“Este coronavírus contagia muito mais do que os anteriores”
“Este coronavírus contagia muito mais do que os anteriores”
Quanto melhor conhecermos o inimigo, em especial os seus pontos fracos, mais fácil será combatê-lo. Sempre foi assim nas guerras e o mesmo se aplica na batalha contra o novo coronavírus, o SARS-coV-2, que alastra pelo planeta já tendo infetado mais de um milhão de pessoas e quase 70 mil mortos. Descobrir tudo sobre o ‘ADN’ deste vírus e o seu comportamento, é uma das prioridades máximas da ciência mundial. Para combater a sua disseminação e para a criação de uma vacina eficaz.
Essa é também a missão prioritária do investigador português Vítor Borges, e dos seus colegas da Unidade Bioinformática do Departamento de Doenças Infeciosas, do Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge (INSA), em Lisboa.
Através de Vítor Borges e do investigador luxemburguês Jöel Mossong, a unidade do INSA está a colaborar ativamente com o departamento de epidemiologia, do qual Mossong é responsável, do Laboratório Nacional de Saúde (LNS) do Luxemburgo. Portugal e Luxemburgo uniram esforços para combater o novo coronavírus, que é mais “inteligente” do que os seus antecessores. Por isso, mais perigoso.
A sua unidade bioinformática, do INSA, está a sequenciar os genomas, ou estirpes, do SARS-coV-2 para se conhecer o melhor possível os vírus que circulam em Portugal. Como é que isso é feito?
No INSA desenvolvemos uma plataforma bioinformática para a sequenciação dos genomas do vírus da gripe que agora estamos a utilizar para o novo coronavírus. Mas também estamos a investigar uma plataforma para muitas outras doenças infeciosas, além da gripe, como a tuberculose ou doenças gastrointestinais, por exemplo. Através desta tecnologia de vigilância laboratorial conseguimos descobrir as diferenças e similaridades das estirpes do novo coronavírus em Portugal. E isso é feito com o material dos testes de despistagem das pessoas infetadas fornecidos pelo nosso laboratório e também o que nos chegam de fora. Como o INSA é um laboratório de referência nacional recebe os testes de todo o país.
O vírus vai mudando para melhor se adaptar aos habitantes das diferentes regiões e países, não é?
Sim, os genomas dos vírus de cada zona podem ter semelhantes que os distinguem dos vírus a circular em outras regiões ou países. A nossa monitorização é feita com base nas diferenças e similaridades que o vírus tem em Portugal. Por exemplo, há uma região com um pequeno surto causado pela mesmo fonte, nessa pessoa inicial e nas outras pessoas que infetou, os genomas vão ser muito mais parecidos entre eles, do que o vírus que infetou noutra região do país. Esta análise permitiu também identificar, inicialmente, a origem dos vírus importados, se vinham da China ou de Itália, por exemplo, e agora os de transmissão comunitária, em que regiões ou zonas do país estão a circular.
Como o vírus continua a contaminar
Em Portugal, o vírus tem um determinado perfil que o distingue dos vírus da China ou da Itália?
Sim, os primeiros genomas europeus são maioritariamente semelhantes aos do novo coronavírus em Itália, onde começou o primeiro grande surto na Europa. Mas também da China. Contudo, desde que estes vírus entraram no país já sofreram mutações para continuar a cadeia de transmissão. Há sequências do vírus no país que têm semelhanças com os primeiros casos em Portugal. Isso também permite perceber onde poderá estar a emergir um surto, com base no genoma do vírus e as autoridades atuarem mais rapidamente para prevenir a propagação.
Quantas estirpes do vírus já sequenciaram? E quantas vezes o vírus já se modificou em Portugal?
Já sequenciamos mais de 100 genomas. O vírus é o mesmo, mas vai havendo variantes, mutações. Neste coronavírus a taxa de acumulação de mutações é de duas por mês. Quando comparamos sequências com o vírus reportado na China, onde foi primeiro diagnosticado, o genoma atual já tem cerca de oito ou nove mutações.
Para quando uma vacina?
O conhecimento do genoma das estirpes do coronavírus é importante para a criação de uma vacina eficaz.
Muito importante. Estamos a sequenciar o genoma do vírus, o mais rápido possível, porque pode ser informativo a vários níveis, pode ajudar-nos a monitorizar cadeias de transmissão, ajudar a perceber a diversidade genética do vírus, que é muito importante para o desenho de vacinas. Os genomas que sequenciamos no INSA são depois enviados para uma base de dados mundial que reúne estirpes de todo o mundo, o que é fundamental para a criação de uma vacina.
Quando poderá haver uma vacina no mercado?
É bastante imprevisível, contudo, em termos científicos, estamos a viver uma época de enormes avanços. Em poucos dias, semanas, descobrem-se informações sobre o novo coronavírus que antigamente demoravam anos a serem conseguidas. Por todo o mundo há neste momento, laboratórios e cientistas a trabalhar numa vacina, mas mesmo depois de ser criada há diversos passos a dar, como os ensaios clínicos em humanos e a aprovação pelas autoridades e agências dos medicamentos, até ficar disponível.
Colaboração com Luxemburgo
O Vítor Borges e a equipa do INSA também estão a colaborar com o Laboratório Nacional de Saúde do Luxemburgo (LNS).
Sim, eu e o meu colega Jöel Mossong, chefe de epidemiologia do LNS temos já uma colaboração antiga. Quando implementámos este protocolo para a sequenciação do genoma do novo coronavírus, enviei-o logo ao Jöel que o está a aplicar no Luxemburgo. No Luxemburgo, tal como em Portugal, os primeiros casos foram importados de Itália e estamos a partilhar procedimentos e experiências o que tem sido muito útil nas nossas investigações. Por exemplo, partilhamos as sequências para testar ferramentas e trocamos experiências para ter confiança nos dados.
A vossa unidade vai em breve criar uma página online onde também vão colocar as sequenciações do genoma.
Como recebemos amostras de todo o país, que nos permite fazer esse estudo estamos também a trabalhar a todo o ritmo para disponibilizar um site para partilhar com os laboratórios e hospitais a diversidade dos vírus que estão a circular em Portugal.
Um coronavírus 'inteligente'
Em que é que o SARS-coV-2 se distingue dos anteriores coronavírus e dos das gripes?
Este novo coronavírus é de uma família bastante diferente do vírus da gripe. Há coronavírus que infetavam humanos, causando apenas constipação, por outro lado, nos dois casos anteriores de doença severa (SARS e MERS) o vírus revelou que não tinha muita capacidade de transmissão. O SARS-coV-2 é, entre estes vírus, o que tem maior capacidade de transmissão, de contaminar, e esta uma das características que o distingue. Contudo, a taxa de mortalidade dos anteriores SARS e MERS era maior.
Este novo coronavírus é mais ‘inteligente’, portanto.
Este vírus está mais adaptado à infeção humana. Tem uma maior capacidade de infetar e de se ligar às células humanas do pulmão, por isso tem maior poder de transmissão. E é mais perigoso pela dimensão do surto.
Foi transmitido por um animal ao homem?
Estas famílias de vírus circulam no mundo animal e poderá ter passado para o ser humano, mas não se sabe ainda que animal foi nem quando foi. Fala-se do morcego, e mais recentemente que poderá ter havido um animal intermediário, o pangolim. Uma possibilidade é o morcego ter transmitido a esse animal que depois transmitiu ao homem.
Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.
