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"A extrema-direita violenta está num campo político que está a ganhar influência"
Portugal 3 11 min. 28.07.2021
Entrevista a Ricardo Cabral Fernandes

"A extrema-direita violenta está num campo político que está a ganhar influência"

Ricardo Cabral Fernandes, diretor do jornal Setenta e Quatro.
Entrevista a Ricardo Cabral Fernandes

"A extrema-direita violenta está num campo político que está a ganhar influência"

Ricardo Cabral Fernandes, diretor do jornal Setenta e Quatro.
Fotos: Diana Tinoco
Portugal 3 11 min. 28.07.2021
Entrevista a Ricardo Cabral Fernandes

"A extrema-direita violenta está num campo político que está a ganhar influência"

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
É o diretor do novo jornal online português, o Setenta e Quatro. É conhecido pelas suas investigações sobre a ligação dos grupos de extrema-direita portugueses com nazis ucranianos. Infiltrou-se durante três meses num dos mais conhecidos grupos violentos: Proud Boys.

 O que é o Setenta e Quatro?

É um jornal digital dedicado ao jornalismo de investigação. Mas não apenas isso, queremos aprofundar o debate no espaço público. Temos quatro colunistas residentes e também um espaço de ensaio, em que as pessoas que conhecem bem os assuntos possam escrever sobre eles de uma forma muito mais aprofundada, do que vemos nos jornais. Nós colocamo-nos no campo progressista. Estamos dispostos a colaborar e trabalhar com todas as pessoas e entidades que se revejam nos valores de Abril e que queiram fortalecer a democracia e recusem todo o género de discursos de ódio e discriminações.

Qual é a abrangência do grupo que lançou o Setenta e Quatro?

Começamos a trabalhar neste projecto de uma forma sigilosa durante um ano, mas sempre que íamos falar com pessoas, estas recebiam-nos de braços abertos e queriam ajudar. Acreditavam nos valores do projecto. As expectativas eram já grandes durante este processo. Após o dia da apresentação, as expectativas foram largamente superadas. Tivemos o incentivo de camaradas jornalistas, directores de jornais e revistas e de leitores: a expectativa inicial está bastante elevada. Temos também sentido as portas abertas para a colaboração com outros órgãos de comunicação social. A nossa postura não é de concorrência. Todas as pessoas que se revejam nos valores do Setenta e Quatro podem colaborar connosco e fortalecer o jornalismo de investigação e o campo progressista.

Não têm uma redacção demasiado reduzida para fazerem investigação, com quatro jornalistas isso é possível?

O jornalismo de investigação leva tempo. É preciso confirmar factos e falar com muitas pessoas. Nós aqui não vamos ser apressados pelo tempo e pelo imediatismo. Mas também não vamos demorar tempo excessivo para publicar uma coisa. Nascemos para marcar a agenda e informar. Vamos alimentar o site com artigos temáticos aprofundados, entrevistas, crónicas, reportagens e ensaios. O Setenta e Quatro, em conjunto com a associação Começar para Continuar, não quer apenas publicar conteúdos, quer fortalecer o jornalismo e o debate numa sociedade, em que a extrema-direita têm ganho palco, muitas vezes perante uma comunicação social acrítica e que normaliza esses discursos de ódio.

A investigação sobre a extrema-direita é um assunto fundamental no Setenta e Quatro?

É fundamental, apesar de não querermos ficar acantonados nessa temática. As desigualdades, alterações climáticas, pobreza, discriminações e corrupção são também assuntos muito relevantes para nós.

A extrema-direita violenta é algo de relevante em Portugal? A sua investigação inicial é sobre um grupo importante em termos internacionais (Proud Boys), mas o seu capítulo português tem, por enquanto, muito pouca gente.

Quando falamos de extrema-direita, temos que a dividir em violenta e não violenta. A primeira, está no parlamento e tem palco mediático todos os dias. E deve ser, também, investigada. Sobre a extrema-direita mais violenta, é verdade que são marginais. Mas também é facto que o RASI (Relatório Anual de Segurança Interna) tem vindo a alertar para uma crescente atividade desses grupos. Os Proud Boys Portugal é um grupo muito pequeno, numa rede internacional muito significativa (sobretudo nos Estados Unidos) com números de aderentes nesse país que vão de cinco mil a 35 mil membros, conforme se consulte diferentes fontes. O grupo português tem, por enquanto, pouca gente, mas não deve ser desvalorizado. Nasceu em 2019, mas rapidamente foi reconhecido pela rede internacional. Isto é muito significativo, porque muitas vezes surgem grupos com o nome dessas organizações, mas não são reconhecidos pela rede internacional. Uma das razões que decidimos avançar com a investigação e infiltração era para tentar perceber se eram uma ameaça. E pensamos que sim. Tinham um nível de integração na rede e de desenvolvimento avançado, só não cresceram mais devido à pandemia. Daqui a meia dúzia de meses seriam um problema considerável. Há cada vez mais jovens a ser recrutados. Nesses recrutas, os mais novos tinham 17 anos e o mais velho 34. Estavam a tentar abrir sub-filiais no Porto e em Castelo Branco. Este tipo de grupos quando começam a estruturar-se é a altura em que estão mais frágeis. Uma vez criada a noção de irmandade, qualquer ataque que venha do exterior contribui para unir ainda mais o grupo. A sua importância também deve ser vista de um ponto de vista político: a extrema-direita violenta é relativamente reduzida em número, mas insere-se num determinado campo político que está em crescimento e a ganhar influência.

Fez uma série de investigações para o Público sobre esse assunto e a primeira investigação do Setenta e Quatro é sobre essa matéria e exigiu uma infiltração sua num grupo violento durante três meses. Não acha que esses grupos mais violentos estão em recuo?

É verdade, mas isso é também devido por se ter aberto para esse sector uma outra perspectiva política: muitos deles entraram no Chega, como ficou provado pelas investigações do Miguel Carvalho. A normalização das ideias da extrema-direita abrem um caminho ao crescimento da sua influência até dos grupos mais violentos, que com o aumento dessa influência também podem vir a recrutar mais. Os Proud Boys nunca cresceriam tanto nos EUA se o Trump e o Partido Republicano não tivessem normalizado a sua atuação e adoptado muitas das suas ideias. Isso é uma das razões porque os Proud Boys podem vir a ser um problema em Portugal: a direita democrática e as suas bases estão a radicalizar-se, e isso abre um caminho para o recrutamento e crescimento da parte violenta. Para além disso, os Proud Boys são diferentes dos Hammerskins em várias coisas, uma delas é terem um discurso mais contido, o que pode permitir uma maior influência política.

Ao contrário dos Hammerskins, na iniciação não se promovem actos de violência contra terceiros como prova para a adesão.

Sim e os Proud Boys recrutam mais pelas ligações pessoais do que pelas ligações políticas. A ideia de criar uma irmandade, de se apoiarem e serem um grupo de irmãos. Nos tempos de hoje e ainda mais em época de pandemia, isso tem uma grande capacidade de atração para romper o isolamento social das pessoas.

A sua reportagem de infiltração de três meses é muito contida em termos da revelação de documentos e das identidades dos protagonistas. Não teme que essa opção possa diminuir o impacto do seu trabalho?

Foi uma decisão pessoal que demorou muito tempo a ser tomada. Por um lado, sou honesto, foi para evitar retaliações; por outro lado, acho que expô-los não iria dar mais valia de informação para o leitor. Achei que isso não acrescentava muito. E é preciso também perceber que quando uma pessoa está meses infiltrada e se dá com outras pessoas cria uma certa empatia. A minha decisão de não os expor em demasia é também para permitir que possam sair de cena.

Mas vão sair?

Pelo que conheço deles acho que foi um grande susto. Não os expor é dar-lhes uma porta de saída em vez de os radicalizar. Eu não os conhecia antes de entrar. O meu objectivo era denunciar a existência do grupo e como as coisas funcionam. Não era uma coisa pessoal.

Mas quando vê que ali existem militares e agentes da autoridade, isso não devia ser denunciado?

Devia. A questão aqui é que quando escrevo uma coisa eu tenho que ter provas. Não consegui, nos vários encontros que tive, ter a confirmação documental da identidade do elemento da PSP, embora saiba quem é. Foi o presidente dos Proud Boys portugueses que, em repetidas conversas, me falou de um recruta que é comissário da PSP acabado de formar. Não era bazófia, ele estava lá. Achei que para divulgar a identidade, eu precisava de cruzar mais informação e ter provas irrefutáveis.

Não acha que uma investigação sobre o Movimento Zero e as infiltrações da extrema-direita nos polícias e militares deveria ser feita?

Era muito importante. Mas não é uma infiltração com tempo limitado como a que eu fiz. Necessita de muito tempo e tem muitos problemas, desde os códigos de língua que existem nessas forças. Exige que, ao limite, alguém entre na polícia e no exército para depois se infiltrar nesses grupos de extrema-direita.

Vi, no lançamento do vosso jornal, Manuel Morais, o polícia que denunciou o racismo nas forças policiais.

Temos muito orgulho nisso. Ele tem sido o principal rosto no combate ao racismo e à violência policial dentro das forças de segurança. É uma pessoa que se insere nos valores do Setenta e Quatro.

Como é que foi possível a sua infiltração?

Como assim?

Foto: Diana Tinoco

 É um jornalista conhecido por investigar a extrema-direita. Provavelmente estás referenciado por eles, como conseguiu passar despercebido. Não foi um risco muito grande?

Durante várias semanas eles foram monitorizados no Telegram, para perceber as suas ligações. Depois, decidimos todos que a infiltração se justificava. Foi planeado um disfarce. Tivemos a ajuda de um caracterizador profissional. Mudou-me o visual todo. Seguiram-se contactos por meios electrónicos. Quando surgiu a hipótese de um primeiro contacto presencial, levei uma equipa de apoio. Não sabíamos quem estava do outro lado. Tirámos-lhes a pinta e fizemos uma análise da situação. Gravei sempre todos os encontros. Posteriormente, fui interrogado pelos seis membros da organização. A partir daí foram encontros semanais. Entrava no carro com eles, levavam-me para Massamá e Sintra. A forma de trabalho deles era criar uma relação pessoal, mais que recrutar politicamente. Sempre que eu tentava discutir política eles mudavam de assunto e contavam piadas. Eram piadas racistas, machistas, homofóbicas. Usavam um bullying constante entre eles como forma de preparação e afirmação. Quanto mais se fazia bullying mais se era elogiado, numa lógica de hipermasculinidade. Tudo era feito numa lógica de criar uma ligação pessoal entre os membros. As piadas tinham um papel político nesse processo. À medida que nos íamos encontrando mais vezes, esse tipo as piadas iam tornando-se mais agressivas. No último encontro que estive, já se falava em jogar à bola com a cabeça dos "pretos".

Foto: Diana Tinoco

Não testemunhou ou soube de ações violentas?

Não houve ainda mas o código de conduta e a mentalidade por detrás dos Proud Boys é de violência.

Mas eles afirmam que nunca partem para a violência, apenas reagem.

Eles criam situações de confronto, depois passam para a violência, dizendo que foi legítima em defesa. A violência interna, as lutas mano-a-mano, a situação de andarem em competições de estalada, a ideia de não deixarem um irmão numa luta , faz parte da lógica. O único facto que obstou que já tivessem praticado actos violentos, foi simplesmente por ainda não terem recrutado o suficiente. Eu perguntei ao presidente o que íamos fazer, se íamos para acções e manifestações. Ao que ele me respondeu para ter "calma", que primeiro iam crescer e recrutar mais gente e só depois agir.

No lançamento do Setenta e Quatro estava gente ligada ao PS e ao BE. A associação que detém o jornal tem dirigentes do BE, como vão conseguir manter a vossa independência editorial em relação a quem vos financiou inicialmente e aos membros da associação?

O projecto é global é dividido em duas áreas: uma equipa editorial e a associação. Sendo que esta última é responsável pelo financiamento. Mas a separação é bastante clara: os jornalistas tratam da parte editorial e a associação tem actividade própria. Nós temos contratos laborais que estabelecem o nosso papel. Obviamente que o jornalismo é feito de pressões, senão não era jornalismo. Mas nós até agora não sentimos nenhuma pressão e estamos completamente confortáveis com este modelo de funcionamento e com quem estamos a trabalhar.

O vosso modelo é também relativamente lento e aprofundado, não é o muito falado e sonhado “Observador de esquerda”. Mas como é que isso se articula com o facto de serem um site que está , como todos os sites, no "ar" 24 horas por dia. Como fazer jornalismo num ritmo lento com uma tecnologia que “pede” que as coisas sejam mudadas e actualizadas muito rapidamente?

Vamos ter uma rede de colaboradores a quem vamos encomendar as mais variadas matérias. Queremos marcar a agenda. Picar várias vezes o ponto da actualidade do que se passa. Conseguir ângulos diferentes e mais aprofundados que não caiam nos discursos dominantes que estamos fartos de ler. Mas o tempo de laboração das notícias e reportagens será sempre conforme as necessidades do trabalho em si.

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