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Diplomata sem diplomacia!
Opinião Portugal 2 min. 01.10.2020

Diplomata sem diplomacia!

Diplomata sem diplomacia!

Foto: dpa Picture-Alliance/AFP
Opinião Portugal 2 min. 01.10.2020

Diplomata sem diplomacia!

Sérgio FERREIRA BORGES
Sérgio FERREIRA BORGES
O embaixador dos Estados Unidos em Lisboa foi longe de mais nos seus recados às autoridades de Lisboa. Mas temos de convir que o ministro dos Negócios Estrangeiros e o próprio Presidente da República também se excederam nas reprimendas que deram ao diplomata.

O embaixador, George Glass, numa entrevista ao semanário Expresso, recuperou um tema antigo para avisar as autoridades portuguesas, em tom nada diplomático, sobretudo porque o aviso foi feito publicamente. Trata-se do leilão da tecnologia 5G, do qual, os Estados Unidos querem excluir a empresa chinesa Huawei, há muito tempo declarada inimiga dos americanos, porque, no seu entender é capaz das mais inconcebíveis ações de espionagem.

George Glass, amigo pessoal de Donald Trump, com pouca experiência da vida diplomática, foi mais longe e ameaçou que, se Portugal cedesse aos chineses, havia muitos outros aspetos para retaliar, desde o sistema de comunicações da defesa, até à exploração do terminal de Sines. E fê-lo sempre com voz grossa, juntando à sua própria ameaça o facto de esta semana, passar por Lisboa, o subsecretário da Economia, Keith Krach. Glass devia saber que, em diplomacia, o mais importante é o que se diz em privado e não o que se fala em público.

Perante tamanho desaforo, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, decidiu vir a público para repreender o desbocado diplomata. E disse-lhe que, em Portugal, quem toma decisões tão importantes são as autoridades portuguesas. Horas depois e num tom semelhante, foi o Presidente da República que tentou pôr na ordem o senhor George Glass.

Glass devia saber que, em diplomacia, o mais importante é o que se diz em privado e não o que se fala em público.

Em meu entender, houve aqui exageros vários. O do embaixador é por demais manifesto. Mas tanto Santos Silva, como Marcelo Rebelo de Sousa não deviam ter ido tão longe. Teria sido mais aconselhado usar outros meios de reprimenda diplomática, para chamar a atenção do esforçado diplomata. Por exemplo, entregar-lhe uma "nota verbal", ou chamá-lo ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, para uma conversa com o Diretor-Geral de Política Externa que lhe diria a mesma coisa. Em qualquer uma destas circunstâncias, o embaixador ter-se-ia sentido um pouco mais reduzido e a ação teria outro efeito.

A diplomacia norte-americana passa por momentos difíceis. Ontem e hoje, o secretário de Estado, Mike Pompeo esteve em Roma, mas o Papa Francisco recusou recebê-lo, para não interferir no processo eleitoral norte-americano marcado para 3 de novembro. E, teimosamente, Pompeo levava na agenda como tema principal as relações entre o Vaticano e a China. Parece ser uma fixação.

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