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Escapadinha de fim-de-semana com a UEFA
Opinião Portugal 4 min. 02.06.2021

Escapadinha de fim-de-semana com a UEFA

Escapadinha de fim-de-semana com a UEFA

Foto: AFP
Opinião Portugal 4 min. 02.06.2021

Escapadinha de fim-de-semana com a UEFA

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
Portugal tem um problema grave de dependência do turismo. As cenas protagonizadas pelos adeptos britânicos não são nada que o Algarve não assista há décadas, ou em que Lisboa se transformou nos últimos anos.

O governo anunciou que os adeptos britânicos que encheram o Porto no fim-de-semana, para a final da Liga dos Campeões, viriam em bolha. Foram mais de 40 voos só no sábado entre o Reino Unido e o Porto. Esperavam-se 16500 adeptos no Dragão. Fora os que não tinham bilhete para o estádio e quiseram ir ao Porto celebrar na rua.

Há um problema na desproporcionalidade dos critérios da DGS sobre a presença de adeptos nos estádios em Portugal, ignorando o sacrifício que colectividades, associações, clubes, de várias modalidades, fizeram no último ano e meio sem adeptos, mesmo podendo garantir as medidas de segurança. O governo foi surdo a todos os argumentos, alegando sacrifícios contra a pandemia. Mas a UEFA decidiu que o Porto podia abrir os braços a um fim-de-semana com mais de 20 mil ingleses. O governo marimbou-se nos sacrifícios e disse "venham".

A bolha rebentou porque ninguém pode esperar que 20 mil ingleses ávidos de contacto físico, de festa, de calor, de cerveja barata e banhos de sol (também eles após ano e meio de enormes sacrifícios e milhares de mortes por covid-19) se mantenham ordeiros, com máscara, a 1,50m de distância, como se estivessem na Gulbenkian num concerto para piano de Rachmaninoff. Uma "bolha" de 20 mil ingleses são outros tantos no metro, nas ruas e esplanadas, aos banhos no Cubo da Ribeira, em contacto com trabalhadores dos cafés e restaurantes, hotéis, estádio, aeroporto e companhias aéreas. Não há bolha possível com 20 mil pessoas.

Esta é a compensação pelos trocos que a hotelaria e a restauração no Porto fizeram depois de o governo se vender por uma escapadinha de fim-de-semana com a UEFA.

Não se pode dizer que tenha sido uma surpresa: as cenas protagonizadas pelos adeptos britânicos não são nada que nunca tenhamos visto em finais de futebol. E muito menos nada a que o Algarve não assista há décadas, ou em que a Baixa ou o Cais do Sodré em Lisboa se transformaram nos últimos anos. Serem ingleses é irrelevante. O que se passa no Algarve, e temos assistido também em Lisboa ou no Porto, é fruto de um modelo económico do país dependente da fiesta loca do turismo: a degradação geral do espaço público, esvaziado de habitantes e de comércio local, cidades circo de consumo, vocacionadas para receber hordas de turistas, discotecas ao ar livre em grandes esplanadas, hotéis porta-sim-porta-sim, prédios inteiros convertidos em alojamento local para despedidas de solteiro, filas de bares e restaurantes com menus prato-combinado dependentes da(s) moeda(s) forte(s) da Europa.

O problema não está, como muito discurso classista repete, no "tipo de turismo" que Portugal recebe: não quer um inglês pé-de-chinelo mas prefere um sueco a consumir produtos de luxo made in Portugal. Este discurso ignora que a disparidade salarial entre um inglês e um português de classe média de Manchester e do Porto coloca frente a frente aquilo a que assistimos no fim-de-semana: sermos humilhados por 20 mil ingleses alcoolizados é o preço que pagamos por termos uma economia servil e praticamente dependente do turismo massificado. Como disse o presidente do Porto, Rui Moreira: "Queremos ou não ter turistas?"

O governo sabia o que esperar de uma "invasão" de 20 mil ingleses. O governo sabe que Portugal é um país economicamente submisso: um depósito de sol, cerveja barata e salários miseráveis. Que dá cobro a muitos patrões na restauração e hotelaria que acumularam dividendos nos anos gordos do turismo, mas continuam a queixar-se de que as pessoas "não querem trabalhar" para ganhar salários mínimos, com contratos precários e longuíssimas horas acima do permitido na lei. 

Esta é a compensação pelos trocos que a hotelaria e a restauração no Porto fizeram depois de o governo se vender por uma escapadinha de fim-de-semana com a UEFA. 

(Autora escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)

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