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Desprezar as pessoas

Desprezar as pessoas

Foto: Pierre Matgé
Editorial Portugal 2 min. 28.07.2018

Desprezar as pessoas

Paulo Jorge PEREIRA
Paulo Jorge PEREIRA
A forma como está a ser conduzido o processo de encerramento dos balcões da Caixa Geral de Depósitos é uma demonstração de desprezo pelos cidadãos.

De súbito, perto de um fim de semana no final do mês de julho que assinala o mais forte período de férias dos lusófonos que vivem no Luxemburgo, os sindicatos tornaram pública uma situação que, até aqui, ninguém tivera a coragem ou a lucidez de revelar: os balcões da Caixa Geral de Depósitos (CGD) no Grão-Ducado vão fechar. 

Uma vez que os cidadãos não podem todos, de uma vez só, interpelar os responsáveis pela decisão, os jornalistas exerceram o seu papel, colocaram questões e, como porta-vozes de quem precisa de saber mais, quiseram esclarecimentos para transmitir a todos. A reação até aqui, do lado da Caixa como do lado do Governo, oscilou entre a sobranceria e o jogo do empurra. 

As primeiras reações da parte da CGD vieram através de comunicados, o modo moderno de não dar a cara, de esconder incómodos e de buscar proteção atrás de parágrafos impessoais. Como se não fossem legítimas as dúvidas ou premente a necessidade de prestar contas aos clientes que ficaram sem saber como será o futuro e aos funcionários, cujos postos de trabalho vão deixar de existir (os tecnocratas preferem, por certo, a expressão "ser descontinuados"). Só no meio da apresentação de contas da Caixa houve respostas personalizadas da parte de Paulo Macedo, presidente da entidade, ex-ministro da Saúde de Passos Coelho e antigo diretor-geral dos Impostos. Da parte do Governo, como se a CGD não fosse um banco estatal, veio o silêncio e o afastamento de qualquer responsabilidade quando se sabe que os cortes são parte do plano de recapitalização da instituição negociado com Bruxelas e confirmado em agosto de 2016.

No meio de tudo isto estão, como sempre, os cidadãos, aqueles para quem o Estado tem obrigações, mas a quem normalmente presta mais atenção quando se trata do ato de votar. Aí sim, cada cidadão conta e não se poupam esforços para agradar, exibir sorrisos e dar palmadinhas nas costas. 

Certo é que a forma como está a ser conduzido o processo de encerramento dos balcões da Caixa Geral de Depósitos é uma demonstração de desprezo pelos cidadãos e esse não é o melhor caminho. Se o encerramento já estava decidido, por que razão não foram informados antes os clientes e os funcionários? Se os sindicatos não denunciassem o processo, quando é que haveria informação pública sobre o assunto? É assim tão complicado tomar uma decisão e assumi-la perante os cidadãos, informando com lucidez e calma para que cada qual possa tomar a decisão que considere mais adequada?

A nós, jornalistas, continua a caber o papel de perguntar para esclarecer e procuramos cumpri-lo, conhecendo o nosso lugar. Oxalá pudéssemos dizer que os responsáveis por todo este processo sabem qual é o seu papel e as exigências dos lugares que ocupam. 

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