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Estudantes da Universidade de Coimbra “feitos ao bife”
Portugal 5 min. 19.09.2019

Estudantes da Universidade de Coimbra “feitos ao bife”

Estudantes da Universidade de Coimbra “feitos ao bife”

Foto: Lex Kleren
Portugal 5 min. 19.09.2019

Estudantes da Universidade de Coimbra “feitos ao bife”

A decisão da Universidade de Coimbra de proibir o consumo de carne de vaca nas suas cantinas, qualificada pelo próprio reitor como "medida emblemática", é confirmada pela FAO – Organização das Nações Unidas para a Agricultura – e por estudos de várias instituições que garantem que deixar de comer carne não vai salvar o planeta.

A Universidade de Coimbra diz querer atingir a neutralidade carbónica já em 2030, segundo Amílcar Falcão, pelo que a instituição começa, em janeiro, pela eliminação da carne nos menus das suas cantinas universitárias.

A decisão foi apoiada pela Associação Académica de Coimbra que considerou tratar-se de uma "medida altamente arrojada”.

"As alterações climáticas são para nós uma preocupação. Esta medida não vai resolver o problema, mas é importante na consciencialização do meio académico", considera a associação.

Por ano, são consumidas cerca de 20 toneladas de carne de vaca nas cantinas da Universidade de Coimbra. Amílcar Falcão diz que existem muitas alternativas para substituir este alimento sem prejudicar a qualidade das refeições. A "carne de vaca é aquela que deixa maior pegada ambiental", e este "esforço coletivo" surge no sentido de "diminuir as emissões de carbono na próxima década".

Naturalmente, e é do senso comum, o que comemos e a forma como nos deslocamos diariamente impactam nas alterações climáticas. Contudo, a produção de carne não é a principal culpada pelas alterações climáticas.

 “Desistir da carne não salva o planeta”

Mas “desistir da carne não vai salvar o clima”, segundo um estudo da Universidade da Califórnia que, referindo-se apenas aos EUA, considera que se os americanos eliminassem toda a proteína animal da sua dieta apenas reduziriam em 2,6 por cento as emissões de gases com efeito de estufa.

Por seu lado, o Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC), que identifica e monitoriza as atividades humanas responsáveis pelas alterações climáticas e o seu contributo direto para as emissões por sectores, calcula que as emissões provocadas pelos transportes (rodoviários, caminhos de ferro e marítimos) representam anualmente cerca de 14% de todas as emissões decorrentes de atividades humanas. “Estas emissões consistem em dióxido de carbono e óxido nítrico da combustão de combustíveis fosseis. Comparativamente, as emissões diretas da criação de gado representam em CO2 o equivalente a 5% do total”, considera no seu último relatório sobre a matéria.

O PAN elogiou a "política com coragem" da Universidade de Coimbra. André Silva, porta-voz do PAN, elogiou, no Facebook a decisão da Universidade de Coimbra de eliminar o consumo de carne de vaca para atingir a neutralidade carbónica daqui a dez anos.

 “Medidas não são ecológicas, são classistas”

O deputado comunista António Filipe escreveu na sua página nas redes sociais: “Depois de grandiosas lutas que ficaram na História do movimento estudantil em Portugal ainda vamos ver os estudantes da Universidade de Coimbra a ter de lutar pelo direito a comer um escalope de vitela”.

A decisão da Universidade de Coimbra, para além de meramente simbólica, levanta outras importantes questões socioeconómicas que a historiadora Raquel Varela enumera num artigo intitulado “O fantasma de Salazar e o Reitor da Universidade de Coimbra” e que reiterou ao “Contacto”.

Para esta investigadora, “o reitor da Universidade de Coimbra não decidiu excluir a carne de vaca. Decidiu que quem tem menos dinheiro vai deixar de comer carne de vaca”.

“As cantinas são os locais onde os filhos das classes pobres e médias empobrecidas comem. Quem tem dinheiro vai continuar a comer carne, do lombo”, diz, sublinhando que “a medida do reitor é análoga à generalização dos parquímetros, uma privatização do espaço público. Quem tem dinheiro continua a ter acesso à cidade por carro. Estas medidas não são ecológicas, são classistas”.

Raquel Varela diz que a "transição" está a relevar-se uma forma de privar ainda mais os mais pobres de tudo, irão pagar mais impostos verdes, estão privados da cidade "verde".

“É preciso medidas sérias, e não hipocrisia disfarçada de ciência. Comer carne em idades jovens, quando se estuda, é essencial ao cérebro”, afirma, ironizando: “nos colégios onde se formam elites dirigentes do mundo, posso garantir-vos que a carne é biológica e do lombo. Comer muita carne faz mal, não comer nenhuma faz muito mal”, afirma, sublinhando que, se “o PAN, que representa o ultraliberalismo verde, seja a favor se compreende”, mas que é “inexplicável” o silêncio dos outros partidos.

Para esta hiastoriadora, “Marx explicava que a tendência do capitalismo era para tornar vegetarianas as classes trabalhadoras, desde logo diminuindo a parcela de proteína a que têm acesso na reprodução da força de trabalho, vulgo salário”.

 “Profunda perplexidade”

A Confederação dos Agricultores (CAP) reagiu à decisão da Universidade de Coimbra com “profunda perplexidade” à medida da universidade.

 “A invocada “emergência climática”, desígnio que a todos convoca, não deve – não pode – servir de pretexto para a tomada de decisões infundadas, baseadas em alarmismos incompreensíveis. Esta decisão, tomada num contexto universitário, espaço de liberdade e de conhecimento, ainda causa maior perplexidade.”, sustenta a CAP.

“A anunciada imposição, que privará alunos, professores e funcionários, de um elemento que faz parte da dieta alimentar portuguesa e mediterrânica, é uma limitação à sua liberdade de escolha e contribui para confundir os portugueses, porque é alarmista e assenta em pressupostos infundados”, afirma.

A CAP lembra que as pastagens bio diversas fixam mais toneladas de CO2 do que aquelas que são emitidas, ou seja, há um balanço positivo, que será tão mais positivo quanto mais se produzir em território nacional com o nosso tradicional tipo de produção.

Opinião semelhante tem a Associação de Jovens Agricultores de Portugal que considerou “lamentável e alarmista” a decisão da Universidade de Coimbra.

Decisões tomadas de ânimo leve como as da Universidade de Coimbra também não levam em consideração as consequências brutais que podem ter para alguns territórios, nomeadamente o Arquipélago dos Açores, cuja economia depende quase totalmente das indústrias de produção de carne e lacticínios.

Os Açores têm uma estrutura económica com uma forte especialização agropecuária e o setor primário (agricultura, silvicultura e pescas), representa 9,3% do VAB (Valor Acrescentado Bruto, a diferença entre o valor da produção e o valor do consumo intermédio num determindado período) português.

Os Açores são uma das quatro regiões portuguesas pertencentes à categoria de regiões menos desenvolvidas (ou seja, PIB per capita inferior a 75 % da média da União Europeia a 27). 

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