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Covid-19. “A descontração provocou o pico da epidemia em Portugal"
Portugal 5 min. 26.06.2020

Covid-19. “A descontração provocou o pico da epidemia em Portugal"

Covid-19. “A descontração provocou o pico da epidemia em Portugal"

AFP
Portugal 5 min. 26.06.2020

Covid-19. “A descontração provocou o pico da epidemia em Portugal"

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
Jorge Atouguia, infeciologista português explica ao Contacto que Portugal não está a viver uma segunda vaga e que a curva das infeções continua a descer. Como este país deixou escapar o "milagre" e se tornou num dos piores exemplos da Europa.

Do “milagre europeu” Portugal passou a ser agora o País com maior índice transmissão dos 27 países europeus, com um R 1,19, e o 2º país com pior rácio de novos casos, 23,2 por 100 mil habitantes, entre 14 e 20 de junho, apenas atrás da Suécia.

Uma situação que já obrigou o Governo a adotar novamente diversas medidas restritivas, como o reconfinamento nalgumas freguesias da Grande Lisboa e voltar a permitir apenas as viagens essenciais.

Também no exterior, a terra de Camões é agora vista como uma espécie de ‘ovelha negra’ da Europa estando a ser excluído da lista de estados permitidos para viajar por vários países europeus. A Dinamarca até ameaça despedir trabalhadores caso estes venham de férias para Portugal.

O que aconteceu?

Afinal, o que aconteceu? Como se deu esta viragem do melhor da turma para o mau aluno? Será que os portugueses estão a viver uma segunda vaga da epidemia?

Muitas são as questões que se colocam neste momento sobre a situação portuguesa que tem surpreendido, quer os portugueses quer a Europa. Mas há justificações para o que se está a passar. Jorge Atouguia, uma dos mais reputados infeciologistas portugueses explica ao Contacto porque Portugal vive agora este ‘volte face’ da epidemia.


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"Não é uma segunda vaga"

Em primeiro lugar “não há uma segunda vaga” da covid-19. “O que existe e era expectável é um pico das infeções nesta mesma fase da epidemia”, aquela que vivemos desde que tudo começou, frisa Jorge Atouguia. 

“Uma segunda vaga só acontece depois da primeira ter terminado”, ou seja, após um período sem nenhuma nova infeção,  quando a doença desaparece completamente de determinada região ou país, e por aí fora. “E isso ainda não se verifica com Portugal, onde todos os dias surgem novas infeções e o novo coronavírus ainda está presente”, lembra este especialista que é também presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina do Viajante.

“Convém lembrar que os números de novos casos de infeção que temos hoje diariamente são muito inferiores aos que tínhamos no início da pandemia. Por isso, a evolução da doença continua no sentido descendente, embora com aumento de novos casos. 


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Trata-se de um pico da epidemia, mas eles irão baixar e continuaremos na evolução descendente”, perspetiva Jorge Atouguia. Por outro lado, vinca também que a maioria dos novos infetados ocorre entre “jovens, jovens adultos e crianças, em que a doença não é tão severa nem necessitam de internamento na generalidade”. “Não se trata de casos graves e muitos são assintomáticos”.

 Como surge este pico da epidemia?

Qual a razão por que está a surgir este novo pico da epidemia? “Como já referi isto era expectável e acontece nas epidemias. O que assistimos em Portugal é ao aparecimento de casos localizados, até mais do que surtos, identificados em várias partes do país, e onde se está a atuar para prevenir a propagação da doença. Além de que a realização de testes de despistagem em larga escala, feitos nesses locais faz com que descubram casos positivos, sobretudo assintomáticos, o que aumenta o número de infetados no local”.

Como aconteceram esses surtos? Jorge Atouguia diz que por “uma descontração e confiança dos portugueses, atitudes que ganharam com o desconfinamento”. “Os portugueses têm uma boa relação com o sistema de saúde português, respeitam as indicações da saúde e quando as autoridades decidiram adotar o confinamento para controlar a epidemia, os portugueses respeitaram. Fomos dos países que nos portámos muito bem e a isso se devem a boa evolução da doença. Claro que custou muito tanto tempo em casa. A todos”, lembra Jorge Atouguia.


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"Confiança" e "descontrolo"

Só que depois foi totalmente diferente, e na fase seguinte, o 'bom aluno' deixou de se preocupar. "Com o bom quadro da evolução, as pessoas ganharam  confiança porque começaram a acreditar que a doença estava controlada e que já não havia tanto contágio. Aqui já não se respeitou tanto as regras indicadas pelas autoridades da saúde. Houve uma descontração em relação às regras e à doença. Essa descontração provocou o pico da epidemia em Portugal. Além de um descontrolo. Foi assim que sucederam o aumento de novos casos”, explica o infeciologista. As festas e eventos que se realizaram com um número de pessoas muito superior ao permitido transformaram-se em focos de infeção. Sou a festa ilegal de Lagos gerou 110 infetados.

Para Jorge Atouguia o desconfinamento tinha de acontecer pela saúde mental e para recuperar a economia. Agora, com as novas medidas restritivas adotadas pelo Governo em relação aos concelhos com novos casos tenta-se limitar a infeção a essas zonas.


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Novo reconfinamento

A 1 de julho Portugal entra em estado de alerta, um passo positivo, menos grave que o de calamidade, mas na área metropolitana de Lisboa, em 19 freguesias dos concelhos de Lisboa, Amadora e Odivelas, onde se registam 70% das novas infeções do país, mantém-se o estado de calamidade e adotam-se novas medidas de confinamento. No Algarve começam também a aparecer novas infeções.


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