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Costa diz que apagar incêndio de Monchique ainda "vai demorar dias"

Costa diz que apagar incêndio de Monchique ainda "vai demorar dias"

AFP
Portugal 5 min. 07.08.2018

Costa diz que apagar incêndio de Monchique ainda "vai demorar dias"

Primeiro-ministro esteve na reunião da Proteção Civil e, apesar do reforço dos meios realizado esta manhã, admite que o fogo "vai agravar-se nas próximas horas" e não será possível extinguir as chamas tão depressa como pretenderia. Vento forte está a provocar reacendimentos e volta a haver casas em perigo.

António Costa manifestou a convicção de que apagar o incêndio de Monchique ainda "vai demorar dias". Tal como fora divulgado, o primeiro-ministro esteve presente na reunião da Proteção Civil e, apesar de os meios no terreno terem sido reforçados esta manhã, admitiu em conferência de imprensa que não será possível extinguir as chamas tão depressa como desejaria.

E, ao final do dia, o vento forte está a gerar reacendimentos, colocando em risco diversas casas e obrigando as forças de socorro a esforços redobrados para o combate ao incêndio ao mesmo tempo que se procura proteger as populações.

Por outro lado, Costa classificou como "irresponsável" algum "apelo para que as populações não sigam as recomendações das autoridades". E especificou: "Quando apelam à saída das casas, as autoridades não estão a violar a Constituição nem a lei, mas a assegurar o bem mais precioso que é a vida humana". E elogiou o civismo dos cidadãos, mas também o trabalho feito até ao momento no terreno. Ao mesmo tempo, o chefe do Executivo manifestou-se favorável à forma como os meios têm respondido às exigências do combate aos sinistros. "O facto de termos mais de 582 ignições e apenas 26 incêndios nos últimos cinco dias, e de só o de Monchique ter concentrado a atenção das autoridades, demonstra que o sistema respondeu à altura do desafio que estava colocado".  

Cerca de 1.450 bombeiros, apoiados por quase meio milhar de veículos e perto de duas dezenas de meios aéreos estão envolvidos no combate ao fogo, mas nem a descida das temperaturas e a subida da humidade durante a noite permitiram acabar ainda com o incêndio que tem destruído milhares de hectares de terreno, árvores, veículos e outras estruturas em Monchique, embora e a frente de Silves esteja controlada pelos bombeiros. No entanto, as dificuldades não acabaram, conforme tem dito Patrícia Gaspar, segunda comandante da Autoridade Nacional de Proteção Civil, que já reafirmou que a situação é de "extrema complexidade", sendo necessário "adaptar a estratégia" de combate à medida das exigências no terreno.

Ontem, o Governo espanhol disponibilizou-se a enviar mais ajuda para lá dos meios aéreos que já apoiam o intenso esforço dos bombeiros portugueses no combate contra as chamas que lavram desde sexta-feira em Monchique. Soldados da paz com origem no país vizinho juntam-se aos mais de mil que já lutam contra o sinistro há cinco dias e enfrentam enormes dificuldades para colocar um fim à força destruidora das labaredas. 

As autoridades têm procurado apoiar as populações e mais de duas centenas de pessoas tiveram já de ser deslocadas de suas casas, tendo os bombeiros prestado assistência a 80 afetados pelo fogo e registado três dezenas de feridos.

O plano que não existe

Ontem, o Governo desmentiu a existência de um plano de um plano de prevenção e combate a incêndios para a zona, contrariando a Associação dos Produtores Florestais do Barlavento Algarvio (Aspaflobal), a qual referira esperar “há cerca de sete meses” pela aprovação de um plano para a serra de Monchique. Em causa estaria, segundo a notícia avançada pelo Público desta terça-feira, um projeto estruturante para a Zona de Intervenção Florestal (ZIF) da Perna da Negra, local onde começou o incêndio de Monchique, na passada sexta-feira. Mas, num esclarecimento enviado às redações, o Governo negou a existência do plano, referindo haver " uma candidatura ao Programa de Desenvolvimento Rural - PDR 2020, que se encontra em análise e, neste momento, não está em condições de ser aprovada".

A associação que representa cerca de 500 produtores florestais de Barlavento algarvio referia um documento prevendo a criação de caminhos, aceiros e pontos de água que facilitem o combate aos fogos na serra. O projeto foi enviado para o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), que ainda não o aprovou. O Governo, através do ministério da Agricultura, esclareceu que foi solicitado "um parecer ao ICNF relativo à consonância do projeto com o Plano Municipal de Defesa da Floresta Contra Incêndios (PMDFCI)", pedido que recebeu resposta favorável do ICNF, tendo esta sido enviada aos produtores florestais "no final de julho". 

Em declarações ao Público, o presidente da associação, Emílio Vidigal, explicou que “há mais de um ano que todos sabem que Monchique estava no topo da lista das zonas com maior risco de incêndios florestais. Há mais de um ano que todos sabem que a serra de Monchique era a próxima a arder”. “Há cerca de sete meses que enviámos para o ICNF um plano estruturante para a ZIF de Perna da Negra [gerida pela Aspaflobal] e nada foi feito. Está tudo embrulhado na burocracia, só nos fazem perguntas de lana caprina e nada avança”, revelou.

Emílio Vidigal diz não encontrar explicações para o atraso por parte do ICNF para o projecto da ZIF da Perna da Negra. “Dois dias antes destes incêndios enviaram-nos um conjunto de 30 perguntas, como, por exemplo, sobre os estatutos da associação ou pediam garantias de que não temos dívidas à segurança social. O comprovativo de que não temos dívidas caduca a cada três meses mas como o processo não avança no ICNF, de três em três meses, este pede novo comprovativo. É um processo burocrático estúpido e sem fim. Parece que fazem de propósito para não avançarem”, disse o presidente da Aspaflobal ao diário.

O responsável afirma não poder garantir que, caso o plano para a ZIF da Perna da Negra tivesse sido levado a cabo, seria suficiente para impedir o alastramento do incêndio deste fim-de-semana. Refere porém ter “a certeza” que “o combate teria sido mais efetivo”. “Os bombeiros, em vez de estarem a olhar para os helicópteros a despejarem água, tinham podido combater as chamas do terreno e isso podia ter mudado muita coisa”, acrescenta. O Executivo indica que "em nenhuma circunstância um pedido de parecer obrigatório feito em junho ao organismo com competência de autoridade florestal nacional (ICNF) resultaria em trabalho executado antes do período crítico". Além disso, lembra que "as candidaturas ao PDR 2020 obedecem a rigorosos requisitos impostos pela legislação comunitária para a sua aprovação" e a solicitação em causa "não cumpriu" essas obrigações. Por outro lado, "a Direção Regional de Agricultura e Pescas do Algarve, entidade que analisa esta candidatura, pediu esclarecimentos" à referida associação "que, até ao momento, não foram respondidos", pelo que "não há condições para que a candidatura apresentada ao PDR 2020 esteja aprovada".


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