Escolha as suas informações

Dois escândalos, a mesma vergonha
Opinião Portugal 2 min. 05.10.2021
Banca portuguesa

Dois escândalos, a mesma vergonha

O vice-almirante Gouveia e Melo - que liderou a task force da vacinação em Portugal - está no centro de uma das polémicas recentes da política portuguesa.
Banca portuguesa

Dois escândalos, a mesma vergonha

O vice-almirante Gouveia e Melo - que liderou a task force da vacinação em Portugal - está no centro de uma das polémicas recentes da política portuguesa.
Foto: Lusa
Opinião Portugal 2 min. 05.10.2021
Banca portuguesa

Dois escândalos, a mesma vergonha

Sérgio FERREIRA BORGES
Sérgio FERREIRA BORGES
Um banqueiro em fuga, com 19 anos de prisão para cumprir e um ministro que desrespeitou o Presidente da República são os dois escândalos que nos fazem corar de vergonha.

Comecemos por João Rendeiro. Era o presidente do BPP, quando o banco faliu em 2008, com enorme estrondo e com milhares de investidores esbulhados das suas poupanças. Desde logo se percebeu que ali havia fraude e o grande suspeito era João Rendeiro. Os piores cenários confirmaram-se rapidamente, até porque, Rendeiro exibia uma fortuna, incompatível com as suas humildes origens. Era filho de um pequeno comerciante, dono de uma modesta loja de sapatos, em Campo de Ourique. Entre outros bens, Rendeiro já possuía uma mansão, em Cascais, avaliada em mais de cinco milhões de euros.

A sua arrogância não tem limites e, mesmo depois de ter sido constituído arguido, exibiu para as televisões a sua majestosa casa. Este e outros traços do seu desprezível carácter foram também detectados pelas magistradas que o julgaram. A juíza Tânia Gomes percebeu também que ele pretendia "nitidamente furtar-se ao crivo perscrutador da justiça", como escreveu em despacho, datado de Maio deste ano.

Apesar de tudo isto, não foram tomadas as medidas e cautelas necessárias, para impedir o que agora aconteceu. A dois dias de dar entrada na cadeia, Rendeiro fez chegar a notícia de que não pretendia regressar a Portugal, para acertar contas com a justiça.

É mais um caso que devia cobrir de vergonha o sistema judicial. Mas, segundo parece, não. Em vez da assunção de responsabilidades que se impunha, vimos uma reacção corporativa das associações sindicais da magistratura e do Ministério Público, tentando defender os seus pares e justificando um acto de negligência imperdoável.

Horas depois de conhecida a fuga de Rendeiro, o país ficou a saber que o ministro da Defesa, João Gomes Cravinho, queria premiar o vice-almirante Gouveia e Melo, pelo seu brilhante desempenho, na liderança da task force que vacinou Portugal, de lés a lés.

Pretendia demitir o actual Chefe de Estado-Maior da Armada, o almirante Mendes Calado, fazendo-o substituir por Gouveia e Melo. Mas o jovem Cravinho esqueceu-se que, para isso, precisava do acordo do Presidente da República, que é também o Chefe Supremo dos Forças Armadas.

Marcelo não gostou do comportamento do ministro e desautorizou-o, travando a substituição dos comandos. Se Cravinho tivesse a vergonha que o país sente, demitia-se. Mas até ao momento não deu sinais disso.

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)


Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.