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Como Ali Hossain fintou a pandemia e salvou o seu negócio

Como Ali Hossain fintou a pandemia e salvou o seu negócio

Como Ali Hossain fintou a pandemia e salvou o seu negócio

Como Ali Hossain fintou a pandemia e salvou o seu negócio


por Ana B. Carvalho/ 23.04.2021

Foto: Rui Oliveira

Enquanto muitas grandes empresas enriquecem à custa da pandemia da covid-19, pequenos negócios enfrentam tempos de extrema dificuldade. Entretanto, no Porto, um jovem nascido no Bangladesh tenta enfrentar a precariedade com determinação. E pensamento positivo

São seis da tarde na Rua da Alegria, no Porto. A localização não foi escolhida de propósito, mas os dados não podiam ter sido mais certeiros. “É a rua perfeita, já me explicaram o significado”, comenta com entusiasmo Ali Hossain, enquanto compõe a máscara, num gesto delicado. A proteção facial sai do lugar cada vez que sorri, elevada pelas bochechas que dão suporte a uns olhos muito abertos e curiosos. 

“Eu adoro Portugal. As pessoas daqui são muito boas, Porto é a melhor cidade”, adianta assim que se inicia conversa. A montra esconde-se por trás de um gradeamento branco, bordada a azul, rodeada de azulejos com os tons da cidade. De luzes brancas e prateleiras bem arrumadas, estende-se um corredor colorido por “um pouco de tudo”. Vegetais, bebidas, snacks, produtos de higiene, cartas para jogar, são alguns dos muitos produtos à disposição. Para quem está de fora, esta parece ser mais uma loja de conveniência aberta na cidade do Porto ao longo dos últimos anos, mas é a personalidade de Ali que torna esta casa especial. 

Ali Hossain, de 36 anos, no seu estabelecimento na rua da Alegria nº139
Ali Hossain, de 36 anos, no seu estabelecimento na rua da Alegria nº139
Rui Oliveira

Foi através do Instagram e das suas publicações carregadas de otimismo que chegamos até ao número 139 da rua que condiz com o estado de espírito que quer alimentar. “Precisamos de alegria, pensamento positivo. A vida é de muito sacrifício, temos de saber pensar”. Fez a primeira publicação a fevereiro de 2020, ao aperceber-se que “na Europa as pessoas usam o Instagram”. Hoje tem mais de dois mil e cem seguidores, com quem Ali Hossain, de 36 anos, partilha selfies tiradas dentro do “Supermercado da Meia-Noite”. Publicita a entrega dos produtos durante “toda noite”, uma manobra de sobrevivência às restrições com que se deparou assim que abriu a loja, graças à pandemia de covid-19, juntamente com inscrições que ilustram a sua filosofia de vida, adquirida com um percurso de vida de “muita luta”.

“Covid-19 exigiu muito de mim, mas deu muito mais do que isso durante esse tempo. E o que tenho é um bom amigo como você”, lê-se numa publicação com 259 gostos e comentários que o apoiam e descrevem como “campeão”, “o melhor supermercado de sempre” e “grande amigo”.

Já aceitou que a sua realidade é de batalhar pelos próximos níveis, mas também se inspira no conhecimento partilhado por um mentor do Bangladesh, Iqbal Bahar. “Ele tem um grupo de Facebook, não ganha dinheiro com isto, fala de uma forma inacreditável e é aprendizagem a tempo inteiro. Se o escutares, começas a perceber que tens de dominar algo na tua vida”. 

“Nas nossas vidas, os pais eram muito fechados, o meu pai e a minha mãe nunca me abraçaram, imagina! Este professor também nos ensina a aproximar deles, tentar abraçar, falar com os pais, dizer que os amamos. No nosso tempo nunca se fez nada disso, agora as nossas crianças podem dizer “eu amo-te”, podemos partilhar. E ele ensina isto e tu consegues ver como a tua vida muda. Às vezes ele diz que estamos muito fixados nos problemas. No meu país, muitas pessoas são pobres, há crianças na rua, tu não tens disto no teu país. Mas lá sim. Às vezes ele diz-nos “plantem uma planta nas vossas casas” e no mesmo dia milhares de pessoas fazem isso, no mesmo dia, e isto é tudo voluntário ele não ganha dinheiro nisto. E não é só para pessoas do Bangladesh, a intenção é chegar ao mundo todo. No Instagram eu partilho lições que aprendo lá também”, conta entusiasmado. 

Descreve a realidade em que cresceu muito diferente da dos que o visitam na sua loja e por isso gostaria de “inspirar os mais jovens a fazer o bem uns aos outros”. “As oportunidades estão escondidas nos problemas, então continue procurando oportunidades. Se você acha que o problema é um problema, o problema vai devorá-lo, então acorde”, lê-se numa das suas publicações. 

Orgulha-se que conhece toda gente. Os clientes são amigos. Mas como não sabe português e criou Instagram, vê ali uma oportunidade de comunicar com a comunidade que vai criando. A difícil travessia da vida Ali, de 36 anos, fala de forma simples, em inglês, mas é desenrascado. Cresceu no Bangladesh numa família “muito pobre”. 

“A minha mãe trabalhava em máquina de costura. A nossa vida, muito difícil. Somos três irmãos e uma irmã. A minha mãe, inacreditável, trabalhava dia e noite, demasiado trabalho pesado. O meu pai não trabalhava. Então a minha mãe pensou que tinha de fazer algo por nós. Havia comida, mas não alimentação variada. No meu país há muitas crianças na rua, não é como aqui. Às vezes uma refeição por dia. Então a minha mãe foi para a madraça, escola muçulmana para mulheres. Depois, foi para países árabes trabalhar durante três anos. Conseguiu algum dinheiro e a nossa família ficou um pouco melhor. Entretanto, voltou e o meu irmão mais velho foi para o Dubai. Trabalhou tanto, tanto. Depois levou-me, quando acabei o secundário. Agora está estabelecido no Dubai e está bem com o negócio dele. Mas quando ele me levou para lá, vida era muito difícil”. 


Castro Daire, 14/03/2021 - A aldeia de Codeçal foi dos poucos sítios em Portugal que o covid não entrou. A aldeia tem pouco mais de uma dezena de habitantes e esse foi um dos motivos para o contagio não se dar.
(Rui Oliveira/Contacto)
Codeçal. No topo da serra, o vírus não chegou
O interior de Portugal está tão abandonado, esquecido e envelhecido que até a covid-19 se recusou a visitar uma aldeia perdida na serra de Montemuro.

Depois de oito anos “complicados”, Ali decidiu procurar outros destinos para emigrar. “Nunca pensei que um dia viria para a Europa”, mas ao estudar a documentação para a Georgia, percebeu que era semelhante noutros países europeus. Ainda esteve na Alemanha 20 dias com um visto de turista, mas o sistema indicava que iria ter de esperar “demasiado” até conseguir reunir-se com a esposa. Entretanto, no telemóvel continuava a sua pesquisa e a internet indicou Portugal como uma boa possibilidade. “Só tinha de encontrar trabalho”. No último relatório “Imigração,Fronteiras e Asilo”, publicado em 2019, pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), registavam-se 7.964 residentes em Portugal oriundos do Bangladesh. 

O mesmo relatório, mas do ano de 2018, apontava para um crescimento em 165,1% do fluxo migratório com origem no mesmo país face a 2017. Para Ali é clara a decisão de ter escolhido Portugal como novo país. Além de ter um “sistema fácil” de documentação, as pessoas são “muito boas e simpáticas”. 

Resiliência e Determinação 

Quando chegou ao Porto, dirigiu-se ao SEF para “conseguir selo”. Como não fazia ideia se “este país tinha gente do Bangladesh”, tratou logo de explorar. “Fui pela rua, entrei no Via Catarina, imprimi currículos e de repente vi um homem. Perguntei: India ou Bagladesh? Ele disse: Indiano, mas que tinham pessoas do Bangladesh”. Apesar de oferecerem um salário de 3,5 euros à hora e ter de ficar num sistema de acomodação em que partilhava um apartamento com muitas pessoas, “O que podia fazer? Precisava do trabalho… Durante um ano, loja, loja, loja”. 

O plano? “Não focar no dinheiro, sabia que diziam não se pedisse aumento. Focar nos documentos e aprender tudo que podia, perceber como funcionava o sistema, como abrir negócio. A maior “dor de cabeça” deste emprego? O jovem não podia ser ele próprio. “Muitas regras. Eu gosto de falar com os clientes, saber se estão bem, os nomes deles, uma pessoa pergunta, hoje, amanhã, passados uns dias somos amigos. Mas as pessoas de lá não eram de conversas e eu tinha um colega que não gostava que eu falasse com as pessoas. Se eles vinham e falavam com o Ali, davam um abraço, eles não gostavam. Mas que podia fazer? Precisava dos documentos”. 

O trabalho começava só às duas da tarde, então arregaçou as mangas. “Como sou técnico, sei fazer tudo. Construção, manutenção, eletricidade, pintura. Fui comprar algumas ferramentas e fui a todas as lojas Bangladesh para dizer que eu fazia esses serviços e assim eles podiam chamar-me se precisassem. Estás a ver aquela câmara? Fui eu que montei. Esta instalação, a luz. Nesta loja fiz eu tudo sozinho, não gastei um euro”, aponta orgulhoso. 

“Nunca penso que são clientes, esta é a nossa loja, não é a minha loja. É de todos. Sem eles eu sou zero. Eles gostam de mim, eu adoro-os. São muito muito bons clientes, os clientes do Porto são os melhores de Portugal”, diz Ali Hossain.
“Nunca penso que são clientes, esta é a nossa loja, não é a minha loja. É de todos. Sem eles eu sou zero. Eles gostam de mim, eu adoro-os. São muito muito bons clientes, os clientes do Porto são os melhores de Portugal”, diz Ali Hossain.
Rui Oliveira

Durante o primeiro ano em Portugal, teve direito a uma ou duas folgas por mês. “Aproveitei para planear. Tinha de fazer algo. Sempre que tinha dia livre eu planeava no telemóvel, Google Maps Portugal. Por volta das cinco da manhã, ia até outra cidade, para ter tempo de visitar a área e voltava à noite para dormir e começar o meu dever no dia seguinte. Fui a Viana do Castelo, Coimbra, fiz assim em vários sítios para ver como eram as pessoas, investigar como eram os negócios. Depois pensei: o melhor sítio é o Porto. Porto é a melhor cidade”.

 Conseguiu finalmente abrir o seu negócio, no primeiro dia de 2020. E não tardou até ser obrigado a fechar as portas, devido ao confinamento provocado pela pandemia de covid-19. “Corona chegou. Então pensei que tinha de fazer algo”. Assim começaria a sua aventura pelo Instagram, plataforma que nunca havia utilizado até então. “No meu país toda gente usa Facebook, mas na Europa todos usam Instagram”. 

Como os seus clientes são na maioria jovens, até aos 40 e poucos anos, Ali criou uma página onde tinha o seu número de telemóvel disponível para encomendas que enviaria através de um motorista Uber. Percebeu logo que teria de construir o seu próprio website. “Fiz tudo sozinho: www.todobempt.com”. 

No website avisa que as entregas são feitas até às cinco da manhã no Porto, Maia, Vila Nova de Gaia, Foz de Douro, Rio Tinto, Valbom e Matosinhos. “Tiram fotografia do site, enviam-me, mostram morada, vejo preço da viagem e digo: são x euros. Eles transferem, eu envio. Até hoje nunca me enganaram e eu também não engano ninguém”. 

A conversa é interrompida por uma senhora. “Ali, tem o contacto da Carolina? Mário? É que estou sem chave”. O jovem responde “eu não tenho chave”. Assim que percebe a questão, providencia o telemóvel com um número marcado. “Mário senhor. Vou ligar direto”. Enquanto esperava pela chamada, a vizinha em apuros comenta que visita a loja de Ali com frequência, “Nós somos vizinhos e aqui tem de tudo, né Ali?”, pergunta antes da chamada ser atendida e a porta do prédio em frente se abrir. 

Há um ponto muito importante na relação que estabelece com quem entra no seu espaço. “Nunca penso que são clientes, esta é a nossa loja, não é a minha loja. É de todos. Sem eles eu sou zero. Eles gostam de mim, eu adoro-os. São muito muito bons clientes, os clientes do Porto são os melhores de Portugal”. 

A disponibilidade de Ali é permanente, por simpatia, mas também por necessidade. Diz-se comprometido em não deixar nenhuma pessoa pendurada perante uma porta fechada, por isso todos podem ligar quando precisam. “Eu estou feliz com o meu negócio, são bons clientes. Não posso ir visitar sítios porque eu não quero que eles cheguem aqui e tenham de ir embora por estar fechado. Não posso aceitar”. 

 Siuli Khanom e Ali Hossain na sua casa improvisada, no andar de baixo do estabelecimento
Siuli Khanom e Ali Hossain na sua casa improvisada, no andar de baixo do estabelecimento
Rui Oliveira

Desabafa que que estes são dias “muito difíceis”, a renda é “muito alta”. A esposa, Siuli Khanom, de 22 anos, que hoje em dia ajuda no negócio, conseguiu mudar-se, depois de uma espera paciente pelo reencontro. Agora residem no andar inferior da loja. “É possível sobreviver, difícil mas possível. O negócio não chega para alugar uma casa. Moro aqui com a minha mulher. É difícil, mas possível de gerir. Eu vejo a minha vida como uma vida de luta, por isso não tem efeito negativo sobre mim”. 

Ali é um sonhador e já sabe qual será o passo seguinte. “Em Portugal tens muita forma de viver, agora quero ver se encontro terreno para poder plantar algumas coisas para a minha família. Vou aprender que vegetais são bons para o clima e a terra de cá e alimentar a minha família. Se conseguir crescer, então cresço para negócio. Este é o meu plano seguinte”.

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