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Costa alentejana. Quando os resorts de luxo dão cabo da natureza
Portugal 7 min. 28.09.2020

Costa alentejana. Quando os resorts de luxo dão cabo da natureza

Costa alentejana. Quando os resorts de luxo dão cabo da natureza

Portugal 7 min. 28.09.2020

Costa alentejana. Quando os resorts de luxo dão cabo da natureza

Francisco COLAÇO PEDRO
Francisco COLAÇO PEDRO
Ao longo da costa portuguesa entre Tróia e Sines, os grandes promotores imobiliários e o governo apostam no regresso dos resorts de luxo. Oito enormes projetos turísticos, a piscar o olho às elites estrangeiras, ameaçam um importante ecossistema de dunas e floresta. O Movimento Dunas Livres lançou uma carta aberta pela suspensão dos projetos e pela defesa de um dos últimos redutos do litoral ibérico selvagem

Madonna e os seus passeios a cavalo pelo areal da Comporta, que a imprensa internacional já apelidou de “nova Ibiza” ou “Hamptons da Europa”. O estilista Christian Louboutin e a troca de Comporta por Melides, onde está a erguer um hotel de luxo e onde adquiriu uma propriedade de 180 hectares para morada de férias. Nos últimos anos, a costa entre Tróia e Sines saltou para as redes sociais do jet-set mundial, as revistas cor-de-rosa – e os catálogos das grandes imobiliárias.

 Sistemas dunares em Tróia, no terreno previsto para o hotel de 5 estrelas “Na Praia”, propriedade de Sandra Ortega, a mulher mais rica de Espanha.
Sistemas dunares em Tróia, no terreno previsto para o hotel de 5 estrelas “Na Praia”, propriedade de Sandra Ortega, a mulher mais rica de Espanha.

“Obviamente que tamanha região de natureza intacta junto ao Oceano Atlântico não passa despercebida, sobretudo aos investidores ávidos do turismo de luxo”, diz Maria Teresa Santos, do Movimento Dunas Livres. O movimento cívico lançou no passado dia 9 de setembro uma carta aberta para defender este “tesouro natural da urbanização turística desregulada”. São cerca de 65 km de praias praticamente virgens, protegidas por uma faixa de pinhal. Entre o areal e a floresta, as dunas que se estendem da península de Tróia até Melides albergam uma biodiversidade rara e protegida. “De Norte a Sul, a construção desregrada por parte da indústria turístico-imobiliária alterou de forma irreversível a nossa preciosa janela para o mar. Esta região sobreviveu surpreendentemente bem preservada e é hoje um dos últimos redutos do litoral ibérico selvagem. Algo que só continuará a aumentar o seu valor para as gerações futuras”, defende Teresa.

Uma infografia produzida pelo movimento tornou-se viral nas redes sociais e mostra a mudança que agora ameaça a região. São oito grandes projetos turísticos: quatro deles sobre dunas, quatro com campos de golfe, seis com dimensões superiores às localidades da Comporta e Melides.

A transformação começa na península de Tróia, cujo desígnio de megalómana estância turística remonta ao Estado Novo. Ali existe desde 1997 o Troia Resort, do grupo SONAE, com hotéis, marina, campo de golfe, casino e aldeamentos; a Soltróia, conjunto de condomínios e moradias de veraneio construído no início dos anos 90; e, desde 2012, o Pestana Troia Eco-Resort. Agora, a metade noroeste de Tróia pode ficar para sempre urbanizada, com o espaço que sobrava devoto à natureza a ser aglutinado por um resort Club Med: um investimento superior a 20 milhões de euros da sociedade francesa Lagune Tróia, para construir cinco hotéis circulares, mais dois edifícios retangulares. O Tróia Resort alongar-se-á num “Eco-Resort”, que pretende estabelecer um novo hotel junto às Ruínas Romanas, assim como um aldeamento turístico, com capacidade para 700 camas.

O Conjunto Turístico “Na praia”, do grupo Ferrado Nacomporta I, da multimilionária Sandra Ortega (herdeira do império da Zara), será o derradeiro vizinho sul de Soltróia. Estão projetados um hotel e três aldeamentos turísticos de cinco estrelas, perfazendo 123 unidades de alojamento, mais SPA, campo de ténis, ginásio, piscina, restaurante e loja. Tudo junto à Reserva Botânica das Dunas de Tróia, parte da Reserva Natural do Estuário do Sado. Um projeto que uma investigação da TVI em novembro do 2019 descreveu como “ilegal do ponto de vista ecológico, por violar as leis do Ambiente”. “Dado que são partilhadas na íntegra as características ecológicas e o excelente estado de conservação que levaram à classificação de Reserva Botânica, parece uma ironia política a atribuição do mais alto nível de proteção a um dos lotes e a de autorização de construção a outro. A ausência destas parcelas do traçado original da Reserva Natural carece de lógica científica e tem motivado surpresa junto de quem descobre este facto legal”, denuncia o movimento Dunas Livres, na última edição do Jornal Mapa.

Para a Comporta, estão previstos os mega complexos Comporta Links e Comporta Dunes, pelo consórcio Vanguard Properties e Amorim Luxury. O investimento previsto é de 1500 milhões de euros, durante entre 8 e 15 anos. Em 1.380 hectares, serão criados seis hotéis, três hotéis-apartamento, dois campos de golfe, 11 aldeamentos turísticos e loteamentos residenciais para até 1000 casas. O início das obras está apontado para este mês, sendo prevista a construção de duas “minicidades” para albergar os trabalhadores temporários. A Vanguard Properties detém ainda a Muda Reserve, “50 Quintas, 50 Casas e 50 Vilas” cuja construção já começou.

Infografia sobre os projetos turísticos, já construídos ou planeados, entre Tróia e Melides.
Infografia sobre os projetos turísticos, já construídos ou planeados, entre Tróia e Melides.
Fonte: Movimento Dunas Livres

Estes projetos situam-se na famigerada Herdade da Comporta. Com 12 km de areal, 12.500 hectares de pinhal, campos de arroz e outras produções agro-silvo-pastoris, pertencia ao Grupo Espírito Santo (GES) e era a maior propriedade privada dos tempos modernos em Portugal. Em 2011 e 2010, viu aprovadas pelas autarquias de Alcácer do Sal e Grândola duas grandes Áreas de Desenvolvimento Turístico. O julgamento de Ricardo Salgado, por crimes de corrupção financeira, ditou a expropriação dos bens do GES pelo Estado Português, que optou pelo retalho da propriedade e venda a promotores imobiliários.

Continuando para sul, dois projetos em Melides vêm completar o que parece ser a estratégia de fazer desta região um destino turístico de golfe para uma elite estrangeira. A Herdade do Pinheirinho, a 750m da água, entrevê um green desbravado no pinhal. Foi este ano adquirida pela Vic Properties, que anunciou ainda a construção de hotéis, moradias e espaços de comércio. A Costa Terra planeia construir mais um campo de golfe, três hotéis, quatro aldeamentos turísticos e 204 moradias. Esta propriedade também transitou em 2019 para a norte-americana Discovery Land Company, uma criadora de resorts de luxo, com portefólio nos EUA, México, República Dominicana e Bahamas.

“A paisagem entre Tróia e Melides está para mudar de forma radical, em termos geográficos, económicos, sociais e ambientais. Em 2020, perante acordos e compromissos como a Agenda 2030, o Acordo de Paris, a Convenção sobre a Diversidade Biológica e a nova Década das Nações Unidas para a Restauração de Ecossistemas, está-se a avançar para uma tamanha alteração ao carácter de uma região sem a consulta e informação das comunidades. A informação relativa a estes projetos tem-se mostrado impenetrável, seja Avaliações e Declarações de Impacte Ambiental ou notícias de transações imobiliárias desta importância”, indigna-se o movimento, que pretende ver as suas reservas e propostas debatidas no Parlamento.

“A rápida alienação da Herdade da Comporta por empresas privadas, o Plano de Urbanização da Península de Tróia, a retirada de outros terrenos da Reserva Ecológica Nacional na Comporta para se tornarem lotes de construção, e as recentes aquisições das duas grandes herdades em Melides por multinacionais estrangeiras devem ser escrutinados, averiguando se atendem a uma visão de desenvolvimento sustentável ou defesa do interesse público”, defende Maria Teresa Santos.

Os defensores deste ecossistema lembram que a península de Tróia é toda ela uma enorme duna, um “tesouro geográfico” que providencia importantes serviços de ecossistema. Abriga a baía do Estuário do Sado, morada de uma flora e fauna emblemáticas, que inclui os golfinhos-roazes ou as pradarias marinhas, cuja integridade foi afetada pelas dragagens no Porto de Setúbal. Os sistemas dunares protegem contra a erosão costeira, algo de especial importância devido à subida do nível do mar e à intrusão da cunha salina no estuário. A manutenção das dunas sob coberto de vegetação permite a recarga do aquífero do Tejo-Sado, essencial à região.

“A salvaguarda de recursos hídricos saudáveis vê-se posta em causa com o advento de quatro campos de golfe a uma região árida – algo particularmente escandaloso, desnecessário e caro para o povo português. O aumento do número de urbanizações coloca pressão sobre o aquífero do Sado, além de representar um dispêndio todo o ano para servir apenas alguns meses.” O Movimento Dunas Livres questiona o alegado desenvolvimento que se provirá às comunidades locais, dada a instabilidade do emprego (sazonal) e o aumento das rendas com a gentrificação destas localidades. Defende a proteção integral das dunas com base no conhecimento científico atual.

“Propomos uma suspensão imediata das construções de empreendimentos turísticos para além do que existe atualmente – que consideramos mais do que suficiente. A fruição das praias e natureza envolvente deve ser sustentável e acessível a todos”, conclui Maria Teresa Santos. “Propomos outros modelos de desenvolvimento, que contemplem uma rede de transportes públicos a preços praticáveis para a população geral e a sensibilização para comportamentos que respeitem os ecossistemas”.

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