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Covid-19. Porque escapa Portugal ao destino de Espanha?
Portugal 5 min. 16.04.2020 Do nosso arquivo online

Covid-19. Porque escapa Portugal ao destino de Espanha?

Covid-19. Porque escapa Portugal ao destino de Espanha?

Foto: AFP
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Covid-19. Porque escapa Portugal ao destino de Espanha?

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Com menos casos reportados de covid-19 do que o seu vizinho, Portugal fechou a tempo de evitar a hecatombe do país vizinho, apesar de um serviço de saúde enfraquecido por anos de austeridade.

Os resultados da evolução do combate à pandemia de covid-19, em Portugal, parecem continuar a surpreender a imprensa estrangeira, sobretudo quando comparados com os dos outros países do sul da Europa, mais propriamente da vizinha Espanha. 

Agora foi a vez da Agência France Press (AFP) procurar as possíveis razões para essa diferença, no território daqueles a quem o jornal espanhol 'El País' chamou recentemente de "suecos do sul", numa tentativa de análise semelhante, ainda que a opção escolhida pela Suécia para lidar com a pandemia seja quase oposta à de Portugal.

Com menos casos reportados de covid-19 do que a Espanha, Portugal fechou-se a tempo de evitar a hecatombe do país vizinho, apesar de um serviço de saúde enfraquecido por anos de austeridade, lembra a reportagem da AFP.

"O tempo decorrido entre os primeiros casos em Espanha e Portugal permitiu-nos mitigar muito mais eficazmente a propagação do surto", afirmou à agência francesa João Ribeiro, director do departamento de cuidados intensivos do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, o maior do país. 

Também a ministra da Saúde, Marta Temido, disse esta semana, em conferência de imprensa, que o governo está a ver "resultados encorajadores" na forma como tem gerido a pandemia, mas mantém a prudência. "Não queremos perder esses ganhos", ressalvou.


Portugal ultrapassa a barreira dos 600 mortos mas número de óbitos diários desce
País registou mais 30 vítimas mortais nas últimas 24 horas, menos dois óbitos que a evolução registada no dia anterior. Houve mais de 100 casos recuperados no espaço de um dia.

Esta quarta-feira, 15 de abril, o número de mortos da epidemia do coronavírus, em Portugal, foi 599, mais ou menos o mesmo que o número de mortos diários na vizinha Espanha, o segundo país mais afectado da Europa, com 18.500 vítimas no total. Um valor superior ao número de casos infetados, oficialmente comunicados em Portugal, que atingiu os 18.091 nesse dia. Ou seja, dez vezes menos do que na vizinha Espanha, quase cinco vezes mais populosa. 

Apesar de Portugal se encontrar entre os países europeus com o menor rácio de camas em unidades de cuidados intensivos por habitante, o número de doentes com covid-19 em estado crítico começou a diminuir antes de se atingir o limite da sua capacidade, sendo cerca de 200 num total de 1.200 pessoas hospitalizadas. 

Portugal sob estado de emergência 

No Hospital de Santa Maria, em Lisboa, "a situação continua sob controlo e as nossas capacidades são suficientes", diz João Ribeiro. 

Desde o início da pandemia, o seu hospital, o Santa Maria, duplicou as cerca de 30 camas de cuidados intensivos e poderá, se necessário, expandir para as 120. Mas o médico é peremtório: "se tivéssemos tido uma avalanche de casos como os que vimos noutros locais, o país não teria tido meios para responder".

Portugal detectou o seu primeiro caso no início de março, mais de um mês depois de Espanha. E a primeira morte ocorreu duas semanas mais tarde, quando o país vizinho já contabilizava 200. 

O governo socialista, liderado por António Costa, também se antecipou às recomendações dos peritos em epidemiologia nacionais, e decidiu, ainda antes de ser declarado o estado de emergência, a 18 de março, encerrar as escolas e fechar a fronteira com Espanha. 

Sem estas medidas, disse, esta quarta-feira, o primeiro-ministro, "o serviço nacional de saúde ter-se-ia desmoronado, teríamos tido muito mais pessoas infectadas e muito mais mortes". 

E é na saúde que se jogam todas as prioridades, acrescentou o governante, numa altura em que Portugal começa a avaliar um certo regresso à normalidade e a ponderar a reabertura de algumas atividades económicas. É preciso ponderar tudo, avisa António Costa, apesar das consequências dramáticas para a economia portuguesa, fortemente alicerçada no setor do turismo, que de momento não existe.

Apesar do surto global de coronavírus não ter deixado praticamente nenhuma área económica intocada, as viagens e o turismo foram particularmente afectados, uma vez que os países instituíram proibições às deslocações não essenciais e a obrigação de quarentena. 

O estado de alerta antes do estado de emergência

Portugal tinha detetado 78 casos confirmados até à data, de acordo com os números oficiais divulgados em 12 de Março, dia em que o governo decidiu o encerramento de todos os estabelecimentos de ensino.

Uma medida que muitos especialistas consideram ter sido determinante na forma como a pandemia evoluiu em Portugal.

"A decisão de encerrar as escolas fez uma grande diferença em relação aos casos de Espanha ou Itália", considera o presidente do Sindicato Independente dos Médicos, Jorge Roque da Cunha. 

O impacto dos anos de austeridade no SNS

Apesar disso, ainda é cedo para se cantar vitória e o discurso aposta na prudência, com conhecimento de causa dos anos de austeridade que ainda estão próximos. O dirigente, que é médico de clínica geral na região de Lisboa, continua preocupado porque o sistema de saúde pública já estava "no fim da corda" devido a "dez anos de subfinanciamento" desde a última crise financeira. O resultado: "encerramento dos serviços de emergência", "700.000 utentes sem médico de família" ou pacientes que têm de esperar "até dois anos" por uma cirurgia. 

 Atingido duramente em 2011 pela crise da dívida da Zona Euro, e sob intervenção da troika atá 2014, Portugal teve de limpar as suas contas públicas, em detrimento da qualidade dos seus serviços públicos. Por isso, Roque da Cunha assume uma postura realista e moderada. "É essencial fazer passar a mensagem à população de que estamos muito longe de controlar a situação".

Outra das razões apontadas para o relativo sucesso português no combate à pandemia é o largo apoio político que o governo de António Costa tem tido às medidas anunciadas para combater a covid-19 no país.

Ao contrário do seu colega espanhol Pedro Sanchez, Costa pôde até agora contar com o apoio do líder da oposição de direita Rui Rio, que apelou aos seus apoiantes para não criticarem o governo em nome do "patriotismo" em tempos de crise. 

Os líderes portugueses confirmaram esta quarta-feira, 15 de abril, que o estado de emergência e as medidas de contenção se manterão em vigor até ao final de abril, para permitir uma "transição gradual" para uma recuperação social e económica a partir do mês de maio. 


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