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Confinamento avança em Portugal com "horizonte de um mês"
Portugal 7 min. 12.01.2021

Confinamento avança em Portugal com "horizonte de um mês"

Confinamento avança em Portugal com "horizonte de um mês"

Foto: AFP
Portugal 7 min. 12.01.2021

Confinamento avança em Portugal com "horizonte de um mês"

Ana TOMÁS
Ana TOMÁS
Mais de 10 mil casos e mais de cem mortes por dia, em janeiro, determinaram decisão do Governo.

Portugal prepara-se para voltar, a partir desta quinta-feira, 14 de janeiro, ao confinamento geral, semelhante ao que aconteceu em março e abril. O aumento de casos e de mortes, no período pós-natalício, em todo o país, gerou uma subida nos internamentos, com vários hospitais a lotarem a ocupação para doentes covid, a suspender atividade médica não-urgente e a transferir pacientes entre regiões, o que levou o Governo a decidir avançar para um novo encerramento das atividades consideradas não essenciais e a aplicar novamente o dever de recolhimento para todo o país.

Ao contrário do primeiro confinamento, que durou cerca de dois meses, desta vez tanto o executivo como os investigadores pretendem evitar a todo o custo o encerramento das escolas, mas sem consenso sobre se deve ser ou não extensível a todos os níveis de ensino.

Na reunião desta terça-feira, no Infarmed, que os voltou a juntar, em Lisboa - Marcelo Rebelo de Sousa participou por videoconferência por se encontrar em isolamento profilático -, os especialistas consideraram que mesmo sem fechar as escolas é possível reduzir o índice de transmissibilidade (Rt), que atualmente é de 1,22, no país. Um novo confinamento sem o encerramento das aulas presenciais é suficiente para colocar os níveis de transmissão do vírus SARS-CoV-2 abaixo de 1, explicou Baltazar Nunes, do Instituto Ricardo Jorge.


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As estimativas apresentadas pelo investigador mostram que um confinamento com “as escolas em regime presencial é suficiente para trazer o Rt para baixo de 1”. No entanto, Baltazar Nunes avisou que a descida será superior com a suspensão da atividade letiva para os alunos com mais de 15 anos e ainda maior se essa suspensão for para todos os graus de ensino. Já o epidemiologista e presidente do Conselho Nacional de Saúde, Henrique Barros, sublinhou que o pico das infeções não acontece em idade escolar, lembrando que "os contágios não ocorrem nas escolas, mas fora delas”.

Após a reunião, o primeiro-ministro afirmou que a manutenção das aulas presenciais para os alunos a partir dos 12 anos será ponderada pelo Presidente da República, Governo, parlamento e outros agentes do setor da educação.

A perspetiva do não encerramento dos estabelecimentos de ensino, pelo menos total, nesta primeira fase do novo confinamento, deverá ser uma das poucas diferenças face ao da primavera de 2020, mas as medidas em detalhe só serão conhecidas esta quarta-feira, depois da reunião na Assembleia da República e do Conselho de Ministros extraordinário.

António Costa afirmou na segunda-feira que o calendário institucional será cumprido com "grande velocidade" para que o país entre rapidamente num confinamento mais severo, com medidas mais restritivas que as escalonadas até agora, por níveis geográficos de incidência. Já no último fim-de-semana, e ao contrário do que sucedera até ao Natal, só nos concelhos com risco moderado se pôde circular na via pública depois das 13h. Nos restantes - 91% dos 278 dos municípios de Portugal continental -, após essa hora, os cidadãos tiveram de recolher a casa e os estabelecimentos de restauração, com exceção do serviço de take-away, assim como os considerados não essenciais foram obrigados a encerrar ao público.

As medidas do novo confinamento deverão ser anunciadas esta quarta-feira à tarde e entrar em vigor logo às 00h de quinta-feira. Uma decisão para a qual António Costa considera que os portugueses estão preparados, considerando que desde o último Conselho de Ministros, no passado dia 6, tem vindo "a deixar bem claro de que há uma grande probabilidade de se decretar algo muito próximo do que Portugal teve no primeiro confinamento em março e abril do ano passado, permitindo assim a preparação das pessoas para essas medidas", afirmou na segunda-feira, numa conferência de imprensa conjunta com o líder do executivo grego, Kyriakos Mitsotakis.


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Na reunião desta terça-feira no Infarmed confirmou-se a trajetória "fortemente crescente" do número de casos em Portugal, no período que se seguiu ao Natal, com o registo de máximos históricos. Recorde-se que na semana de 4 a 9 de janeiro, o país ultrapassou os 10 mil infetados, em alguns dias, e noutros aproximou-se desse valor. Também o número de mortos por dia passou a superar a centena desde esse período.

Incidência muito elevada em todo o país 

Segundo a apresentação dos especialistas, a dispersão da incidência de casos a 9 de janeiro revelava um agravamento generalizado da situação epidemiológica, com as áreas de risco extremamente elevado, onde o número de casos é superior a 960 por 100 mil habitantes, a dispersarem-se por todo o território continental.  

Na região de Lisboa e Vale do Tejo, a que tem registado mais novos casos e óbitos nos últimos dias, a subida no nível de incidência ocorreu logo a seguir ao Natal, nos dias 27 e 28 de dezembro, antecipando as estimativas dos especialistas de saúde pública, referiu Duarte Tavares, do Departamento de Saúde Pública, da ARSLVT. 

Entre novembro e janeiro, registou-se, na mesma região, um aumento de casos em pessoas cada vez mais jovens, em particular, na faixa etária dos 20 aos 29 anos, que é aquela que abrange os estudantes universitários. 

Também a região Norte tem registado um crescimento da incidência nesta faixa, assim como na dos 80 anos ou mais, segundo revelou o matemático Óscar Felgueiras, da Universidade do Porto. Enquanto, conforme apontou o especialista, os vários surtos em lares do Norte assumem uma preponderância nos concelhos com maiores níveis de incidência, em Lisboa e Vale do Tejo os dados apontam para um peso do aumento da transmissão comunitária, com a proporção de surtos em lares a baixar de 12,41%, em novembro, para 10%, em janeiro. E a situar-se, atualmente, nos 6,52% a percentagem de idosos dessas estruturas que foram internados em hospitais - o que também representa uma descida face aos meses anteriores-, detalhou Duarte Tavares.


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Apesar do número de infetados e de mortes por covid-19 ser mais elevado nestas duas regiões do país, a incidência é superior nas restantes, evidenciaram os dados apresentados no Infarmed. Em termos de distribuição geográfica, a região Norte é a que tem o Rt mais baixo, com 1,18, seguindo-se Lisboa e Vale do Tejo (1,23). Com níveis de incidência maiores surgem, por ordem crescente: Madeira (1,24), Centro (1,25), Alentejo e Açores (1,27) e Algarve (1,29).  

Conter os números das semanas pós-Natal

No início de dezembro, o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC) avisou para os “riscos adicionais significativos” das festividades natalícias e de fim de ano, que se traduziriam num aumento "muito provável" das infeções de covid-19, sobretudo nos países com medidas menos restritivas, como foi o caso de Portugal.

Para António Costa as medidas decididas para o Natal basearam-se num "contrato de confiança entre todos, no qual as menores restrições implicavam um maior cuidado nos festejos" e foram seguidas de normas mais restritivas, com um "encerramento severo logo a seguir", no ano novo. O primeiro-ministro defendeu ainda que o novo confinamento foi decidido na altura certa. "Se tivéssemos avançado mais cedo com as medidas, teríamos feito seguramente pior, porque teriam sido decisões tomadas com base em informação insuficiente", justificou na mesma conferência de imprensa.


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O professor Manuel Carmo Gomes, presente na reunião do Infarmed, estima que “aproximadamente cinco mil casos" tenham escapado "ao processo normal de testagem" entre a véspera e o fim de semana de Natal. Mesmo com um novo confinamento, o saldo da mortalidade e o número de casos ainda irá subir, antevê o especialista, que estima que os casos atinjam os 14 mil por dia até ao final de janeiro e se ultrapassem os 140 óbitos diários, sendo que cerca de 600 mortes deverão advir dos 3000 casos já confirmados entre idosos com mais de 80 anos, segundo Henrique Barros.

No final da reunião, o primeiro-ministro declarou que as medidas que forem decididas no novo confinamento "devem ter um horizonte de um mês". "Estamos perante uma dinâmica de fortíssimo crescimento de novos casos que é necessário travar", defendeu António Costa.


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