Escolha as suas informações

Europeias. Pedro Marques diz que "é preciso um novo contrato social europeu"
Portugal 4 min. 04.04.2019

Europeias. Pedro Marques diz que "é preciso um novo contrato social europeu"

Europeias. Pedro Marques diz que "é preciso um novo contrato social europeu"

Foto: Chris Karaba/Luxemburger Wort
Portugal 4 min. 04.04.2019

Europeias. Pedro Marques diz que "é preciso um novo contrato social europeu"

Nuno Ramos de Almeida
Nuno Ramos de Almeida
O cabeça de lista do PS às eleições europeias por Portugal aposta na mudança das políticas europeias que promovam o emprego, a convergência e o combate às desigualdades.

Qual é a quota-parte da União Europeia no crescimento do populismo da extrema-direita no Velho Continente?

A situação da União Europeia (UE) foi agravada com a resposta dada à crise financeira. O próprio Presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, reconheceu que a resposta financeira dada aos países do sul teve erros e contribuiu certamente para afastar muitos cidadãos do projeto europeu. Isso nota-se em muitos países, em alguns deles dá-se o crescimento de partidos de extrema-direita e em outros verifica-se que partidos do PPE (Partido Popular Europeu) aliam-se à extrema-direita, como em Espanha. 

Essa normalização da extrema-direita é muito perigosa. Tanto o PS como a maioria dos portugueses são profundamente europeístas. Mesmo com uma crise tão difícil, os portugueses continuam a acreditar na Europa. Mas há inegavelmente o reconhecimento de que a UE tem de mudar e que tem de governar para as pessoas.

Colocar a baliza temporal para o crescimento da extrema-direita na crise financeira e económica, que começou em 2007, não desresponsabiliza a UE de um processo de degradação da democracia a nível europeu que teve pontos altos com o tratado de Maastricht e o de Lisboa?

Quando se implementou a moeda única não se conseguiu promover igualdade no espaço europeu: houve um reforço da desigualdade do espaço europeu entre o norte e o sul da Europa. E mesmo dentro dos países reforçaram-se as desigualdades, mesmo quando esses países estavam a crescer economicamente. Houve muita desregulação laboral e social nesse período. Durante todo esse período, os países do sul da Europa não conseguiram convergir com o resto. Depois, a resposta à crise financeira foi assimétrica e aumentou as desigualdades; e foi acompanhada das migrações e da crise de refugiados que teve um grande impacto na Europa. Tudo isso funcionou como gasolina para a extrema-direita, o que torna a situação muito perigosa. 

É preciso regressar aos valores europeus. A construção europeia é uma construção de paz, que tem também objetivos económicos. Mas a grande coligação que legitima e suporta a construção europeia é o Estado Social. É isso que permite dar coesão e dar bem-estar às classes médias. A Europa perdeu muito desses valores com a desregulação laboral e ao ter deixado de trabalhar para as pessoas. A proposta do Partido Socialista Europeu, que nós partilhamos com o LSAP (socialistas luxemburgueses), é um novo contrato social para a Europa. O que significa isso? Voltar a dar prioridade à política de emprego e de redução das desigualdades sociais. A Europa tem de voltar a melhorar a vida das pessoas.

Isso não é contraditório com o facto dos partidos socialistas, como no caso da Terceira Via de Blair, terem viabilizado parte das políticas de desregulação laboral e de aumento das desigualdades?

Como consequência disso houve um recuo da predominância do peso dos partidos socialistas na governação europeia. É por isso que digo que temos de mudar de paradigma e voltar a governar para as pessoas. Em Portugal, é isso que estamos a fazer com as políticas de emprego e de diminuição das desigualdades que levamos a cabo. Conseguimos ajudar a criar 350 mil empregos, aumentámos o salário mínimo e as pensões das famílias, recuperámos rendimentos que tinham sido perdidos e mantivemos as contas públicas controladas.

Mas as condições impostas pelas políticas europeias não fazem com que a esmagadora maioria do emprego criado seja emprego com baixos salários?

Foi criado muito emprego. Muito emprego estável. Como estamos perto de um valor elevado da taxa de emprego, começa-se a notar um aumento dos salários médios, porque as empresas, para reterem trabalhadores de qualidade, necessitam de lhes pagar mais. Mas isso não invalida que a Europa volte a apostar a sério na inovação. É essa inovação que permite pagar salários de qualidade, mas a Europa tem de ter, também, políticas sociais de qualidade que apostem na convergência dos países, na redução das desigualdades e na política de emprego.

O PS defende o euro, mas diz que ele tem de ser alterado. Como o vão conseguir?

A forma como se implementou o euro provocou desigualdades territoriais e mesmo dentro dos países. Essas desigualdades também provocaram uma crise financeira. Hoje há melhor perceção de que não podemos ter um processo tão desigual, porque assim não se consegue estabilizar o euro. É preciso recordar, a crise financeira foi muito forte para os países do sul, mas acabou por afetar os países do centro da Europa. 

Toda a gente tem consciência de que não pode haver uma Europa tão desigual. É preciso um plano de investimento e um orçamento comunitário que reforcem a convergência dos países europeus. Uma zona monetária única deve ter os mecanismos de segurança e de convergência, de outra maneira torna-se insustentável. É essa a nossa aposta, daqueles que não acreditam numa Europa da austeridade e das sanções.


Notícias relacionadas

Opinião: O rapto da Europa perante os nossos olhos
A ninfa da mitologia grega subiu ao dorso do touro branco e agarrou-se ao seu pescoço. O touro, que não era mais do que o todo-poderoso Zeus disfarçado, entrou no mar Egeu e nadou até Creta, onde guardou a bela Europa, pois esse era o nome da ninfa, para si. A história do rapto de Europa constitui as origens míticas do Velho Continente e, como em todos os mitos, nunca aconteceu realmente.
Ministro da Imigração luxemburguês: Jean Asselborn convoca conselho extraordinário da UE para discutir crise migratória
Jean Asselborn, ministro dos Negócios Estrangeiros e da Imigração do Luxemburgo, país que assume actualmente a presidência rotativa da União Europeia (UE), convocou um Conselho de Justiça e Assuntos Internos extraordinário da UE para 14 de Setembro. A reunião terá como objectivo discutir e encontrar soluções para o agravamento da crise migratória às portas da Europa.