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Covid-19. Santa Casa de Misericórdia de Resende já conta 23 infetados
Portugal 5 min. 25.03.2020

Covid-19. Santa Casa de Misericórdia de Resende já conta 23 infetados

Covid-19. Santa Casa de Misericórdia de Resende já conta 23 infetados

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Portugal 5 min. 25.03.2020

Covid-19. Santa Casa de Misericórdia de Resende já conta 23 infetados

Ana B. Carvalho
Ana B. Carvalho
Instituição diz-se "abandonada" pela Direção Geral de Saúde e enfrenta uma situação de urgência com falta de recursos humanos e materiais. Uma senhora de 94 anos já morreu.

A voz está calma, mas não esconde preocupação. Jaime Alves, provedor da Santa Casa de Misericórdia de Resende, já conta 23 infetados, onze dos quais faziam parte de uma única unidade da instituição e enfrenta uma "situação de urgência" tanto a nível de recursos, quanto a nível de "pessoal de enfermagem".  A instituição sente-se "abandonada" pelas entidades responsáveis pela saúde em Portugal, "desde a Direção Geral de Saúde, ao próprio Ministério da Saúde ou até a Administração Regional de Saúde do Norte", suspira em chamada telefónica. 

Esta terça-feira, dia 24 de março, o Presidente da Câmara Municipal de Resende, Garcez Trindade, decidiu declarar a situação de alerta de âmbito municipal.

Ao Contacto, Jaime Alves conta ter contrariado as orientações da Direção Geral de Saúde que “só queria fazer testes a sete dos treze utentes da Unidade dos Cuidados Continuados” e, apenas depois de "muita insistência" é que se concretizaram os  testes a todos os utentes da unidade, localizada “num andar intermédio entre o Hospital e um Lar de Acamados”.  

Entre esta segunda-feira, dia 23 de março e esta quarta-feira, a Santa Casa de Misericórdia de Resende decidiu testar a todos os utentes e colaboradores "contra as indicações da DGS", através de 150 a 200 testes de diagnóstico de Covid-19, graças a uma parceria com um laboratório de análises clínicas e pagos pela própria instituição.  “Vamos ter de pagar os nossos próprios testes, com a ajuda da comunidade, do município, de donativos e beneméritos. Não podemos é correr o risco de ficar completamente isolados, com uma total inércia a olhar para tudo isto”.  

Jaime Alves, “bem como toda a mesa administrativa”, desde o início, considerou essencial que “todos fossem testados”  para controlo da situação de contágio. Durante a tarde desta terça-feira, existiam 10 casos confirmados, no entanto, por volta das 21 horas o Município de Resende atualizou os números, num comunidcado publicado no Facebook, anunciando "mais 12 casos de Covid-19 na Santa Casa da Misericordia de Resende". 

Desde domingo, dia 22 de março, “depois da primeira confirmação de Covid-19,  de uma senhora de 94 anos, que entretanto faleceu, todos os colaboradores que estiveram em contacto com ela e com o hospital ficaram de quarentena”. Outros colegas da casa substituíram-nos, mas Jaime Alves está preocupado porque estão todos “esgotados”, não têm materiais de protecção suficientes e as únicas ajudas recebidas foram as que vieram do município e sociedade civil.

Tanto o município, quanto a própria  Santa Casa da Misericórdia de Resende pediram, esta segunda-feira, aos enfermeiros disponíveis que se voluntariem para trabalhar nesta instituição.

Ricardo Joaquim, um dos enfermeiros em funções nesta unidade, partilhou um vídeo nas redes sociais em que descreve como tem sido enfrentar a luta contra o Covid-19. “Eu encontro-me em funções com um outro colega enfermeiro que está a caminho de 24 horas de trabalho, sem praticamente descanso nenhum, neste momento a atingir o limite das suas capacidades físicas e essencialmente mentais”. 

Equipado de branco, com apenas a área dos olhos visível, descreve que começou o seu turno às oito da manhã do dia em que filmou o vídeo, período de trabalho que se estenderia  até às oito da manhã do dia seguinte. “Coloca-nos sob o risco de erro, cada vez mais a cada dia que passa. Não somos robots e como devem imaginar vai chegar a um ponto que não vamos ser capazes de prestar os devidos cuidados e sermos totalmente competentes”. Ricardo apela à ajuda exterior, uma vez que são apenas três enfermeiros em funções "não estamos a conseguir dar resposta, são demasiadas horas, demasiado trabalho, estamos numa fase de rutura". 

Segundo Jaime Alves, a sua equipa “está sem arredar pé da instituição. Eles a partir de hoje já vão ficar a descansar aqui. Mas tem sido muito complicado. Temos conseguido dar resposta mas com limitações muito grandes. Estamos sem ajuda praticamente de ninguém. Só o município é que nos cedeu alguns equipamentos”, lamenta enquanto explica que os recursos definidos no nosso Plano de Contingência estão a ficar esgotados. 

Jaime Alves elogiou o trabalho de todos os envolvidos, incluindo os delegados de saúde regionais, mas diz que os próprios não têm condições de ajudar mais.

Neste momento, além dos recursos materiais, é a falta de mão de obra que torna a situação ainda mais delicada. "A área de enfermagem é a mais urgente em termos de pessoal", mas até agora não tiveram resposta de nenhuma das entidades de saúde. “Nem da União das Misericórdias. Há contacto, as pessoas são simpaticíssimas, corre tudo muito bem, são muito tolerantes, ajudam, colaboram. O que é certo, é que até ao momento ainda não recebemos uma única máscara P2, para salvaguardar o bem-estar dos nossos trabalhadores que é absolutamente essencial para cuidarmos dos utentes. Sem trabalhadores, é impossível manter aqui a prestação de bons cuidados”.

Não foi possível, até agora, identificar de onde surgiu o primeiro foco de contágio, e Jaime Alves acha “que a esta altura já não vai ser possível identificar”. O primeiro caso identificado tratava-se de uma senhora de 94 anos que estava na instituição desde agosto, “veio de outra Unidade de Cuidados Continuados, de Sernancelhe, mas o que é facto é que contraiu o vírus dentro da nossa Unidade de Serviços Continuados”. 

Jaime Alves demonstrou-se preocupado com o comportamento de "alguns cidadãos continuam a fazer a sua vida normal, como se nada se passasse. As pessoas têm de ficar em casa, resguardadas".

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