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Europeias. Marisa Matias tem "dúvidas que geringonça seja para continuar”
Portugal 4 min. 15.05.2019

Europeias. Marisa Matias tem "dúvidas que geringonça seja para continuar”

Europeias. Marisa Matias tem "dúvidas que geringonça seja para continuar”

Foto: Bruno Stevens
Portugal 4 min. 15.05.2019

Europeias. Marisa Matias tem "dúvidas que geringonça seja para continuar”

Nuno Ramos de Almeida
Nuno Ramos de Almeida
A eurodeputada do Bloco de Esquerda defende que é preciso “correr por fora e correr por dentro” na União Europeia. Ter uma posição crítica que permita construir uma maioria para a transformação da Europa. Já para que haja um governo de esquerda em Portugal é preciso alterar a correlação de forças existentes.

A posição do Bloco sobre a Europa parece que tem flutuado: numa altura inicial, havia a aposta num europeísmo de esquerda no espaço da UE; depois, com a crise de 2007, houve uma necessidade de reafirmar o respeito da vontade dos povos de cada país e a sua soberania; e depois do Brexit parece haver um certo retomar do europeísmo. É correto dizer isso?

Acho que é correto dizer que nós temos tido uma posição que na base não tem mudado, mas naquilo que é a proposta política tem sofrido algumas oscilações. A nossa posição não se baseia numa cartilha, dado que somos permeáveis às alterações que entretanto aconteceram no espaço europeu. A dimensão crítica em relação ao projeto europeu sempre esteve presente. A nossa perceção sobre a capacidade de transformação do projeto europeu é que foi mudando, ao longo do tempo e devido à alteração das circunstâncias. A crise mostrou-nos a necessidade de recuperação de espaços de soberania que estavam a ser perdidos. Tornou-se profundamente evidente que, na União Europeia, há uns que mandam e outros que são mandados. Quando a UE quer obrigar a cortes em áreas da saúde pública, educação e do Estado Social, que são domínios de decisão dos Estados membros, percebe-se a tentativa de impor uma política profundamente ideológica a partir do chamado diretório. É preciso lembrar que essa imposição a partir de um diretório não foi sempre assim. Estou aqui há dez anos e muito mudou: por exemplo, com a introdução do Tratado de Lisboa, os países deixarem de valer todos o mesmo. A seguir, houve outras alterações que ainda condicionaram mais a soberania dos Estados, como foi o caso do Tratado Orçamental. Assistimos a uma profunda transformação de muitas coisas, mas não estava escrito nas estrelas que tivesse de ser assim.

Mas isso não demonstra que a UE não é reformável no sentido de permitir outras políticas económicas?

Nós mantemos uma total oposição aos tratados. A questão é como fazer uma política para construir alianças que possam contribuir para alterações também neste espaço europeu.

Recentemente disse que o Bloco nunca defendeu a saída do euro. Mas em 2017, há uma resolução da Mesa Nacional do BE que insta que se prepare a saída do euro e termina com a frase que “entre o povo e o euro, escolhemos o euro”. Qual é a posição, de facto, do BE sobre esta matéria?

O Bloco nunca defendeu oficialmente a saída do euro. O que conta como posição política oficial do partido são as resoluções das Convenções e os programas eleitorais, qualquer pessoa que queira fazer esse trabalho verificará que em nenhum desses documentos se defende a saída do euro.

Não se pode dizer que o Bloco passou de uma posição de defesa da manutenção da moeda única para considerar que é preciso preparar Portugal para a sua saída?

Esta moeda única se não tiver alterações profundas é impossível de sustentar, isso está em todos os documentos do Bloco e não foi mudado.

É credível que seja possível ganhar a maioria dos países para mudar a moeda única?

No quadro da atual correlação de forças é difícil que isso aconteça, mas existe essa possibilidade e sobretudo existe essa necessidade. É preciso que a moeda única seja um fator de convergência dos países de uma maior igualdade entre as pessoas. Esta moeda não aguenta uma segunda crise. A UE não fez nada para evitar para que haja uma nova crise. Não se aprendeu com o sucedido. Não podemos deixar de ter a perspetiva que esta moeda tem de mudar.

Como é que se caracteriza politicamente? Social-democrata?

Não. Acho que há algumas coisas boas na social-demo-cracia, como a defesa do Estado Social, mas não me considero social-democrata.

O capitalismo é um problema?

O problema é mesmo o sistema capitalista. Eu defino-me como anticapitalista, não renegando algumas das dimensões positivas trazidas pela social-democracia, que entretanto foram postas de lado. Não é possível ter uma política alternativa sem ter a ambição de superar o capitalismo.

As eleições europeias são vistas como a primeira volta das legislativas. Acha que a geringonça cumpriu e é para continuar?

Tenho dúvidas que a geringonça seja para continuar. Mas não devemos fazer futurologia, porque tudo vai depender da correlação de forças nas legislativas. As forças políticas estão todas a disputar o poder. A experiência valeu a pena, apesar de ter ficado muito aquém do necessário. Não me esqueço da situação em que estava o país antes da criação da geringonça. Era uma obrigação fazer-se um esforço para parar o caminho traçado, pela direita, que levava à destruição do país.


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