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“Este coronavírus contagia muito mais do que os anteriores”
Portugal 6 min. 07.04.2020

“Este coronavírus contagia muito mais do que os anteriores”

O investigador português Vítor Borges do INSA

“Este coronavírus contagia muito mais do que os anteriores”

O investigador português Vítor Borges do INSA
Credit Vítor Borges
Portugal 6 min. 07.04.2020

“Este coronavírus contagia muito mais do que os anteriores”

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
O investigador português Vítor Borges, do INSA que está a colaborar com o LNS do Luxemburgo explica em entrevista exclusiva como o vírus da pandemia se comporta e altera para continuar a contaminar o planeta. Uma investigação fundamental para a criação da vacina eficaz.

Quanto melhor conhecermos o inimigo, em especial os seus pontos fracos, mais fácil será combatê-lo. Sempre foi assim nas guerras e o mesmo se aplica na batalha contra o novo coronavírus, o SARS-coV-2, que alastra pelo planeta já tendo infetado mais de um milhão de pessoas e quase 70 mil mortos. Descobrir tudo sobre o ‘ADN’ deste vírus e o seu comportamento, é uma das prioridades máximas da ciência mundial. Para combater a sua disseminação e para a criação de uma vacina eficaz.

 Essa é também a missão prioritária do investigador português Vítor Borges, e dos seus colegas da Unidade Bioinformática do Departamento de Doenças Infeciosas, do Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge (INSA), em Lisboa. 


Portugal e Luxemburgo unidos na investigação do coronavírus
Cientistas de Lisboa estão a colaborar com a equipa de Jöel Mossong, do LNS, na identificação das várias estirpes deste novo vírus. Um passo fundamental para a criação da vacina.

Através de Vítor Borges e do investigador luxemburguês Jöel Mossong, a unidade do INSA está a colaborar ativamente com o departamento de epidemiologia, do qual Mossong é responsável, do Laboratório Nacional de Saúde (LNS) do Luxemburgo. Portugal e Luxemburgo uniram esforços para combater o novo coronavírus, que é mais “inteligente” do que os seus antecessores. Por isso, mais perigoso.

 A sua unidade bioinformática, do INSA, está a sequenciar os genomas, ou estirpes, do SARS-coV-2 para se conhecer o melhor possível os vírus que circulam em Portugal. Como é que isso é feito?

 No INSA desenvolvemos uma plataforma bioinformática para a sequenciação dos genomas do vírus da gripe que agora estamos a utilizar para o novo coronavírus. Mas também estamos a investigar uma plataforma para muitas outras doenças infeciosas, além da gripe, como a tuberculose ou doenças gastrointestinais, por exemplo. Através desta tecnologia de vigilância laboratorial conseguimos descobrir as diferenças e similaridades das estirpes do novo coronavírus em Portugal. E isso é feito com o material dos testes de despistagem das pessoas infetadas fornecidos pelo nosso laboratório e também o que nos chegam de fora. Como o INSA é um laboratório de referência nacional recebe os testes de todo o país.

Gráfico da plataforma bioinformática do INSA que sequencia o genoma do novo coronavírus.
Gráfico da plataforma bioinformática do INSA que sequencia o genoma do novo coronavírus.
Credit Vítor Borges

O vírus vai mudando para melhor se adaptar aos habitantes das diferentes regiões e países, não é?

Sim, os genomas dos vírus de cada zona podem ter semelhantes que os distinguem dos vírus a circular em outras regiões ou países. A nossa monitorização é feita com base nas diferenças e similaridades que o vírus tem em Portugal. Por exemplo, há uma região com um pequeno surto causado pela mesmo fonte, nessa pessoa inicial e nas outras pessoas que infetou, os genomas vão ser muito mais parecidos entre eles, do que o vírus que infetou noutra região do país. Esta análise permitiu também identificar, inicialmente, a origem dos vírus importados, se vinham da China ou de Itália, por exemplo, e agora os de transmissão comunitária, em que regiões ou zonas do país estão a circular.

Como o vírus continua a contaminar

Em Portugal, o vírus tem um determinado perfil que o distingue dos vírus da China ou da Itália?

Sim, os primeiros genomas europeus são maioritariamente semelhantes aos do novo coronavírus em Itália, onde começou o primeiro grande surto na Europa. Mas também da China. Contudo, desde que estes vírus entraram no país já sofreram mutações para continuar a cadeia de transmissão. Há sequências do vírus no país que têm semelhanças com os primeiros casos em Portugal. Isso também permite perceber onde poderá estar a emergir um surto, com base no genoma do vírus e as autoridades atuarem mais rapidamente para prevenir a propagação.

Quantas estirpes do vírus já sequenciaram? E quantas vezes o vírus já se modificou em Portugal?

Já sequenciamos mais de 100 genomas. O vírus é o mesmo, mas vai havendo variantes, mutações. Neste coronavírus a taxa de acumulação de mutações é de duas por mês. Quando comparamos sequências com o vírus reportado na China, onde foi primeiro diagnosticado, o genoma atual já tem cerca de oito ou nove mutações.

Para quando uma vacina?

O conhecimento do genoma das estirpes do coronavírus é importante para a criação de uma vacina eficaz.

Muito importante. Estamos a sequenciar o genoma do vírus, o mais rápido possível, porque pode ser informativo a vários níveis, pode ajudar-nos a monitorizar cadeias de transmissão, ajudar a perceber a diversidade genética do vírus, que é muito importante para o desenho de vacinas. Os genomas que sequenciamos no INSA são depois enviados para uma base de dados mundial que reúne estirpes de todo o mundo, o que é fundamental para a criação de uma vacina. 

Quando poderá haver uma vacina no mercado?

É bastante imprevisível, contudo, em termos científicos, estamos a viver uma época de enormes avanços. Em poucos dias, semanas, descobrem-se informações sobre o novo coronavírus que antigamente demoravam anos a serem conseguidas. Por todo o mundo há neste momento, laboratórios e cientistas a trabalhar numa vacina, mas mesmo depois de ser criada há diversos passos a dar, como os ensaios clínicos em humanos e a aprovação pelas autoridades e agências dos medicamentos, até ficar disponível. 

Colaboração com Luxemburgo

O Vítor Borges e a equipa do INSA também estão a colaborar com o Laboratório Nacional de Saúde do Luxemburgo (LNS). 

Sim, eu e o meu colega Jöel Mossong, chefe de epidemiologia do LNS temos já uma colaboração antiga. Quando implementámos este protocolo para a sequenciação do genoma do novo coronavírus, enviei-o logo ao Jöel que o está a aplicar no Luxemburgo. No Luxemburgo, tal como em Portugal, os primeiros casos foram importados de Itália e estamos a partilhar procedimentos e experiências o que tem sido muito útil nas nossas investigações. Por exemplo, partilhamos as sequências para testar ferramentas e trocamos experiências para ter confiança nos dados.

A vossa unidade vai em breve criar uma página online onde também vão colocar as sequenciações do genoma.

Como recebemos amostras de todo o país, que nos permite fazer esse estudo estamos também a trabalhar a todo o ritmo para disponibilizar um site para partilhar com os laboratórios e hospitais a diversidade dos vírus que estão a circular em Portugal.

Outra imagem do processo de sequenciação do vírus da plataforma do INSA.
Outra imagem do processo de sequenciação do vírus da plataforma do INSA.
Credit Vìtor Borges

 Um coronavírus 'inteligente'

Em que é que o SARS-coV-2 se distingue dos anteriores coronavírus e dos das gripes?

Este novo coronavírus é de uma família bastante diferente do vírus da gripe. Há coronavírus que infetavam humanos, causando apenas constipação, por outro lado, nos dois casos anteriores de doença severa (SARS e MERS) o vírus revelou que não tinha muita capacidade de transmissão. O SARS-coV-2 é, entre estes vírus, o que tem maior capacidade de transmissão, de contaminar, e esta uma das características que o distingue. Contudo, a taxa de mortalidade dos anteriores SARS e MERS era maior.

Este novo coronavírus é mais ‘inteligente’, portanto.

Este vírus está mais adaptado à infeção humana. Tem uma maior capacidade de infetar e de se ligar às células humanas do pulmão, por isso tem maior poder de transmissão. E é mais perigoso pela dimensão do surto.

Foi transmitido por um animal ao homem?

Estas famílias de vírus circulam no mundo animal e poderá ter passado para o ser humano, mas não se sabe ainda que animal foi nem quando foi. Fala-se do morcego, e mais recentemente que poderá ter havido um animal intermediário, o pangolim. Uma possibilidade é o morcego ter transmitido a esse animal que depois transmitiu ao homem.

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