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Espancada porque filha se esqueceu do passe
Portugal 2 5 min. 21.01.2020

Espancada porque filha se esqueceu do passe

Espancada porque filha se esqueceu do passe

Foto: Bruno Amaral de Carvalho
Portugal 2 5 min. 21.01.2020

Espancada porque filha se esqueceu do passe

Bruno Amaral de Carvalho
Bruno Amaral de Carvalho
Cláudia Simões descreveu ao Contacto a noite de horror que viveu nas mãos da polícia, na Amadora, depois da filha de oito anos se ter esquecido do passe em casa.

Podia ser um domingo como qualquer outro. Victor Almada deu boleia à sua companheira, Cláudia Simões, à filha e ao sobrinho até ao Babilónia, na Amadora, e arrancou para o seu escritório no Cacém. Depois de levantarem o telemóvel encomendado numa das lojas do centro comercial, dirigiram-se para a paragem do outro lado da estrada. Um gesto da pequena Vitória de oito anos chegou para perceber que se havia esquecido do passe no outro casaco em casa. Quando entraram no autocarro 163, por volta das nove da noite, não sabiam que aquela viagem se ia transformar num pesadelo. 

Passe da pequena Vitória que ficou em casa

Já com o rosto desfigurado, sem conseguir abrir os olhos e com os lábios rebentados, Cláudia Simões conta a sua versão dos factos ao Contacto em casa num ambiente pesado de consternação. Ainda não passaram 24 horas do horror que começou na camioneta da Vimeca e chegam familiares revoltados. Nenhum consegue esconder a dor, espelhada nos lábios abertos da angolana de 42 anos, vítima de um espancamento que só se tornou público pela partilha nas redes sociais.  

Cláudia Simões dá a versão dos acontecimentos que viveu com um nó na garganta: “Nós entrámos no autocarro e quando a minha filha viu que não tinha o passe com ela, o motorista disse para sair. Eu respondi-lhe que ela tem o passe e que quando chegássemos ao nosso destino que o meu filho ia lá estar com o passe da menina”, relata. 


Não se nasce racista, torna-se racista
O infeliz caso do assassinato do jovem cabo-verdiano Giovani, em Bragança, do qual não se sabe ainda quem o matou e a totalidade das motivações dos criminosos, levantou uma onda de protesto em várias cidades de Portugal, Cabo Verde e da Europa.

Mais à frente, noutra paragem, entrou uma senhora brasileira de idade, descreve o sobrinho de Cláudia, de 32 anos, também com uma criança e o motorista disse “para saírem do autocarro”. A passageira alegou que a menina tinha quatro anos e que “as crianças com essa idade não pagavam bilhete”. De acordo com Gerson, o motorista explodiu com uma série de impropérios: “Vocês, pretos, macacos, ficam aqui a encher o nosso país. Estamos fartos de vocês. Vão embora para a vossa terra”. Alguns passageiros perguntaram, então, ao motorista se não tinha familiares no estrangeiro. “Era uma senhora de idade. O condutor começou a ofender toda a gente no autocarro e as pessoas revoltaram-se”.

Gerson, sobrinho de Cláudia Simões

Cláudia Simões alega que depois de entrar na viatura não se dirigiu mais ao motorista mas quando o autocarro parou no seu destino, no Bairro do Bosque, o condutor saiu disparado em direção a um polícia que estava ali perto. Tanto Cláudia como Gerson dizem que o agente saía da Taberna da Porcalhota e que não estaria de serviço. A Direção Nacional da PSP, depois de questionada pelo Contacto, emitiu um comunicado em que afirma que “o polícia se encontrava devidamente uniformizado a circular na via pública” e que Cláudia se “mostrou agressiva”. Gerson insiste que ficaram ali, parados, porque não tinham nada a esconder. “O meu primo, o filho da Cláudia, estava a descer com o passe mas o polícia não deixou ninguém explicar nada”. De acordo com Cláudia, exigiu-lhe a identificação e esta respondeu que não tinha feito nada de mal. “Vais para a esquadra comigo”, terá dito o agente antes de começar o inferno.

Os vídeos 360 não têm suporte aqui. Ver o vídeo na aplicação Youtube.

A PSP diz que este agente terá sido agredido por várias pessoas mas simultaneamente refere que conseguiu levar a detenção a cabo “utilizando a força estritamente necessária para o efeito face à sua resistência”. A versão de Cláudia e de Gerson é muito diferente. “Ele agarrou-me, fez um mata-leão e caiu comigo de costas”, denuncia a mulher. Tentou resistir enquanto sufocava e pediu ajuda ao sobrinho. “Ele vai-me matar”, recorda. Ao lado, ouvia a pequena Vitória: “Não mate a minha mãe, por favor”. Ainda segundo a versão de Cláudia Simões, o mesmo agente terá empurrado a criança e continuou a apertar o pescoço da mulher. Admite que mordeu a mão do polícia como diz o comunicado da PSP mas porque estava a sufocar e pensava que ia morrer.


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De seguida, chegaram vários carros-patrulha e algemaram-na arrastando-a para uma das viaturas. “Ninguém me ajudou”, lembra. “Quando me meteram no carro eu não queria aquele polícia comigo e eles garantiram-me que ele ia noutro carro mas mentiram-me. Ele entrou para o meu lado enquanto outros dois agentes iam à frente. Durante o caminho todo fui esmurrada enquanto estava algemada. Ele gritava 'filha da puta', 'preta do caralho' e 'cona da tua mãe' enquanto me dava socos. Eu estava cheia de sangue e gritava muito. Então, subiram o volume da música para não me ouvirem na rua”. 

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Até que um dos agentes que estava à frente na viatura terá dito que assim Cláudia ia morrer porque estava prestes a desmaiar. Terão levado a angolana para a esquadra da Boba, no Casal de S. Brás, mas não chegou a entrar. A polícia teve de chamar uma ambulância para conduzir Cláudia para o Hospital Amadora-Sintra. Ali, diz que também foi maltratada. A médica que a atendeu ter-se-á recusado a entregar-lhe o relatório do que observou alegando que isso era responsabilidade do tribunal. Perante o pedido desesperado de Cláudia para contactarem a família, porque estava “aterrorizada” e “achava que ia morrer”, a médica terá dito que “vocês é que arranjam problemas com os polícias” e que não tinha nada a ver com o assunto.

Quando teve alta, explica, que um agente lhe apresentou um papel para se apresentar em tribunal como arguida e que devia assinar. “Queria que eu assinasse um papel mas eu não conseguia ver. Via tudo fusco por causa dos olhos inflamados. Ainda tentou pegar na minha mão para eu assinar mas recusei: ‘não vou assinar uma coisa que eu não consigo ler”. Gerson está revoltado e ainda não acredita no que aconteceu. Diz que é um ato de violência racista. Cláudia Simões tem de se apresentar na quarta-feira de manhã no Tribunal da Amadora, em Alfragide. “Vou ser arguida amanhã com a cara neste estado. Como posso ser eu a arguida?”

Entretanto, a PSP confirma a existência de uma denúncia de Cláudia Simões contra o agente que procedeu à detenção e anunciou que "como consequência direta da formalização desta denúncia, já iniciou a instrução de um processo de averiguações para, a par do processo criminal, proceder à averiguação formal das circunstâncias da ocorrência e de todos os factos alegados pela cidadã".

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