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Com pouco pudor e menos vergonha
Opinião Portugal 2 min. 29.11.2021
BPP

Com pouco pudor e menos vergonha

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Com pouco pudor e menos vergonha

Foto: Lusa
Opinião Portugal 2 min. 29.11.2021
BPP

Com pouco pudor e menos vergonha

Sérgio FERREIRA BORGES
Sérgio FERREIRA BORGES
Chegou a Portugal o logotipo da CNN, uma das mais consagradas marcas planetárias de informação televisiva. Para a estreia, apresentou uma entrevista que parecia impossível, com um refractário à justiça.

Trata-se de João Rendeiro, o homem que chefiou, durante anos, um banco de fracas credenciais, que acabou falido, deixando os seus depositantes na mais infame penúria. Rendeiro foi levado à justiça, por um rol infindável de crimes que, até hoje, não conseguiu explicar.

Mas a explicação é fácil. Prometeu remunerações de capital, impossíveis de pagar, desviou para seu proveito pessoal o dinheiro que lhe foi confiado, furtou-se ao pagamento de impostos e desenvolveu operações ilegais, para lavar faraónicas dinheiramas que cheiravam a crime. Já tem várias condenações, uma delas transitada em julgado, o que quer dizer que já devia estar na cadeia.

Por isso, fugiu, sem dizer para onde, embora o seu discurso contenha fragilidades que, bem exploradas por uma investigação a preceito, podem conduzir a justiça, até ao figurão.


O fundador e ex-presidente do Banco Privado Português (BPP), João Rendeiro, à saida do Campus de Justiça onde decorre o julgamento do processo relacionado com o veículo criado no universo BPP para investir especificamente em ações do Banco Comercial Português (BCP), onde é acusado pelo Ministério Público de burla qualificado, em Lisboa, 12 de fevereiro de 2014. O julgamento de três ex-gestores do BPP, João Rendeiro, Paulo Guichard e Salvador Fezas Vital, tem início esta manhã enquanto decorre a investigação do processo principal do caso BPP. MÁRIO CRUZ / LUSA
Crimes & escapadelas
Confirma-se a velha maldição: nenhum banqueiro é preso em Portugal. Os lesados, lesados ficam. Na arte de fugir, Rendeiro não está só.

Por exemplo, disse nesta entrevista que foi um dos seus advogados que arquitectou o plano da fuga e que o aconselhou a pôr-se ao fresco. Se isto é verdade, o referido advogado deve saber onde ele está. E, apesar de estar obrigado ao sigilo profissional, a polícia tem meios e sabe usá-los, para apurar qual foi o destino de João Rendeiro.

Mas a entrevista revelou também um homem com alguma esperteza, insuficiente para se confundir com inteligência. Por isso é que o Povo diz que espertos são os cães e inteligentes são os homens. Radicou o seu discurso em duas linhas. Numa primeira, tentou vitimizar-se e dramatizar os seus próprios erros e disparates, na presunção de que isso lhe rendesse o apoio de alguma opinião pública. Numa segunda linha, com ar penitente, foi lamechas, vertendo um conjunto de pieguices, envolvendo a mulher e três inocentes cadelas. Mas a falta de lágrimas não colaborou com a teatralização e os créditos obtidos foram nulos.

Há, no entanto, um aspecto que foi de uma enorme utilidade. Além de ter plasmado a fraca inteligência com que o divino o castigou, mostrou também a sua absoluta falta de carácter. Por estes dias, a mulher está em prisão domiciliária, como resultado das trafulhices do ignóbil marido. Pelo contrário, ele está em parte incerta, onde consegue viver, com cinco mil euros por mês, gozando de prazeres, como a ida à praia ou ao ginásio.

Para crápulas como Rendeiro, a vergonha é uma coisa obsoleta que só estorva os movimentos, sempre que desejam dar mais um golpe, na inocência dos outros.

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)


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