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Extrema-direita tenta entrar em força em Portugal à boleia dos coletes amarelos
Portugal 5 min. 17.12.2018

Extrema-direita tenta entrar em força em Portugal à boleia dos coletes amarelos

Extrema-direita tenta entrar em força em Portugal à boleia dos coletes amarelos

Foto: DR
Portugal 5 min. 17.12.2018

Extrema-direita tenta entrar em força em Portugal à boleia dos coletes amarelos

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Até agora, Portugal era dos poucos países da União Europeia com uma extrema-direita quase insignificante. Com as redes sociais, os sítios de produção de 'fake news' e as más condições de vida, parece que no dia 21 de dezembro o país pode acordar com uma manifestação muito participada, segundo propagandeia a PSP, promovida por elementos de extrema-direita xenófoba e racista.

Se em Portugal surgisse "um novo partido a falar alto contra imigrantes ilegais e contra a corrupção", o eleitorado das restantes formações políticas mudaria o sentido de voto? Esta é a pergunta formulada pela Aximage, no âmbito do barómetro de dezembro para o Jornal de Negócios e para o CM, em que cerca de 27% dos inquiridos responderam que sim. A grande maioria dos inquiridos, contudo, rejeitou liminarmente dar o voto a um partido apostado em ideias de cariz de extrema-direita. Esse “contudo” sabe a pouco, quando se sabe que o único partido de extrema-direita em Portugal teve apenas cerca de 25 mil votos, atingindo a ridícula percentagem de 0,5%, nas eleições legislativas de 2015.

O professor catedrático em Ciência Política André Freire começa por sublinhar, ao Contacto, que até aqui a extrema-direita em Portugal é quase “um objeto estatisticamente inexistente”. A sondagem colocava a pergunta de se as pessoas ponderam mudar o sentido de voto se houvesse um partido que enfatizasse os problemas da imigração e da corrupção. “Mas isso não está propriamente na agenda portuguesa, embora às vezes haja ódio contra os imigrantes, sem haver imigrantes. A percentagem de imigrantes em Portugal, sobretudo islâmicos, é outra inexistência estatística”, sublinha.

Mas isso pode estar a mudar. Recentemente, a Polícia de Segurança Pública (PSP) informou a comunicação social que a convocatória nas redes sociais “Vamos parar Portugal como forma de protesto”, usando a iconografia dos coletes amarelos, e promovida por setores ativistas de extrema-direita, ia ter, para a polícia, uma grande adesão. "Vamos ter manifestações de grande dimensão em todo o país e mandam as regras do bom-senso ter pessoal operacional", disse à Lusa o porta-voz da Direção Nacional da PSP, intendente Alexandre Coimbra.

O evento "Vamos Parar Portugal Como Forma de Protesto", criado na rede social Facebook, e alegadamente suspenso por essa rede social, teve mais de 10 mil pessoas a indicarem que vão e cerca de 50 mil pessoas interessadas no mesmo, o dobro da votação do PNR.

Trata-se de uma série de ações agendadas para o dia 21 de dezembro, em Portugal, apanhando a boleia dos coletes amarelos em França. De acordo com as seis pessoas que subscreviam o evento: "não é nenhuma manifestação, isso já fazem 200 por ano e nada é feito! Isto é um bloqueio! Um protesto! Uma revolta do povo unido até o povo ser ouvido!". Na mensagem de promoção do evento argumenta-se: "somos um dos países que recebe menos e paga mais impostos, etc., e ficamos caladinhos como sempre. Temos países a receber o dobro de nós, assim que existe algo que não agrade, reclamam, exigem, protestam até serem ouvidos, e nós portugueses? Chega, vamos dizer basta ao aumento dos combustíveis, portagens e tudo o resto que está mal!".

São seis os organizadores que há pouco mais de um mês criaram o evento. Vivem na Zona do Oeste, são operadores de telemarketing, pasteleiros e há até um instrutor de artes marciais. Já se conheciam, pensaram paralisar a A8 e, em poucos dias, viram a ambição crescer. "Com a adesão que temos tido, esperamos que seja em Portugal inteiro".

No entanto, a ligação da convocatória à extrema-direita parece indesmentível. Segundo o site dirigido pelo jornalista Fernando Esteves para assinalar 'fake news', “três dos seis organizadores têm publicações de cariz extremista e xenófobo nas respetivas páginas no Facebook. Desde mensagens de apoio a Jair Bolsonaro no Brasil até demonstrações de saudosismo pelo regime de António de Oliveira Salazar em Portugal, passando por apelos à adesão ao movimento de André Ventura, Chega!, o qual defende 'trabalho obrigatório nas prisões' e 'castração química de pedófilos', por exemplo”. Como é indesmentível a promoção que o PNR tem feito ao evento.

Os organizadores defendem-se com frases nas redes sociais: "Não é extrema-direita. É extrema necessidade", vê-se numa imagem em que aparece a bandeira de Portugal.

André Freire alerta que este crescimento da extrema-direita não é impossível em Portugal, mas que ele é mais um sintoma que a origem do problema da nossa democracia.

“Uma das razões de ascensão destes movimentos de protesto, sejam de direita radical ou outros , é uma espécie de conúbio entre o centro-esquerda e o centro-direita, que em parte também se liga com a Europa: a Comissão e o Parlamento Europeu funcionam numa espécie de grande coligação. Esse conúbio abre o terreno para a afirmação de que 'eles são todos iguais'”.

Para o universitário, “a Europa tem uma grande responsabilidade porque constrange o espaço das alternativas políticas. Como se dizia durante a crise: 'podem mudar de governo mas não podem mudar de políticas'. Quando os comentadores estão a fazer dos populistas, sejam de esquerda ou de direita, o problema da democracia, estão errados, eles são apenas um sintoma e uma resposta, o problema está antes, nos constrangimentos dos espaços nas escolhas políticas”.

O que dá espaço ao crescimento da extrema-direita, para André Freire, é o facto de a política ter horror ao vazio: “A esquerda, sobretudo o centro-esquerda, abandonaram as classes baixas que reclamam por segurança face à globalização. E ficaram só nas questões da identidade: fala-se para os 'gays' e para outras chamadas 'minorias', mas deixou de ter a preocupação de falar para as classes de baixo e a classe operária. Não tem tido a ambição de responder a pessoas precárias, desprotegidas. A esquerda não leva a sério essa demanda de proteção. O centro-esquerda que está no poder assumiu a liberalização do comércio como uma vaca sagrada e abandonou as pessoas".

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