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Crise em Portugal. Quando o coronavírus se junta à vontade dos patrões
Portugal 7 min. 22.04.2020 Do nosso arquivo online

Crise em Portugal. Quando o coronavírus se junta à vontade dos patrões

Trabalhadora de uma empresa têxtil produz máscaras descartáveis, em Barcelos.

Crise em Portugal. Quando o coronavírus se junta à vontade dos patrões

Trabalhadora de uma empresa têxtil produz máscaras descartáveis, em Barcelos.
Foto: LUSA
Portugal 7 min. 22.04.2020 Do nosso arquivo online

Crise em Portugal. Quando o coronavírus se junta à vontade dos patrões

Bruno Amaral de Carvalho
Bruno Amaral de Carvalho
Com quase um milhão de trabalhadores em layoff e mais 53 mil desempregados em março, Portugal enfrenta agora uma nova crise social. Há empresas que despedem empregados ao mesmo tempo que recorrem ao Estado e os apoios existentes não servem muitos destes trabalhadores.

Uma longa costa cheia de praias, bom tempo, uma rica gastronomia, baixos preços e um país cheio de história são alguns dos ingredientes que fizeram de Portugal um dos destinos mais apetecíveis nos últimos anos. Depois da crise financeira que levou à intervenção da troika no país, o turismo serviu de alavanca para a economia portuguesa que no ano passado voltou a bater o recorde no número de turistas. Quase 27 milhões de pessoas chegaram ao país.

Em 2019, as unidades de alojamento no país receberam 26,9 milhões de hóspedes, mais 7,3% do que em 2018. O alojamento local, com mais de dez camas, cresceu quase 17% no ano passado, tendo recebido 4,5 milhões de pessoas. Mais de um mês e meio depois do anúncio do primeiro caso do novo coronavírus, o setor está praticamente parado e o primeiro-ministro, António Costa, pede aos portugueses para que façam férias dentro do país.

De acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE), a possível redução de 25% nas despesas de turismo em Portugal este ano, conduziria a uma quebra de 2,9% do PIB. Os números do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) apontam para 53 mil desempregados só durante o mês de março. Uma verdadeira avalanche desencadeada pela pandemia do novo coronavírus.

  “Corria tudo lindamente. Fazia o meu trabalho em casas privadas, em alojamento local e num hostel”  

Com uma economia dependente da atividade turística, uma fatia importante destes novos desempregados, a que se juntam outros milhares em layoff, trabalhava no setor do turismo. É o caso de Patrícia Santos que, como muitas imigrantes brasileiras, trocou o seu país por Portugal em busca de uma vida melhor. Proveniente de Belo Horizonte, em Minas Gerais, esta mulher de 51 anos trabalha há cerca de 15 nas limpezas. “Corria tudo lindamente. Fazia o meu trabalho em casas privadas, em alojamento local e num hostel”, descreve ao Contacto. “Normalmente, a partir de maio temos muito trabalho”, explica.

Mas a poucos dias de começar o mês de maio, encara o futuro com muita apreensão. Há quase dois meses que não tem trabalho e que os seus clientes não a chamam. Patrícia Santos que vive sozinha em Lisboa, com a restante família no Brasil e uma filha em Inglaterra, tentou aceder às ajudas do Estado mas não conseguiu porque “não cumpria os requisitos”. O apoio extraordinário aos trabalhadores independentes já abrange, neste momento, 145 mil pessoas.

“Eu trabalhava frequentemente três vezes por semana em casa destas pessoas. Limpava-lhes a casa e, naturalmente, criavam-se laços emocionais porque muitas das famílias também têm crianças”, explica Patrícia. Agora, não tem qualquer rede de segurança e vive na corda bamba. Diz que sente que só importa para estas pessoas “até sair de casa delas”. Só uma família decidiu pagar-lhe antecipadamente, como um balão de oxigénio. “Mais ninguém me perguntou se estou bem, se tenho comida, se tenho dinheiro”.

Layoff reduz salários a quase um milhão

Outro dos efeitos imediatos da paralisação da economia, para além do desemprego, foi o recurso das empresas ao layoff, regime que permite às empresas reduzir o horário normal dos trabalhadores, ou suspender o contrato de trabalho, por um período de tempo definido. Neste momento, são já mais de 82 mil as empresas que recorreram ao layoff, de acordo com o Gabinete de Estratégia e Planeamento do Ministério português do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social. Em 15 de abril, estavam 931 mil trabalhadores nesta situação. Ou seja, a receber apenas dois terços da sua remuneração normal ilíquida, sendo o valor financiado em 70% pela Segurança Social nos casos de suspensão do contrato.

É o caso de Rita Coelho, que exerce as funções de copywriter e content manager, há vários anos numa empresa cujo nome prefere não revelar. “Faço todo o desenvolvimento de conteúdos escritos dos vários hotéis do grupo: textos para website, brochuras comerciais, materiais in-place, anúncios, copys de campanhas e ainda o desenvolvimento da linguagem que cada hotel assume e sou também a gestora de social media, para além de ser a responsável pela revista anual da empresa e newsletter interna”.

  “A empresa abre falência, o que significa que os trabalhadores de quase 20 hotéis e uma dezena de campos de golfe perderiam o seu emprego”.  

Em layoff, há cerca de um mês, Rita Coelho viu o seu salário reduzido, ainda que até ao momento consiga pagar as suas despesas mensais, e revela que 95% dos trabalhadores da empresa estão no mesmo regime e lança um alerta. Se não houver atividade durante o verão, “a empresa abre falência, o que significa que os trabalhadores de quase 20 hotéis e uma dezena de campos de golfe perderiam o seu emprego”.

José Vicente é outra das vítimas do layoff. Trabalha na Viagens Corte Inglês e denuncia ao Contacto que num primeiro momento a empresa tentou impôr férias durante o período de isolamento e sugeriu também licenças sem vencimento como solução inicial. Quando o governo anunciou medidas de apoio às empresas, o agente de viagens e outros 150 trabalhadores entraram em layoff. José Vicente considera que esta pandemia abriu caminho a “atropelos” e beneficiou uma “agenda de desvalorização dos salários”.

Com maio à porta, este trabalhador do setor das viagens considera que não estão reunidas as condições para o regresso à atividade. “Não há transportes suficientes e os que há estão sobrelotados. A minha empresa não está preparada para garantir a segurança e a distância social entre trabalhadores”, considera. Vai mais longe e antecipa que dificilmente vai haver verão este ano. “Não há confiança e as quebras no setor das viagens e do alojamento vão continuar até haver uma vacina”.

Cada vez menos gente com dinheiro para o take away 

Mas se a retração da atividade económica a par das medidas de confinamento deixou milhares de portugueses em casa, para outros isso significou mais trabalho. Chegado há meio ano a Lisboa, o imigrante brasileiro Telberty Taliuli confessa ao Contacto que as coisas não têm corrido mal. Com 24 anos, escolheu o caminho da imigração à procura de uma vida melhor em alternativa à situação instável no seu país. “A situação social está muito difícil e o Governo de Bolsonaro foi um dos motivos para vir para Portugal”, afirma. Formado em direito, é agora estafeta das plataformas Uber Eats e Glovo. Atualmente, consegue ganhar entre 1200 e 1400 por mês, a recibos verdes, com poucas folgas e trabalhando cerca de 12 horas por dia.

“No começo da pandemia, não havia ninguém nas ruas. Eram poucos os estabelecimentos abertos e alguns estafetas começaram a ficar apreensivos. Ainda assim, no começo tínhamos muito trabalho”, descreve. O facto é que o desemprego e o recurso ao layoff levou muitos trabalhadores a tentarem a sorte nesta atividade. Telberty Taliuli conhece barbeiros e empregados de mesa que passaram a trabalhar para estas plataformas.

   “As pessoas estão a ficar sem dinheiro e os pedidos começaram a entrar em declínio”.  

Agora, que há cada vez mais estabelecimentos abertos e muitos restaurantes passaram a aderir ao take away, o jovem estafeta aponta um novo problema. “As pessoas estão a ficar sem dinheiro e os pedidos começaram a entrar em declínio”.

Entre os pedidos que mais cresceram desde que começou a crise do novo coronavírus, estão compras nos supermercados, nas farmácias e em comércios que começaram a registar-se na plataforma Glovo. Telberty que atravessa todos os dias as ruas de Lisboa com uma bicicleta elétrica considera que há cada vez mais gente fora de casa, há mais tráfego e lojas abertas. “As autoridades fizeram bem em prorrogar o estado de emergência mais 15 dias. Os números alarmantes do começo estão a cair”.

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