Escolha as suas informações

Esta mãe portuguesa e Nick Cave partilharam a dor de perder um filho
Portugal 2 26 min. 24.09.2022
Lisboa

Esta mãe portuguesa e Nick Cave partilharam a dor de perder um filho

Lisboa

Esta mãe portuguesa e Nick Cave partilharam a dor de perder um filho

Foto: Valter Vinagre
Portugal 2 26 min. 24.09.2022
Lisboa

Esta mãe portuguesa e Nick Cave partilharam a dor de perder um filho

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
Nick Cave e Paula Lebre têm um universo a separá-los. E algo de mágico e de trágico que os une: a perda de um filho. Paula é a mãe de Beatriz, assassinada no dia 22 de Maio de 2020, às mãos de um colega de faculdade. No passado dia 3 de Setembro, no Meo Kalorama, Nick Cave dedicou à sua filha uma canção. Paula estava na multidão. Ele não podia saber que é sua a única canção com a qual ela consegue chorar. Esta canção, é a sua religião. Dois mundos distantes voaram lado a lado, nessa noite, nas asas de um piano. "Into My Arms". Seja qual for esse lugar, é onde a Humanidade não está perdida.

No dia 22 de Maio de 2020, Paula Lebre deixou de ser a pessoa que era. Passou a ser duas. Passou a transportar dentro de si a sua filha, como se na morte a vida retornasse, numa estranha gestação. Os infinitos pedaços que ficaram, tantos, tão belos, tornam-se inteiros todos os dias. E a ausência desaparece. E com ela vive. E com ela adormece. Como se a tivesse nos seus braços. "Todas as manhãs me custa a começar o dia. Faço um esforço. Não me apetece viver, mas também não quero morrer". 

A mulher que sou hoje, nasceu no dia em que ela morreu. É uma nova condição de vida. Não existe luto. Se o luto é lutar contra a perda, estamos vencidos. Ela está invisível, mas eu estou sempre a vivê-la.

Paula Lebre, mãe de Beatriz, jovem assassinada em 2020 em Lisboa.

Paula aprendeu a deixar-se conduzir pelo espólio das coisas, memórias que na mente se cruzam com ela, como vizinhos na rua, em múltiplas declinações de 'déjà vu'. Às vezes é uma luz em determinado recanto, uma brisa, uma sombra, um perfume, um daqueles sons distantes do quotidiano, que ela resgata da melancolia. Às vezes são timbres, fragmentos cinematográficos, excertos que de repente se evadem dos livros ou das letras de canções. Noutras, são objectos. "Visto a roupa dela, ponho um fio dela. Faço-me dela. Quando foi o concerto do Nick Cave, vesti o que acho que ela vestiria. Imagino que vou viver um bocadinho por ela. Tiraram-lhe a vida, mas eu vou compensar, como se ela estivesse aqui. Vivendo por ela".

Onde seja que se escondem as suas lágrimas, só a música é capaz de lhes conceder alforria. Só aquela canção, maravilhosamente triste, que a define tão bem. A música do Nick Cave já fazia parte das suas vidas há muito tempo, numa imensidão de outras, de tantos estilos. Foi Carlos, o filho mais velho, irmão de Beatriz, quem lhes apresentou o Nick Cave e as suas Bad Seeds naquelas viagens de Elvas para Lisboa e de Lisboa para Elvas, como frequentemente acontecia desde 2015, quando Beatriz foi estudar para a faculdade. 

"A particularidade do Nick Cave é que, após a morte dela, eu não era capaz de chorar. Parece que estava sempre entupida. Sentia-me ansiosa, inquieta. Não me saia o choro. Se ouvir o 'Into My Arms', se cantar com ele... aquela libertação quando canto, então eu choro, choro tudo. Descobrimos que o álbum foi publicado no ano em que ela nasceu (1997). Há sempre simbolismos que nos afagam a dor. Esta canção permite-me chorar. No dia-a-dia tenho calma, o choro não sai. É a minha forma. Tenho dificuldade em libertar. O Nick Cave tornou-se muito importante para mim. Eu não sou religiosa, não sei rezar, não tenho fé. Para mim, essa música passou a ser uma espécie de oração. A minha fé é a música. Uma sensação de bem-estar transcendente, o meu divino". 

Na última passage por Portugal, em setembro, Nick Cave dedicou uma canção a Beatriz, em resposta à carta que a mãe enviou ao artista.
Na última passage por Portugal, em setembro, Nick Cave dedicou uma canção a Beatriz, em resposta à carta que a mãe enviou ao artista.
Foto: Claude Piscitelli

Um dia, antes do concerto, Paula escreveu uma carta ao Nick Cave. "Era uma mensagem de compaixão por ele, por uma dor similar. E estamos os dois a sobreviver da mesma forma". Julgou que essa carta tinha ficado perdida, em tantos milhares de outras cartas que lhe devem escrever. Não foi assim. Nick Cave dedicou à sua filha esta oração:

I don´t believe in a interventionist God

But I Know, darling, that you do

But if I did I would kneel down and ask Him

Not to intervene when it came to you

Not to touch a hair on your head

To leave you as you are

And if He felt He had to direct you

Then direct you into my arms

And I don´t believe in the existence of angels

But looking at you I wonder if that´s true

But if I did I would summon them together

And ask them to watch over you

To each burn a candle for you

To make bright and clear your path

And to walk, like Christ, in grace and love

And guide you into my arms

And I believe in Love

And I know that you do too

And I believe in some kind of path

That we can walk down, me and you

So keep your candlew burning

And make her journey bright and pure

That she will keep returning

Always and evermore

É possível que nunca tenha pensado muito nisso, talvez por saber o quanto é inútil decantar magia. Há na música uma transposição, material e imaterial, trágica e cósmica, multidimensional. A sua ligação com a Beatriz é assim, sem tempo ou lugar, como a música. Não há Deus, não há luto, norma de comportamento, culpa, arrependimento, rancor, tabus, preconceitos, aquela secular moralidade judaico-cristã que se recomenda no grande atlas da morte, a encíclica metafísica da perda, a teatralidade do sofrer.

A dor, é outra coisa. Algo perdido, incapaz de sair do seu lugar. Desde aquele dia que deixou de ter princípio, assim como de ter fim. Está lá dentro, sempre a espreitar de si, como uma comadre sibilina escondida atrás da janela, a ver a vida passar. É inexplicável, intransmissível essa dor. Não é sequer possível quantificá-la. Por vezes parece atingir pontos de leveza, que quase parecem reais. Noutras, parece que se torna orgânica a irracionalidade dos factos.

As faces da culpa

Beatriz Lebre tinha 23 anos e os sonhos perfeitamente intactos. Era licenciada em Psicologia pelo ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, fazia o mestrado em Psicologia Social e das Organizações. Era como se estivesse a contornar o mundo, para regressar ao seu lugar: o piano. O seu sonho era ser pianista. Algo que cresceu com ela desde criança. Essa vocação, decorre do mais belo ensinamento que em casa os pais lhe transmitiram: a liberdade. "Acho que os meus filhos sempre foram muito felizes porque nunca tiveram a pressão do horizonte, essa coisa de ter de escolher o que fazer no futuro, a pressão do futuro. Ainda bem que foi assim. Depois de acontecer o que aconteceu, se eu a tivesse obrigado a algum caminho forçado, imagine a minha culpa. Um esforço inútil, uma tortura, e depois morrer aos 23 anos. Ao menos esses anos foram plenos. Isso retira-me culpa. Se eu puder transmitir isto aos outros pais, acho que é muito importante".

A essência da juventude é a ilusão, a possibilidade, a contra-regra, o mecanismo libertário do pensamento que, com sorte, um dia se torna estrutural. "A ânsia de pensar no futuro retira o presente. Essa responsabilidade prematura do amanhã é estéril, pois nunca sabemos se lá se chega, como a minha filha não chegou. Isso, agora, dá-me uma grande serenidade". 

A sociedade do desempenho, dos objectivos, da competição é uma perversidade instalada na colectividade do absurdo. "A sociedade não está a pensar nos mais frágeis, que são os jovens, que têm uma carga enorme em cima. Se tirarmos a vida à vida, estamos a fazer pequenas mortes. Há várias mortes ao longo da vida, a morte física é só a última. É a diferença. Os meus filhos não tiveram isso".

Da parte da mãe, que neste aspecto só pode falar por ela, essa autonomia é uma herança de família. Tem a ver com personalidades, não com geografias, já que a sua mãe é de Cabanas de Viriato (Carregal do Sal) e o seu pai de Setúbal. Paula Lebre nasceu na confluência de migrações, na Maternidade Alfredo da Costa, berçário da Grande Lisboa, e cresceu nos Olivais. Veio um dia para o Alentejo, em comissão de serviço. Em Elvas se apaixonou, em Elvas casou, trazendo um piano no enxoval. Estudou Geografia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e tornou-se funcionária do antigo Ministério das Finanças e Administração Pública. 

Trabalha actualmente na Autoridade Tributária e Aduaneira, em Elvas, ao virar da esquina da sua casa, que por baixo tem a Óptica de António Lebre, o marido, e, quase em frente, a Academia de Música de Elvas, onde a sua filha foi muito feliz, onde decorreu grande parte da sua vida. "A Beatriz entrou para a Academia de Música com quatro ou cinco anos. Não gostou da natação, não gostou do ballet. Quando entrou para a música, tudo fez sentido".

Beatriz ainda estudou piano mas a fobia do palco fez com que acabasse por optar por Psicologia.
Beatriz ainda estudou piano mas a fobia do palco fez com que acabasse por optar por Psicologia.
Foto: DR

Em Elvas completou o ensino secundário, na Escola Secundária D. Sancho II, para seguir o rumo do seu instinto, ingressando no Curso Superior de Música da Universidade de Évora, para estudar piano com a professora Ana Teles, onde cumpriu o primeiro ano de licenciatura. Até perceber um certo desconforto na sua relação com o palco. "Sentia que quando tocava para o público, tinha pânico. Estava muito apreensiva que essa fobia de palco a incapacitasse. Mesmo para dar aulas ela tinha medo de transmitir isso aos alunos. Foi então que decidiu ir para Psicologia". E para Lisboa. Em 2015, mudou-se para a casa de um tio, em Chelas. A casa estava vazia. Esse tio cedeu-a para a Beatriz e para uma prima, que também veio estudar para Lisboa.

A capital apresentou a Beatriz um mundo novo, cheio de novas energias, embora o velho pânico do palco se tivesse mudado com ela, demonstrando-se no Metro. A própria Beatriz explicou à mãe o fenómeno. "Ela não conhecia bem Lisboa. Sentia que se lhe acontecesse alguma coisa, ninguém a conhecia, ninguém a acudiria. Era uma pessoa muito cuidadosa, muito medrosa. Tinha um pânico à morte, por acaso. E à doença". 

Esses medos eram esporádicos, não tinham qualquer domínio sobre a sua vida. Esse domínio, só a literatura, o cinema e a música exerciam. "Tinha uma lista dos filmes que ela queria ver, por realizador. Só colocava o visto quando ela tivesse reflectido sobre o filme. Os mesmo com os livros. Tinha o quarto decorado com fotografias do Kubrick, do Tarkovsky, do Chico Buarque".

Beatriz transportava da infância a alegria. "Era muito alegre. Os meus dois filhos adoravam divertir-se. A diversão era muito importante. Entre eles, assim como na vida. Mesmo a responsabilidade era diversão. Ela tornava tudo mais leve. Tinha ironia e era criativa. Gozava com ela própria. Porque é que havemos de tornar pesado tudo o que é da vida? Ela tinha essa tendência, embora fosse tensa com a responsabilidade". A Beatriz era uma pessoa agregadora. "Era tímida, mas muito comunicativa. Com ela, não havia separação de grupos. Raramente estava sozinha. Só na multidão é que ela estava sem companhia".

Talvez por ser de Lisboa, Paula nunca deu alimento aos fantasmas da distância. "Quando vivia em Lisboa, eu era muito vadia. A seguir ao trabalho, nunca ia para casa. A minha filha tinha mais juízo, eu tinha menos. É mesmo assim. Os riscos que eu corri ela nunca os correu. Ainda mais absurdo na minha cabeça se torna, porque ela tinha uma vida muito segura. Eu não, eu arrisquei. Ela não era muito de sair à noite. Sozinha, nem pensar. Ela só saia mesmo para estas coisas: cinema, concertos ou então algum jantar com amigos. Estava sempre com muita gente". A cidade em si é uma abstracção, não é uma entidade que possa oferecer perigo. A cidade são as pessoas. O perigo não é uma condição, mas está quase sempre onde menos se espera. Quase sempre, muito perto.

Paula fotografada junto ao rio Tejo, no local onde foi encontrado o corpo da filha, assassinada por Ruben Couto a 23 de Maio de 2020.
Paula fotografada junto ao rio Tejo, no local onde foi encontrado o corpo da filha, assassinada por Ruben Couto a 23 de Maio de 2020.
Foto: Valter Vinagre

Obsessão por companhia

O corpo de Beatriz Lebre foi encontrado no Tejo, no dia 29 de Maio de 2020, junto ao terminal de contentores, em Santa Apolónia. Um dia antes, quinta-feira, a PJ emite o seguinte comunicado: "A Polícia Judiciária, através da Directoria de Lisboa e Vale do Tejo, procedeu à detenção de um homem, com 25 anos de idade, por fortes indícios da prática de um crime de homicídio consumado". Esse homem era Rúben Couto, colega de Beatriz no ISCTE, no mestrado de Psicologia Social e das Organizações. 

A detenção fora no dia anterior ao comunicado, às sete da manhã do dia 27 de Maio. O detido não escondeu por muito tempo a autoria do crime, acabando por confessá-lo, indicando também o local para onde tinha atirado o corpo da vítima.

Entre a incerteza e o desespero dos dias que antecederam este, o assassino confesso de Beatriz juntou-se à sua família para ajudar nas buscas, oferecendo os seus préstimos em doses comedidas de acalanto, para não levantar suspeitas.

Paula confirma isto, com objectividade frágil, coisa que só mesmo o tempo lhe concedeu. Nem se deu conta que fechou os olhos levemente, engolindo fôlego, como se consultasse os esquissos do imenso edifício da tristeza. No dia 18 de Maio, estávamos em plena pandemia. Após um longo período de confinamento (desde Março), que Beatriz cumpriu em casa dos pais, em Elvas, havia esperanças, infundadas, de um regresso à normalidade. Era possível que os centros comerciais reabrissem.

A par do mestrado, Beatriz tinha encontrado um emprego de sonho, na Disney Store do Centro Comercial Colombo, onde trabalhava em 'part-time' desde 2019. "O que ela gostava de trabalhar ali. Ela adorava o mundo da fantasia. A fantasia desde sempre povoou a nossa casa". Nesse dia, a Beatriz decidiu pintar as paredes do seu quarto, que já davam sinais de humidade. "Ligou ao irmão, a dizer que tinha descoberto uma actividade terapêutica". 

Paula só chegou a Elvas ao entardecer. A última vez que falaram foi no dia 21 de Maio. No dia seguinte, sexta-feira, Paula não conseguiu contactar Beatriz. "Não falávamos todos os dias, mas eu sabia sempre onde ela estava. Havia dias em que, por uma razão ou outra, não se falava. Nunca pensei numa tragédia, não tinha esse mecanismo. Hoje tenho. Naquela altura, não tinha. Pensei que ela tinha perdido a noite a ler ou que tinha adormecido a ver um filme".

A família só alertou a polícia no domingo, 24 de Maio. Beatriz Lebre passou a ser mais uma 'missing person' desta vida, não agitando uma pestana na comunicação social. Por insistência da família, no dia seguinte, agentes da PSP deslocaram-se a Chelas, à casa onde vivia Beatriz, não encontrando quaisquer sinais de arrombamento. No seu quarto, pintado de fresco, encontraram a sua carteira, restos de comida, o telemóvel ainda activo, cheio de chamadas perdidas.

A casa estava arrumada, embora a arrumação e a limpeza denotassem um estranho método, que em vez de despistar os agentes da PSP lhes chamou a atenção. Buscas mais técnicas levaram à descoberta de vestígios de sangue. Era um caso para a Polícia Judiciária, chamada ao local no mesmo dia. Foi através do telemóvel de Beatriz, do qual confirmadamente o assassino enviou uma mensagem para uma amiga desta depois de cometido o crime, que se reconstruiram os últimos dias da vítima e do agressor. 

Através dos registos das mensagens no telemóvel de Beatriz Lebre, cruzando com as mensagens do telemóvel de Rúben Couto, com base no teor dessas mensagens e na geo-localização, concluiu-se, talvez precipitadamente, que o suspeito e a vítima tinham uma relação amorosa. Verificando as confluências das antenas dos seus operadores de telemóvel, ficou provada pelo menos uma relação electromagnética, que coincidiu no espaço e no tempo que separou o dia 18 do dia 22 de Maio de 2020. 

Com estas pistas, não foi difícil à PJ deslindar este caso. Quanto mais o tempo passava, adensavam as suspeitas de um homicídio, afastadas as teses de rapto, que foi a primeira das hipóteses. Fosse como fosse, o principal suspeito nem sequer se escondia, pois andava sempre próximo da família Lebre, convicto no seu papel de amigo preocupado. Um facto que não surpreendeu os agentes da PJ. Não é assim tão invulgar um criminoso rondar o local e até a família das vítimas. Por um lado, observa de perto as investigações. Por outro, garante com a sua presença o melhor dos 'alibis'.

Perante a notícia da detenção de Rúben Couto, a sua confissão e o óbvio cenário de um homicídio, tudo mudou. A máquina da Comunicação Social tornou-se reactiva, voraz. Mais ou menos pormenorizadas, sucederam-se as reconstituições deste crime, como uma espécie de autópsias noticiosas, à procura de razão na irracionalidade. Encontrado o corpo e a arma do crime, era o móbil que faltava. Nas suas declarações preliminares à PJ, Rúben Couto disse que matou por ciúme, o que não era inexacto. Entre tudo o que faltava apurar, a verdade, nua e crua, era esta: no momento em que o corpo de Beatriz foi retirado do Tejo, duas famílias ficaram destroçadas, uma com a culpa, a outra com a acção do culpado. 

Estirpes antagónicas de vazio que em breve se reencontrariam num dislate. Na primeira noite que passou nos calabouços da Polícia Judiciária, Rúben Couto tentou suicidar-se, cortando os pulsos. Ao contrário da sua vítima, foi encontrado com vida. O detido foi hospitalizado, mas a investigação e os respectivos interrogatórios não pararam por isso. Lentamente, foram reconstituídos os passos do assassino, antes e depois do crime.

Na quinta-feira, 21 de Maio, Beatriz e Rúben tinham de facto passado o dia juntos. Ficou também provado que Beatriz já tinha visitado a casa dos pais de Rúben, em Almada. Tudo isto, porém, estava a léguas de constituir prova quanto à suposta relação amorosa. "A existir, esta relação só existia na mente dele". Na opinião da mãe, muito do que se transformou na substância da acusação do Ministério Público, que assentou na premissa de uma relação secreta entre ambos, é de consistência débil. Um crime passional, sempre unilateral, não há como negar que foi. Só uma moralidade retrógrada consegue ver numa visita a casa dos pais dele uma espécie de enlace metafísico. 

Lá no fundo, bem no fundo, enraizado no preconceito, o que isto traduz, ainda que involuntariamente, é que também a culpa tem identidade de género, algo que se revelou amiúde durante o tempo em que este caso foi mediático. "Houve uma procura absurda da culpa, sendo que esta é atribuída sempre, de uma ou de outra, à mulher. Há um distúrbio cognitivo social, que é muito preocupante. Não podemos julgar só por julgar. A mulher por ser livre não está a assediar ninguém. Não. É uma questão de direitos. A Beatriz não é um nome para ser protagonismo de nada. Mas houve perversidades no caso dela, na sociedade, no jornalismo até, que eu espero que não se repitam. Se eu deixasse, isto sim, tinha acabado com a minha vida".

Na suas complexidades, as coisas eram mais simples: "O facto da Beatriz o ter acompanhado a casa dos pais, acho plausível. Era uma coisa que ela faria. Ela conhecia normalmente a família dele, como conhecia a de muitos outros amigos". Havia da parte dela uma percepção de amizade e da parte dele uma outra coisa, que se transformou numa obsessão. É essa a chave deste crime.

Paula Lebre já reconstituiu à infinitude os antecedentes. "Eles conheceram-se em Novembro de 2019, quando começou o mestrado. Uma vez conheci-o num dia em que estive em Lisboa com ela. Foi um encontro fortuito, no Metro. Falámos do Trump, de autoritarismo, da Hannah Arendt. Estivémos na estação de Sete-Rios a falar disso. Tudo normal. Nada indicava outra coisa". Se houvesse, a mãe tinha detectado. "Nessas coisas a Beatriz era muito transparente. Tinha obviamente as suas intimidades. A cumplicidade mais íntima, era comigo. Com o pai era a diversão. Eu não tenho tabus, nem faço juízo de valor em nada. Isso facilitava muito essa comunicação".

Algo escapou à investigação, que para Paula é muito claro. "Fosse o que fosse que aconteceu entre eles, aconteceu no confinamento, à distância. Foi o confinamento que os aproximou. Ela estava na sala com o computador quando falava com ele. Eu assisti a isso tudo, ao lado dela". A mãe de Beatriz é a única pessoa da sua família que consegue verbalizar o nome de Rúben Couto. "Consigo considerá-lo uma pessoa". 

Reforça que não faz juízos de valor, nem mesmo em relação ao homem que arrancou da sua filha a vida, mas entende que houve uma construção preconceituosa dos factos. "A Beatriz tinha uma relação com um rapaz de cá. Mas ela tinha muita abertura. Tudo se passava cá em casa, com amigos ou namorados. Era libertária, mas vivia num certo contexto de julgamento moral aqui em Elvas. Ela não tinha preconceitos, como nós não temos". 

Em relação aquele seu colega de mestrado, "ela teve uma preocupação especial, até porque a dado ponto ele denunciou um problema que tinha. Estava inquieto com um problema de saúde emocional e ela preocupou-se em acudir. Isso é verdade. Se estiveram juntos, só a dois, seria de uma parte do dia 18 até 22 de Maio. O que aconteceu foi um 'não'. Por maior intimidade que pudesse existir, em quatro dias uma relação não é possível. Só foi possível na mente dele e com certeza que na mente dele isso já durava há muito tempo. Nas aulas, quando ele a encontrava, aquilo apaziguava e nunca se demonstrou. Ele não apaziguar aquela ânsia dela e saber que ela estava com o namorado, tornou premeditado o que aconteceu".

Eu tenho esperança que a Beatriz esteja bem. Não sei se está, mas sabe-me bem pensar que está num paraíso qualquer. É uma loucura. O meu cepticismo diz-me que é uma loucura, mas eu permito-me ter essa loucura. Faz-me bem.

"O monstro precisa de amigos"

Dizem que o assassino era muito charmoso, empático, inteligente, comunicativo, com hábitos de filantropia até, a quem nunca se notara uma centelha de violência, alguém que vulgarmente se define como uma jóia de rapaz, com provas dadas em causas humanitárias. Uma das experiências que mais o tinham marcado foram 46 dias em Moçambique, onde esteve voluntário a ajudar crianças desfavorecidas. Foi algo, sempre disse, que tinha mudado a sua vida. O mesmo tinha acontecido como um disco, de uma das suas bandas predilectas, os Ornatos Violeta. Rúben tinha especial fascínio pela escrita de Manel Cruz, nome artistico de Manuel Gomes Coelho Pinho da Cruz, vocalista, guitarrista e letrista da banda, em particular um tema, que para Rúben Couto continha algo simbiótico. E algo premonitório: "O Monstro Precisa de Amigos".

Entre os seus, assim como vizinhos e conhecidos, a notícia do desencontro da sua personalidade foi recebida com elevado espanto e consternação, instalando-se uma onda de choque, um imenso ninguém diria. Rúben e Beatriz tinham em comum a juventude, o mestrado, o cinema, a literatura e a música. Alguns colegas de mestrado talvez tivessem notado primeiro o que Beatriz, com a sua leveza de criança, não atribuiu muita importância. Os que a conheciam há mais tempo (alguns transitaram da licenciatura em Psicologia), na presença de Rúben, já não se referiam ao namorado de Beatriz pelo nome. Lá está, a culpa que por aí anda disfarçada, por entre estratos e gerações, como um agente provocador ao serviço da condição masculina.

Nas biografias de circunstância que foram traçando dele enquanto acusado de "homicídio qualificado e profanação de cadáver", com menor ou maior acuidade estilística, Rúben era descrito como alguém a quem o género oposto não resistia, uma espécie de rapaz-fatal, bem-falante, bem-parecido, com cultura acima da média, seja lá o que isso for, e uma grande dose de 'savoir faire'.


Logo de seguida, lá vinham as mensagens dos telemóveis do agressor e da vítima, cujo teor nunca foi revelado em público, aquela ida dela a casa dos pais dele, o dia que passearam na Expo, o facto de Beatriz lhe ter aberto a porta às tantas da noite, naquela noite em que ela foi espancada até à morte. Talvez este discurso, subliminarmente justificador, esteja de tal modo alojado na moral colectiva que já nem se dá pela sua presença. Só se dá pela consequência quando as feridas ficam à vista.

No dia 21 de Maio de 2020, véspera do crime, ele saiu de casa à hora de almoço. Convidou a Beatriz para dar um passeio pela zona da Expo, convite que ela aceitou. Rúben só regressou a casa à noite. Beatriz regressou à sua. Provado ficou, com recurso às mensagens de telemóvel, que Beatriz recusou o segundo convite do dia, para continuar na companhia de Rúben, dizendo-lhe que tinha um compromisso com outros amigos. Algo que o enfureceu, intimamente. Não é possível avaliar se o que sucedeu a seguir fosse de acordo com um plano já traçado ou um impulso irresistível, se é que eram coisas distintas. Se foi um impulso assassino, foi saciado com premeditação. O "monstro" dentro dele saiu de casa depois de jantar, no carro do pai.

O carro tinha Via Verde, mas Rúben não a usou. Parou na portagem, para que a sua passagem não ficasse registada. Dirigiu-se a casa de Beatriz, em Chelas. O facto da polícia, dias depois, não ter encontrado sinais de arrombamento, indiciava que a jovem o deixou entrar. Algo natural nela, que nesta circunstância se revelou fatal. Rúben usava um casaco. Por baixo deste tinha escondido um bastão, com o qual a agrediu repetidamente, até à morte. No relato confessional, Rúben Couto explicou aos agentes da PJ que permaneceu em casa de Beatriz perto de cinco horas, esperando pela hora apropriada para transportar o cadáver sem ser visto. 

O assassino limpou os vestígios do crime, deixando alguns elementos que pudessem induzir em erro a polícia, como os restos de comida e o telemóvel. O mistério residente jogaria a seu favor, julgou. Terá saído de casa de Beatriz perto das três da manhã, atirando a arma do crime e o corpo da vítima para o rio Tejo, mais distante do local onde este seria encontrado seis dias depois, arrastado pela corrente.

Quando saiu do internamento, após a tentativa de suicídio, Rúben teve ainda de cumprir isolamento profiláctico, antes de ser colocado em regime de prisão preventiva na Ala D, do Estabelecimento Prisional de Lisboa, onde aguardaria julgamento. Esse julgamento, já ele o tinha feito, interrompendo 'ad aeternum' o seu mestrado em Psicologia Social e das Organizações. Às 23 horas do dia 5 de Julho, Rúben Couto foi encontrado morto na sua cela. Usou as ligaduras que tinha nos pulsos para se enforcar, conforme atestam os relatórios sobre a sua morte.

Esta morte não trouxe qualquer tipo de bálsamo justicialista à mãe de Beatriz, que escreveu uma carta de condolências, endereçada aos pais de Rúben, reconhecendo neles a sua dor. Dizia assim: "Não é possível medir o sofrimento, mas uma morte é uma morte. Quando morre uma criança ou um jovem, é sempre uma perda para as famílias e para a sociedade". Já não era uma questão de culpa. Apenas dor, na sua morada profunda. A dor, na sua intransmissibilidade, é a mais velha transumância da Humanidade. 

Foi ela a primeira a achar que a morte da filha determinaria a sua, que ela seria aniquilada pelo desgosto, que a vida, em todos os seus elementos, se transformaria num insuportável mausoléu. Foi entre os despojos de quem era, que se redescobriu, descobrindo para elas uma nova existência. "A mulher que sou hoje, nasceu no dia em que ela morreu. É uma nova condição de vida. Não existe luto. Se o luto é lutar contra a perda, estamos vencidos. Ela está invisível, mas eu estou sempre a vivê-la. É com a música, é com os filmes, é estar aqui na academia, é quando estou com os amigos dela. O mundo dela era tão grande, que em qualquer sítio onde estou há sempre um bocadinho dela. Isso é maravilhoso. Não sei se é fácil encontrar isto. Eu tenho-o". 

Tinha-o lá dentro, sem ter como saber. Essa descoberta, não deixou que a tristeza profanasse a sua mente. Devolveu-lhe algo que parecia impossível: paz. Uma inusitada alegria, sem o grilhão transcendental da culpa. Um mecanismo de felicidade só dela, só delas. Tão forte, que tem de ser vivido. A Beatriz já não é apenas a sua filha. A Beatriz é toda a gente, de todos os credos, de todas as geografias, homens, mulheres, crianças, jovens, idosos, todas as humilhações, todas as perseguições, todas as castrações, a nódoa negra, a cicatriz, a ferida, a misoginia, a misandria, todos os silêncios, todos os preconceitos, todas as religiões, todas as declinações da violência, todas as suas vítimas, toda a Humanidade perdida numa luta desigual.

"Eu tenho esperança que a Beatriz esteja bem. Não sei se está, mas sabe-me bem pensar que está num paraíso qualquer. É uma loucura. O meu cepticismo diz-me que é uma loucura, mas eu permito-me ter essa loucura. Faz-me bem. Eu percebo que às vezes a minha atitude como mãe da Beatriz é um bocadinho desconcertante. Eu percebo que seja e tenho de aceitar, porque não é comum. Eu compreendo. Eu própria pensei que a morte de um filho fosse daquelas derrotas fatais. É uma derrota. Mas não foi fatal. Consigo transmitir felicidade e não me sentir feliz. Tristezas profundas tenho, mas não vivo na tristeza. Consigo. Como? Não sei. É natural. Sinto-me orgulhosa disso. De estar a conseguir viver a minha vida, de me rir sem culpa, de me divertir sem culpa, que ao princípio ainda tive um bocadinho, mas depois ultrapassei". 

A Beatriz morreu, mas a sua causa prolifera. "Isso diz muito do mundo em que vivemos. A vida dela foi muito importante, assim como a morte dela também é importante para nos ensinar. Teve uma morte tão absurda, tão visível, tão visual, tão espectacular, que ao menos sirva para reflectirmos e para mudarmos. A morte dela que sirva. É uma causa global. De direitos humanos". 

E de liberdade. Beatriz perdeu a sua por uma simples palavra: não.

(Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.)

O Contacto tem uma nova aplicação móvel de notícias. Descarregue aqui para Android e iOS. Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.


Notícias relacionadas

Aos 47 anos, tem lugar certo na música portuguesa. Aos cinco anos, na taberna da vizinhança, estreou-se nas modas alentejanas. Era o Tó Zé, neto da Joaquina, uma "Bailarina" a jogar à bola e um campeão na cantoria. Este sábado, a Philharmonie é de António Zambujo.
Este sábado António Zambujo sobe ao palco da Philharmonie no arranque do Festival Atlântico.