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É a economia estúpida!

É a economia estúpida!

Editorial Portugal 3 min. 12.04.2019

É a economia estúpida!

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
"É a economia, estúpido!" foi um dos slogans de campanha de Bill Clinton, uma frase que continua a ser brandida como uma evidência, um limite natural à ação humana. Mas aplicar a economia a tudo é que é uma enorme estupidez.

A economia dominante tem os seus gurus e os seus dogmas – a produtividade, o crescimento. O que não tem é uma cura. Como um cancro metastizado, ocupou tudo com os seus raciocínios de merceeiro, a sua lógica de contabilista, a idolatria ao dinheiro.

Hoje, ficámos a saber que, segundo um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos, vai ser preciso trabalhar até aos 69 anos para "garantir a sustentabilidade" – desculpem o economês – do sistema de pensões português. Sobre a "sustentabilidade" dos próprios idosos, muitos dos quais começaram a trabalhar em crianças, nem uma palavra.

O estudo aponta que a população portuguesa deverá diminuir 23% nos próximos 50 anos. O país esvazia-se de jovens, a taxa de natalidade diminui, e a solução apresentada para este cataclismo demográfico é pôr os velhos a trabalhar (ainda) mais anos. Como, os autores do estudo não dizem: hoje em dia, os quadragenários vivem no terror de perder o emprego, porque, aos 40 anos, é-se considerado velho para o mercado de trabalho. Imagine-se um português de 60 e tal anos numa entrevista de emprego, e fácil é perceber que a proposta dos autores do estudo, tal como alguns velhos, não tem pernas para andar. 

Em 1729, Jonathan Swift, o autor de "As viagens de Gulliver", que não era economista nem parvo, apresentou "uma modesta proposta" para acabar com os pobres na Irlanda. O texto calculava com rigor de guarda-livros o custo para o país das crianças pobres, o peso médio das ditas no primeiro ano de vida e o valor de mercado se fossem vendidas como apetecível carne tenra. O panfleto satírico defendia, pois, que se comessem crianças pobres, livrando o país desse fardo e alimentando simultaneamente a nação.

Não sei se a proposta de Swift, adaptada ao caso português, é "viável" (ai, desculpem, que lá foi outro). Ao contrário das crianças, a carne dos velhos é dura, embora em regra magra, ao fim de tantos cortes nos seus rendimentos. Mas a panela de pressão faz milagres, e bem triturados, os velhos ainda podem dar um aceitável recheio de lasanhas congeladas, assim poupando os pobres cavalos, que, esses sim, podem ser usados como burros de carga até à morte. O potencial é vasto. Segundo o estudo, teremos 3,3 milhões de velhos em 2045. É muita lasanha.

A proposta, não muito nova nem muito original, teria ainda outras vantagens: faria descer os custos com a saúde e com os lares de terceira idade, e agradaria certamente aos turistas que adoram "Portchugal" e produtos vintage da Vida Portuguesa, incluindo livros da escola primária do tempo de Salazar, mas não estendem o gosto pelas velharias aos velhos-vivos, que não só não morrem como não há meio de desocuparem as casas no centro das cidades para dar lugar a mais Airbiénebis.

Há uma semana, uma reportagem da jornalista Miriam Alves, da SIC ("A Cidade e o Medo"), mostrava como há fundos de investimento e vistos gold a recorrer a ameaças e incêndios criminosos para desalojar idosos das apetecíveis casas no centro do Porto, dando conta de pelo menos um homicídio. Em resposta, a Câmara do Porto escudou-se nas habituais loas ao turismo e num estudo que encomendou sobre o impacto dos Airbiénebis. Um estudo, provavelmente económico. Perante casos de polícia, brande estudos e defende o "laissez-faire".

Ora, se os prédios dos bairros históricos forem vendidos com o recheio, sem ter de realojar os seus ocupantes, a maioria velhos e pobres, matam-se dois coelhos com uma cajadada só: combatem-se os fogos e aumenta-se o valor do imobiliário, vendendo os habitantes como carne para canelloni à moda do Porto. É pensar nisto, senhores economistas.


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