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Cláudia Simões ouvida em tribunal pelo Ministério Público
Portugal 6 min. 21.01.2020

Cláudia Simões ouvida em tribunal pelo Ministério Público

Cláudia Simões ouvida em tribunal pelo Ministério Público

Portugal 6 min. 21.01.2020

Cláudia Simões ouvida em tribunal pelo Ministério Público

Bruno Amaral de Carvalho
Bruno Amaral de Carvalho
No caso da mulher que foi espancada pela polícia porque a filha de oito anos se esqueceu do passe, Cláudia Simões descreveu esta manhã ao Ministério Público o que viveu na noite de domingo.

Começou atrasada a audiência esta terça-feira do Ministério Público com Cláudia Simões, a passageira da Vimeca espancada na Amadora porque a filha de oito anos se esqueceu do passe em casa. 

A mulher apareceu diante da procuradora ainda com o rosto cheio de marcas da violência de que foi vítima no domingo à noite e o Contacto sabe que os agentes argumentaram que Cláudia Simões já estaria assim quando procederam à sua detenção. Contudo, perante a visualização de um vídeo em que um agente aparece durante detenção em cima da arguida no exterior do autocarro foi visível que a mulher não tinha ainda qualquer marca no rosto. 

Cláudia Simões, antes e depois da agressão

Nesse sentido, a procuradora pediu os vídeos do interior do autocarro da Vimeca para contrastar com as declarações dos agentes. O motorista deve ser também arrolado ao processo. Questionada sobre quando e como é que ficou com o rosto assim, Cláudia Simões explicou que foi esmurrada quando já estava algemada dentro de uma viatura da PSP. Ao Contacto, a mulher declarou que a procuradora achou estranho que uma suposta agressora estivesse naquele estado.

Vários agentes vão ser ouvidos neste processo. “Não deviam ter deixado que ele me batesse assim”, explicou Cláudia Simões ao Contacto. Perante as lesões, a procuradora sugeriu ainda que a luso-angolana fosse vista num hospital. Suspeita-se que possa ter um derrame ocular fruto das agressões policiais.

Na audiência estiveram ainda presentes representantes da Embaixada de Angola em Lisboa que não só prestaram solidariedade com Cláudia Simões como pretendem reunir com as autoridades policiais do concelho. Por sua vez, Mamadou Ba, do SOS Racismo, esteve no local, e denunciou ao Contacto o “caráter sistemático da violência policial na Amadora” que tem fundamentos racistas. Questionou também o comunicado da direção nacional da PSP que protege, uma vez mais, a atuação policial num caso polémico. O ativista afirmou ainda que já se estão a preparar protestos para denunciar as agressões a Cláudia Simões.


Espancada porque filha se esqueceu do passe
Cláudia Simões descreveu ao Contacto a noite de horror que viveu nas mãos da polícia, na Amadora, depois da filha de oito anos se ter esquecido do passe em casa.

Já o Sindicato Unificado da PSP publicou na sua página no Facebook as marcas da alegada resistência de Cláudia Simões à detenção deixou nas mãos e nos braços do agente em causa. Ao Contacto, o departamento de relações públicas do Hospital Amadora-Sintra confirmou que tanto a mulher como o agente deram entrada no equipamento hospitalar. Já na segunda-feira, Cláudia Simões admitira ao Contacto que mordeu o agente porque a estava a sufocar e tinha medo de morrer.


À procura da companheira

Victor Almada nasceu em Cabo Verde e veio para Portugal em busca de uma vida melhor em 1983. É um dos milhares de imigrantes africanos que contribuíram ao longo de décadas para o desenvolvimento de um país que é bem diferente daquele que existia nos anos 80. Não consegue aguentar as lágrimas quando se lembra das horas de horror que viveu a companheira, Cláudia Simões, que acabou no Hospital Amadora-Sintra, como descreveu ao Contacto, por ter sido espancada por um agente da PSP enquanto estava algemada. 

Victor Almada

“Elas não deram conta da falta do passe porque saíram de casa comigo. Eu deixei-as de carro no Babilónia e eu fui para o Cacém. No regresso, é que ela deu conta que a miúda não tinha passe. Eu ainda liguei para ver se já estavam em casa mas ela não me atendeu”, recorda.

Foi só quando lhe ligou uma tia de Cláudia Simões a avisar que se passava alguma coisa com a companheira que ficou em alerta. De seguida, ligou-lhe o sobrinho desesperado a pedir ajuda porque Cláudia estava a ser agredida por um agente. “Vem rápido que está aqui a polícia a agredir a Cláudia”, avisou Gerson. “Eu fui a correr. Ainda tive de ir buscar o carro mas quando cheguei já não estava ninguém”, explica Victor.

Foi então que se dirigiu à esquadra da Reboleira onde os agentes diziam não saber de nada. “Vocês têm rádio, têm formas de comunicar e isto aconteceu na rua. Quem é que pensam que estão a enganar?”, ripostou Victor. Com a PSP fechada em copas sobre o sucedido, decidiu que ia a todas as esquadras da Amadora até encontrar a companheira. Foi já nas Portas de Benfica que depois de pressionar os agentes soube pelo chefe que Cláudia Simões estaria na esquadra da Boba, no Casal de S. Brás.

“Quando lá cheguei, vi uma ambulância e pensei no pior. Abri a porta e vi-a com a cara neste estado”. Com lágrimas nos olhos, pede justiça contra um ato que considera racista e lembra que ele, que também tem nacionalidade portuguesa, como outros tantos africanos, ajudou a construir estradas, hospitais e escolas.

Uma noite de horror

Cláudia Simões descreveu ao Contacto a noite de horror que viveu nas mãos da polícia, na Amadora, depois da filha de oito anos se ter esquecido do passe em casa. O motorista da Vimeca chamou um agente da PSP que circulava na via pública que procedeu à detenção da mulher de forma violenta. A criança assistiu a todas as agressões até à mãe ter sido levada para uma viatura da PSP. O Contacto comprovou que a menina de oito anos tem de facto passe.

A PSP diz que este agente terá sido agredido por várias pessoas mas simultaneamente refere que conseguiu levar a detenção a cabo “utilizando a força estritamente necessária para o efeito face à sua resistência”. A versão de Cláudia e de Gerson é muito diferente. “Ele agarrou-me, fez um mata-leão e caiu comigo de costas”, denuncia a mulher. Tentou resistir enquanto sufocava e pediu ajuda ao sobrinho. “Ele vai-me matar”, recorda. Ao lado, ouvia a pequena Vitória: “Não mate a minha mãe, por favor”. Ainda segundo a versão de Cláudia Simões, o mesmo agente terá empurrado a criança e continuou a apertar o pescoço da mulher. Admite que mordeu a mão do polícia como diz o comunicado da PSP mas porque estava a sufocar e pensava que ia morrer.  

De seguida, chegaram vários carros-patrulha e algemaram-na arrastando-a para uma das viaturas. “Ninguém me ajudou”, lembra. “Quando me meteram no carro eu não queria aquele polícia comigo e eles garantiram-me que ele ia noutro carro mas mentiram-me. Ele entrou para o meu lado enquanto outros dois agentes iam à frente. Durante o caminho todo fui esmurrada enquanto estava algemada. Ele gritava 'filha da puta', 'preta do caralho' e 'cona da tua mãe' enquanto me dava socos. Eu estava cheia de sangue e gritava muito. Então, subiram o volume da música para não me ouvirem na rua”.   

A PSP confirmou a existência de uma denúncia de Cláudia Simões contra o agente que procedeu à detenção e anunciou que "como consequência direta da formalização desta denúncia, já iniciou a instrução de um processo de averiguações para, a par do processo criminal, proceder à averiguação formal das circunstâncias da ocorrência e de todos os factos alegados pela cidadã".  

O Contacto tentou por diferentes vias obter declarações do agente e da divisão da PSP na Amadora mas, até ao momento, sem qualquer resposta. 

Nota: O título e a entrada foram alterados porque até ao momento nenhum agente foi constituído arguido, de acordo com várias fontes.

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