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EDITORIAL: A guerra das sondagens

EDITORIAL: A guerra das sondagens

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Editorial Portugal 3 min. 16.05.2018

EDITORIAL: A guerra das sondagens

Sergio Ferreira Borges
Sergio Ferreira Borges
O caso Sócrates regressou às grandes linhas da informação com um objetivo que parece claro – atacar o PS e o Governo, ou, pelo menos, criar embaraços a António Costa.

Na tentativa de politizar o seu processo, José Sócrates disse que se pretendia julgar a sua governação. Mas não é verdade. A direita está a aproveitar os últimos factos conhecidos para atacar o PS e o atual Governo.

O objetivo da direita é melhorar nas sondagens, mas não o tem conseguido. Basta ver as mais recentes medições das intenções de voto para verificar que o PSD ainda está distante dos 30%. E, com um valor destes, só podia ganhar umas eleições se houvesse um cataclismo no PS.

Mas também é verdade que os socialistas perderam com esta campanha. Olhando para quatro sondagens, pode ver-se que o PS perdeu, em média, 0,5%. Mas este meio ponto percentual não transitou para o PSD. Pelo contrário, dividiu-se de formas diferentes pelo Bloco de Esquerda e pelo PCP.

Fenómeno idêntico se passou com o PSD que perdeu também 0,5% que se deslocaram diretamente para o CDS.

A um ano das eleições, isto parece indicar que nenhum dos grandes partidos consegue roubar votos ao outro. Pelo contrário, esta perda está a seguir diretamente para os extremos do espetro político.

Um dirigente do PSD dizia-me que Rui Rio é alheio a esta campanha prejudicial ao partido que sofre um desgaste idêntico àquele que tem provocado no PS. Por essa razão, ainda esta semana, Rio dará instruções, sobretudo ao grupo parlamentar e a alguns comentadores alinhados com o partido, para travarem a campanha negra contra José Sócrates e contra o PS. Prefere que as vozes do PSD se concentrem nos erros do atual governo, como sejam os cortes de financiamento do Serviço Nacional de Saúde ou o fracasso das políticas de prevenção dos incêndios.

Os apoiantes de Rui Rio também vão dizendo que este não era o momento certo para o PSD crescer nas intenções de voto. Argumentam que ainda estamos distantes das eleições e que, por tradição, o partido sobe sempre na reta final. Apontam, como exemplo, o que se passou nas últimas legislativas, com o PSD a melhorar imenso nas últimas oito semanas. Por essa razão, querem que o PSD comece a dar sinais de melhoria depois do verão.

Do outro lado, o PS espera que o congresso que se avizinha traga alguns ganhos, ou que, pelo menos, inverta a tendência de queda nas sondagens. O momento mais crítico, para o PS, será a negociação do Orçamento do Estado com os parceiros da convergência parlamentar que tem sustentado o Governo. E o congresso dos socialistas pode ajudar, se for inequívoco em relação à escolha dos seus parceiros. Isto é, se o PS disser claramente que pretende continuar aliado à esquerda e rejeitar, liminarmente, qualquer possibilidade de reedição do bloco central.

O ataque do PSD pode contribuir para que o congresso do PS rejeite uma futura aliança entre os dois partidos. Uma possibilidade que, em boa verdade, não interessa a Rui Rio. Ele não se fez eleger presidente do PSD para depois ser o número dois de Costa, num futuro governo. E, perdendo as eleições de 2019, ele sabe que o seu consulado acaba de imediato e sabe também quem vai disputar-lhe o lugar.

Falta saber que estratégias vão adotar os partidos dos extremos. O CDS, mesmo a capitalizar as perdas do PSD, ainda não passa dos 7%, um valor que não se compagina com as ambições da líder. Com um resultado deste tipo, também a sua liderança pode ser posta em causa.

O Bloco de Esquerda e o PCP, com sondagens que lhes atribuem, a cada um, valores da ordem dos 8%, também não devem estar muito satisfeitos. Querem mais e sabem que só podem crescer se forem buscar votos ao PS que tem mais de 40% e, portanto, anda perto dos 43, marca que, em teoria, pode dar uma maioria absoluta. Esta meta é muito difícil de alcançar e, no PS, parece haver consciência disso. Mas também ninguém quer perder mais votos para a esquerda.


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