anos, nasceram lá e criaram raízes. Vivem perto uns dos outros, em Bettendorf, Moestroff e Medernach, e só vêm a Portugal de férias, uma vez por ano. "Só ficam uma semana, porque aborrecem-se de cá estar", afirma. Na maioria das vezes, é Adélia que se mete no avião com o marido para ir ver os filhos e os netos. No dia em que conversa com o Contacto, tem duas viagens marcadas para lá.

O casal deixou bons amigos no Luxemburgo, mas atualmente considera-se "mais de cá do que de lá". Até porque, na perspetiva de Adélia, "o país é muito bom, mas quem não trabalha não tem muito que fazer". No Fiolhoso, mal para em casa, entre os convívios à mesa dos cafés e as excursões que preenchem o calendário entre abril e outubro.

José Manuel Marcolino reconhece que foi para o Luxemburgo para "ganhar dinheiro e vir embora".
José Manuel Marcolino reconhece que foi para o Luxemburgo para "ganhar dinheiro e vir embora".
Foto: Rui Oliveira/Contacto

Além disso, estar na aldeia significa ter outro tipo de autonomia. Em Medernach, Fernando sentia-se "muito preso", apesar do amplo jardim que tinha em casa. "Aqui temos os terrenos e as cardanhas e ele entretém-se muito", assegura Adélia. "Não é a mesma coisa." Opinião partilhada por José Manuel Marcolino, ex-emigrante de 52 anos que se debate para encontrar as palavras certas para explicar o apego à terra.

[Em Fiolhoso] até os cheiros parecem diferentes.

José Manuel Marcolino, ex-emigrante

"Até os cheiros parecem diferentes", refere, aludindo à mesma sensação de liberdade descrita pela sua conterrânea. "Vamos para onde queremos; estamos aqui, queremos ir dar uma volta e vamos, [isso acontece] também por ser uma aldeia." O capítulo da sua vida no Luxemburgo arrancou de forma muito semelhante ao de Adélia. Em maio de 1992, fez-se à estrada depois de uma conversa com um tio que já estava emigrado.

Passado um mês já regressara ao Fiolhoso. "Não gostei muito daquilo", admite. Estava a trabalhar sem contrato e não esperava que a situação fosse regularizada. Por outro lado, rapidamente cedeu ao cansaço das quase quatro horas que gastava diariamente no percurso casa-trabalho-casa, entre Medernach e a capital. Saía de casa às 6h para apanhar dois autocarros e um comboio e estar no emprego antes das 8h.

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Partir a pensar no regresso
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Em agosto, foi surpreendido com o contrato no correio; teria de se apresentar ao serviço no mês seguinte. Resolveu tentar de novo e ficou durante dez anos. Mas a partida nunca se tornou fácil, apenas mais suportável. De cada vez que ia embora, os pensamentos sobre o regresso eram como moscas que não conseguia enxotar. "A saudade já começava a apertar e só estava a partir", recorda José, então determinado a bater o pé à melancolia.

As circunstâncias não se haviam alterado, mas a sua mentalidade era outra. "Fui com a ideia de que tinha de me habituar, porque estava ali para ganhar dinheiro e vir embora", reconhece. José foi primeiro e, passado um mês, a mulher e a filha juntaram-se a ele. Depois de algum tempo na casa do tio, alugou uma casa e lançou a primeira pedra de um futuro que se afigurava mais promissor.

José Teixeira Marcolino, presidente da junta de Fiolhoso, nunca quis emigrar e ficou ao leme do negócio da família.
José Teixeira Marcolino, presidente da junta de Fiolhoso, nunca quis emigrar e ficou ao leme do negócio da família.
Foto: Rui Oliveira/Contacto

Segundo Aline Schiltz, "o emigrante português não parte para levar uma vida melhor no estrangeiro, mas para encontrar os meios de construir uma vida melhor 'em casa'". Nesse sentido, mantém laços muito fortes com as suas origens, pois espera poder reintegrar-se na comunidade mais tarde e melhorar a qualidade de vida da própria aldeia, o que torna a emigração "um projeto conjunto mais do que uma ideia individual".

Uma vez que partilham esta vontade de voltar, muitos "têm dificuldade em integrar-se na sociedade de acolhimento". Não foi o caso de José. Quando entrava no autocarro, boa parte dos passageiros tagarelava em português. Na empresa de construção onde trabalhava, os colegas eram todos portugueses. "Era quase como estar em Portugal", equipara, entre risos. Além disso, não era novato na emigração, pois tinha passado três anos na Suíça.

Trabalhava de segunda a sábado e, nos domingos em que não fazia biscates para ganhar mais algum, frequentava os convívios organizados pela comunidade fiolhosense, na altura já altamente espalhada pelo território luxemburguês. Como Adélia, nunca se sentiu excluído ou discriminado. Longe disso. Nos tempos livres, jogava futebol em Biwer, perto de Grevenmacher, numa equipa maioritariamente luxemburguesa, em que só havia mais um estrangeiro, também português.

"Eles acarinhavam-me e ficaram com pena quando deixei de jogar no clube", lembra. Fazia-se entender com destreza, porque já levava umas luzes do francês dos tempos da Suíça. Gostava de aprender idiomas e chegou a atrever-se no luxemburguês, mas acabou por desistir do curso pós-laboral devido à falta de tempo. "Ou ia para as aulas ou para o futebol", graceja, admitindo que a dificuldade da língua facilitou a escolha.

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Globalização, arma de combate à saudade
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A ideia era ir num pé e voltar no outro, mas em 1996 acabou por comprar casa no Luxemburgo. "Depois de lá estarmos, já nos sentíamos integrados na comunidade", justifica. Porém, a vida esgotava-se no trabalho. Não havia margem para o lazer de quem queria amealhar para construir uma casa na terra. O sacrifício eventualmente daria frutos e, em 2002, vendeu a casa e voltou à aldeia.

"Se não tivesse ido, se calhar teria de fazer um empréstimo ao banco", assume. Aquando do regresso, a filha e o filho tinham dez e cinco anos, respetivamente. Ao início, a menina estranhou a mudança, mas adaptou-se quando começou a ir à escola, porque guardava as memórias das crianças com quem se cruzava nas férias. "Ela já conhecia alguns do mês de agosto e isso ajudou", indica o pai. Depois disso, ambos cresceram em Portugal e hoje trabalham no Porto.

O ex-emigrante viu muitos outros conterrâneos a chegar e a partir em busca de uma vida melhor, ao mesmo tempo que cuidava de quem ficava — foi presidente da Junta de Freguesia de Fiolhoso durante 12 anos, entre 2009 e 2021. Mas, na sua opinião, os emigrantes de hoje estão mais bem apetrechados para enfrentar a saudade, graças à globalização da aviação comercial. "No meu tempo, a gente só vinha cá uma vez por ano; hoje as pessoas estão cá quase de mês a mês. É impressionante."

No meu tempo, a gente só vinha cá uma vez por ano; hoje as pessoas estão cá quase de mês a mês. É impressionante.

José Manuel Marcolino, ex-emigrante e ex-presidente da Junta de Fiolhoso

José Teixeira Marcolino, que partilha o nome e o apelido com o primo e lhe sucedeu ao leme da Junta de Freguesia de Fiolhoso, concorda que, noutra altura, não conseguiria visitar a filha no Luxemburgo com tanta regularidade. "Costumo ir um fim de semana e, se fosse de carro, isso seria impossível", realça.

Nasceu no Fiolhoso há 57 anos e nunca quis arredar pé dali. Certa vez, o pai perguntou-lhe se queria ir para a Suíça, mas recusou categoricamente. "Disse-lhe 'se quiser ser um [bom] pai, diga-me para me meter no seu ramo [de trabalho]'", conta. A família tinha uma empresa de materiais de construção e cedo ganhou gosto pela atividade, tendo assumido a sua liderança com a morte do pai.

Quando era novo, via o futuro surgir nitidamente no horizonte da aldeia, o que raramente acontece com a garotada de Fiolhoso — José estima que a idade média seja 70 anos, estando a maioria dos jovens emigrada —, que se vê forçada a sair para os centros urbanos. Quase ninguém fica, mas quem o faz, por norma, está resguardado por um negócio familiar. "É muito difícil fixar gente aqui", concede.

Foi, precisamente, a falta de perspetivas que motivou a partida de uma das suas filhas. Formada em Informática, não conseguia arranjar emprego nas redondezas. Foi de olhos postos no regresso, mas entretanto passaram-se sete anos. Hoje tem 29, estabeleceu-se por conta própria, comprou casa e tem um filho na escola, uma ideia que rejeitava insistentemente. "Ela costuma dizer: 'Eu não gosto disto, gosto do que ganho cá'", conta o pai.

A partir dos anos 80, a construção impulsionada pela emigração mudou radicalmente a paisagem.
A partir dos anos 80, a construção impulsionada pela emigração mudou radicalmente a paisagem.
Foto: Rui Oliveira/Contacto


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A aldeia que a emigração ajudou a construir
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Não sendo ele próprio emigrante, o caso de José corrobora a teoria de que "há em todas as famílias [do Fiolhoso] pelo menos uma pessoa que emigrou para o Luxemburgo", como afirma Aline Schiltz no trabalho supracitado. Além da filha, tem dois cunhados a viver no Grão-Ducado. O sogro pertenceu à primeira geração de emigrantes que foram para lá. Esteve fora cinco anos, mas nunca levou a família, "talvez para evitar que os filhos se instalassem lá", presume. A mulher de José nunca esteve no Luxemburgo, mas os irmãos acabaram por seguir as pisadas do pai.

Fiolhoso começou a adquirir o aspeto que tem hoje entre 1958 e 1978, período no qual os caminhos de terra foram substituídos pelo asfalto. O entorno da praça central começou a ser edificado para habitação. A partir dos anos 80, a emigração foi o principal motor de transformação da aldeia. "Era uma loucura; o meu pai não conseguia ter materiais para toda a gente, porque havia muita construção", recorda José.

Aos poucos, as tradicionais casas de granito foram desaparecendo da paisagem — algumas chegaram aos dias de hoje, mas a maior parte está em ruínas —, dando lugar a grandes moradias com dois a quatro andares, escadarias de acesso ao interior, arcadas nas fachadas e jardins substanciais. Segundo Aline Schiltz, "a chaminé é o elemento típico que distingue as casas novas das tradicionais".

A vaga de construção estagnou no final dos anos 2000, mas teve um enorme impacto socioeconómico na vida dos fiolhosenses, nomeadamente ao nível das infraestruturas. A renovação da igreja e a construção do monumento à padroeira da terra foram parcialmente financiados por pessoas que trabalharam noutros países. Já a emigração no Luxemburgo ajudou a construir o pavilhão de jogos e o lar de idosos da aldeia.

Esta instituição é, aliás, um elemento simbólico da relação entre os dois países, já que só foi possível graças a uma parceria entre ambos os governos. O terreno foi doado pela junta à Santa Casa da Misericórdia, que assumiu a gestão do lar, e o Luxemburgo cobriu os custos da construção do edifício. A inauguração deu-se em 1998 e contou com a presença dos então primeiros-ministros Jean-Claude Juncker e António Guterres.

Hoje vêem-se poucas casas novas, até porque os novos emigrantes são persuadidos pelos benefícios fiscais do Luxemburgo e constroem lá, aponta José Marcolino. Da mesma forma, há um movimento no sentido inverso em relação às férias e visitas à família. "Agora há muitas pessoas que vão lá passar a Páscoa ou o Natal", explica. Já a cumplicidade luso-luxemburguesa não tem estação e continua a dar frutos: em breve vai nascer o Centro Social de Fiolhoso, um equipamento sociocultural impulsionado por locais e emigrantes.

Nos próximos meses, enquanto não chega o verão, a vida na aldeia volta a abrandar. Em agosto, Fiolhoso tornará a despertar com o frenesim de carros de matricula luxemburguesa espalhados por todo o lado. E a alegria das crianças que brincam na rua será a banda sonora dos dias.

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Illustration - Vote des etrangers - Photo : Pierre Matge
A investigadora luxemburguesa Aline Schiltz estuda a emigração portuguesa para o Luxemburgo desde 2003. A viver entre Lisboa e o Grão-Ducado, a geógrafa, de 35 anos, é autora de vários estudos sobre os portugueses, incluindo uma tese de doutoramento em que analisa a mobilidade entre os dois países. Diz que o Luxemburgo se “lusificou” e que a emigração portuguesa levou à criação de um “espaço transnacional” que podia servir de modelo para uma Europa sem fronteiras.