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Codeçal. No topo da serra, o vírus não chegou

Codeçal. No topo da serra, o vírus não chegou

Codeçal. No topo da serra, o vírus não chegou

Codeçal. No topo da serra, o vírus não chegou


por Ana B. Carvalho/ 10.04.2021

Rui Oliveira/Contacto

O interior de Portugal está tão abandonado, esquecido e envelhecido que até a covid-19 se recusou a visitar uma aldeia perdida na serra de Montemuro.

O relógio ainda não marca o meio-dia, mas o sol já vai adiantado. No coração da serra de Montemuro os dias ainda são curtos. 

O verde e o castanho predominam nas escarpas assimétricas que guardam as memórias brancas de um inverno rigoroso. Riachos, turfeiras e giestas, carvalhos centenários e penedos graníticos fazem parte da magia daquela que o geógrafo português Amorim Girão descreveu como “a mais desconhecida serra de Portugal”. Perto do Monte de S. Cristóvão, onde permanecem monumentos do Megalítico, e rodeada de um imenso parque eólico, a aldeia do Codeçal situa-se entre Castro Daire - concelho a que pertence-, Resende e Lamego.

Isolada e de clima rígido, por ali a agricultura é reduzida à subsistência. Apenas"pegam" algumas batatas, feijões e umas couves. A criação de animais para venda é o sustento mais comum. O comércio chega através de vendedores ambulantes. Do pão ao peixe fresco, dos vegetais aos detergentes, são carrinhas com dias marcados que trazem à aldeia os bens necessários. Quem não chegou ao "cimo do mundo" foi o "tal do vírus”.

A cerca de 1000 metros de altitude, a imponência da imensidão. O ar é gélido. Não se vê vivalma. Ouve-se só "a passarada do costume" que celebra a chegada da primavera e ao longe pequenos sinos, que assinalam a presença de rebanho. Domingos Silva, presidente da junta de freguesia de Gosende, do município de Castro Daire, diz ao telemóvel que na aldeia de Codeçal moram 13 habitantes, depois de listar os nomes de cabeça, como quem conta pelos dedos.

Por obra do destino ou do acaso, é Crisália o primeiro nome que Domingos se lembra e será a pessoa que se faz ver num caminho de pedra, estreito e íngreme assim que saímos do carro.Entre o som da água que vai escorrendo pelos socalcos e o estalar da lenha que vai apanhando do chão, Crisália nota a presença de estranhos mas não faz caso. Está sem máscara e olha desconfiada enquanto responde ao bom dia.

"Isso da covid nunca devia de vir ao ao mundo, devia desaparecer. Mas aqui não chegou". 

Foi criada no Codeçal, terra natal do pai. As frases começam por ser muito curtas mas aos poucos acaba por se abrir. Nasceu na povoação ao lado. "Não sei a minha idade, mas faço para o outro mês que vem. Quantos não sei dizer. Não sei ler.". Na sua posse, nada. "Não tenho campo não, não tenho animais, tenho nada". Lamenta que "aqui já morreu quase tudo", enquanto aponta para as casas que ficaram vazias.

Crisália a cortar lenha num caminho perto de sua casa.
Crisália a cortar lenha num caminho perto de sua casa.
Rui Oliveira/Contacto

Tem uma “reformita” mas relembra a iliteracia como motivo de não saber quanto recebe. Foram as assistentes sociais que a ajudaram com a casa, que "tem um quartinho" e cuja cor rosa pôde escolher.

Crisália fala sempre em tom triste, cabisbaixa. Confessa que desde a morte da sua mãe, "há muitos anos", nunca mais teve saúde. Não dorme e já cegou de um olho, o outro não tarda. "A minha mãe era a minha amiga, nunca me batia, era a minha companhia", conta com saudade. "Sonhei com a minha mãe três noites, que tinha morrido. Ela foi para Lisboa no mês do natal, tinha cancro na barriga e estômago. Eu sonhei com ela e o meu pai ainda me bateu. Disse-lhe assim eu: você vai ver que vem aí telegrama com a morte da minha mãe. Respondeu: Tu és burra. E assim foi. Ela tinha-me dito adeus que não me via mais. Foi verdade”.

Começou a trabalhar de pequenina, guardava gado e gostava muito dos animais. "O meu pai fazia-nos trabalhar". Passava meses a vindimar e depois voltava à serra. No inverno seguia-se a vareja da azeitona numa nova terra. "A minha mãe também trabalhava mas o meu pai dava-lhe no focinho. O meu pai era muito mau para nós. Eu tinha-lhe uma raiva capaz de o matar". Apesar do pai ter tentado abusar de Crisália,“tentou fazer pouco de mim”, no final da vida ficou dependente dos cuidados da filha. "Ele costumava dizer ao meu tio que não tinha filhos e não queria saber de nós para nada. Ficou doente. Caiu nas minhas mãos. Ao final pedia perdão. Uma prima disse-me para eu oferecer essa esmola pela família".

9,7 no Booking e recebem pessoas como família

Junto à casa de Crisália estão algumas das onze casas da Aldeia Turística do Codeçal, que agora, apesar de nove estarem reconstruídas, também estão vazias. A obra é fruto do "investimento de uma vida" de Osvaldo Magalhães, de 67 anos, natural de Resende, onde tem um negócio de móveis, também fechado até à data, graças à pandemia de covid-19.

Senta-se em frente à lareira, na sala de jantar decorada com mobília restaurada pelo próprio. Não se conforma que não se aceite algo para beber. "Nem um copinho de vinho?". A avaliação "excepcional" marcada no Booking com 9.7 em dez pontos, deve-se ao facto de terem por hábito "receber as pessoas como família".

Osvaldo Magalhães recuperou nove casas da aldeia e tem mais duas por reconstruir.
Osvaldo Magalhães recuperou nove casas da aldeia e tem mais duas por reconstruir.
Rui Oliveira/Contacto

"Sinto muita falta, muita muita muita falta do convívio. Já temos os clientes habituais que vêm três, quatro vezes por ano também. Estrangeiros que vêm todos os anos, agora tenho muitas saudades dessa parte social". A acompanha-lo na aventura de gerir o empreendimento está Julieta, natural da Régua, que mesmo confinada diz nunca faltar o que fazer.

Já ali mora há oito anos e até já está recenseada. Osvaldo descreve a aldeia como o paraíso na Terra, apesar da vida ser "difícil". Julieta encarou a possibilidade de viver na aldeia com romantismo: pensou que seria uma pequena comunidade que partilharia um sentimento de família, união. Mas essa ideia "desvanesceu rapidamente" ao aperceber-se que por ali é “tudo muito fechado”. "São as pessoas que fazem as suas leis, que já vêm dos bisavós e nada muda, hoje a água é minha, amanhã é tua. Não há abertura, está parado no tempo". Mas diz que é um bom sítio para se viver quando se é solitário. “Os que ainda moram cá são os resilientes, os outros foram todos para fora ou morreram”, afirma.

Apesar das diferenças sociais, Julieta diz que se mantém bem por aqui. "Tenho a capacidade de estar bem, tenho sempre tanto que fazer. E é curioso para mim. Ir assimilando as culturas, as informações. Há respeito por eles e pela cultura deles. Mas ainda ouço "vão para a terra deles" muitas vezes", conta com bom humor.

"Este ano foi completamente atípico. Sinto saudades de hóspedes que são recorrentes. Sinto saudades das pessoas, do abraço, do beijo. Aquela partilha de energia, sinto muita falta. Acho que se transmite imenso num abraço. Sinto falta”.

Julieta mudou-se para a Aldeia do Codeçal há oito anos.
Julieta mudou-se para a Aldeia do Codeçal há oito anos.
Rui Oliveira/Contacto

Osvaldo conta que esta era a zona para onde vinha caçar perdiz há 30 anos, animal que entretanto terá desaparecido da zona por falta de alimento. "De inverno pedíamos aqui uma cozinha velha e fazíamos hortaliça, troncha da serra, feijão que já trazíamos cozido, batatas, tudo num pote de ferro ou grelhávamos bacalhau ou carne.Um vizinho gostava tanto dessa comida que ia almoçar connosco todos os domingos", lembra com boa disposição.

Um certo dia Osvaldo perguntou se não se arranjaria um "barraco" para terem onde comer. "Quê? Você quer vir para aqui?", ter-lhe-á perguntado o vizinho. "Respondi: Quero! Então apresentou-me a primeira casa que reconstruí, já há 25 ou 26 anos", conta com entusiasmo. A primeira casa "foi barata", custou 75 contos (375 euros) mas com a reconstrução foram valorizando, a última, que ainda está em ruínas já custou 2500 euros. No início não havia intenção de fazer turismo."Enterrei aqui o meu dinheiro todo. Quando já tinha algumas casas é que pensei: porra isto também já é demais, vamos pô-las a render alguma coisa!".

Osvaldo conta que esta era a zona para onde vinha caçar perdiz há 30 anos, animal que entretanto terá desaparecido da zona por falta de alimento.
Osvaldo conta que esta era a zona para onde vinha caçar perdiz há 30 anos, animal que entretanto terá desaparecido da zona por falta de alimento.
Rui Oliveira/Contacto

"Estou há dois meses que estou aqui confinado, encantado da vida mas não entra dinheiro, que é com o que se compra os melões", diz entre risos e as mãos apontadas para o ar, entretanto muda de tom. É que 2020 já foi um ano muito diferente."Isso é que é complicado, mas pronto uma pessoa também reduz às despesas. Esperemos que mude rápido. Mas aqui não se passa nada, só se alguém vier para cá com isto, aqui anda tudo sem máscara".

A não ser Maria de Jesus, de 56 anos, que como vai aos seus animais com frequência no concelho vizinho, até sozinha no campo anda de máscara "até me esqueço. É mais uma peça de roupa que uma pessoa agora usa. Não gosto muito disto, mas enfim. Ninguém gosta". Apesar de ter o rosto tapado nota-se um sorriso constante. Está a varrer com uma vassoura improvisada a entrada dos "barracos". Crisália já faz companhia e comenta a amiga com carinho: "Esta mulher pode andar a casa à morte está sempre a rir-se". Maria dá uma gargalhada.

Maria de Jesus e Crisália são vizinnhas e amigas.
Maria de Jesus e Crisália são vizinnhas e amigas.
Rui Oliveira/Contacto

“Que adianta estar triste? Ninguém vai pagar as minhas dívidas…também não as tenho”, ri-se de novo. "Sou pobre, mas também não adianta estar triste. A vida são dois dias. E este se calhar este já vai a meio. A boa disposição traz saúde. É a boa disposição e o sol", diz despachada.

Vive da agricultura e tem oito vacas. "Eu não vejo os vitelos a ir, sou muito ligada a eles. Não mato nem que seja um pássaro, tenho pena. Nós se pensarmos na nossa vida, a vida deles é igual à nossa". "Aqui também tenho coelhos e galinhas", descreve enquanto baixa a máscara e pega num dos animais que deixa fotografar.

De pele morena e cabelo escuro, Maria fala depressa. "O vírus veio, agora ir não sei como. Eu sou optimista. Esperemos que passe depressa. Isto conforme veio também há de ir. Demorará mas também não sabemos já ao tempo que isto anda pra vir. Mudou a vida de repente. Então não mudou? De um dia para o outro caiu o chão aos pés da gente. É a vida".

Na aldeia não há sinal da doença e a vida não mudou muito. "Já estamos feitos a este ritmo, não temos diversões nenhumas, nem nada. Eu não sou rica, sou pobre, mas ao domingo gostava de ir a um lugar comer, mas assim não dá. Nunca ia muito longe, mas uma pessoa enquanto ia distraía um bocadinho, nós também temos de ver outras pessoas. Deus deu a boca e a língua para nós convivermos e a gente assim nem convive e até tem medo".

Adianta logo que não é medrosa, e o medo do vírus não é suficiente ao ponto de a impedir de convidar para que entremos em sua casa para a mostra de fotografias dos antepassados, das filhas e do neto de 14 anos. Maria nasceu em Ovadas, no concelho de Resende, mas já mora no Codeçal há 28 anos, onde também se juntou a sua mãe de 81 anos. 

A mãe de Maria de Jesus, sentada de chapéu de palha, acompanhada de Crisália, de lenço.
A mãe de Maria de Jesus, sentada de chapéu de palha, acompanhada de Crisália, de lenço.
Rui Oliveira/Contacto

Além das saudades que tem das filhas emigradas na França e na Suíça, pergunta-se como será o futuro próximo. "Mas e o verão? No verão é que se nota mais a diferença. Sempre havia bailaricos, festitas da aldeia e a gente ia ver mas agora não há nada. Eu gosto muito de dançar. Faz falta à gente"

A falta das festas da aldeia também se faz sentir na família de Carolina cujo rebanho de chibos, cabras e ovelhas costuma desfilar na Última Rota da Transumância, a recriação da ancestral caminhada dos pastores e os seus rebanhos que subiam à Serra do Montemuro. Por lá também se vendem os animais, mas agora “está tudo parado”.

Carolina de 65 anos, a morar no Codeçal há 42. Tem três filhos, só um deles está cá, "para ficar aqui com os pais, agarrou-se ao rebanho". O mais jovem pastor da aldeia, Zeca, com 37 anos, é de poucas palavras e desconfiado e comenta apenas que "a pandemia faz-se sentir em todo lado”, enquanto alimenta os animais. A avó, de 97 primaveras, é a residente mais idosa da aldeia. Carolina completa. “A pandemia nota-se em tudo, uma pessoa compra as comidas cada vez mais caro, é complicado. Cá se vai vivendo o dia a dia”.

O cunhado, Fernando, tem 76 anos e lembra os tempos da tropa em Cabo Verde, ou quando trabalhou em Lisboa, mas prefere a vida no campo. Vive do comércio "mas agora está tudo parado. Vendia batatas a semente e cereais. “Se não houver cuidado. Já se sabe que aquilo ataca em qualquer lado”, diz também sem máscara.

Fernando diz que considera que mora "num deserto”. “Isto agora é cada vez menos gente, ninguém quer cá ficar. É pobre isto. Mas na cidade também não se está bem. Há muita miséria. Tenho lá uma filha e sei. Olhe a pessoa está onde quer e pode".

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