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Cervejaria Galiza encerrou e "pandemia foi o xeque-mate". Mas há uma luz ao fundo do túnel
Portugal 8 min. 27.07.2020

Cervejaria Galiza encerrou e "pandemia foi o xeque-mate". Mas há uma luz ao fundo do túnel

Cervejaria Galiza encerrou e "pandemia foi o xeque-mate". Mas há uma luz ao fundo do túnel

Foto: Rui Oliveira
Portugal 8 min. 27.07.2020

Cervejaria Galiza encerrou e "pandemia foi o xeque-mate". Mas há uma luz ao fundo do túnel

Ana B. Carvalho
Ana B. Carvalho
Depois de uma onda de solidariedade que ajudou os trabalhadores da 'Galiza' a manterem as portas abertas, a pandemia condenou o destino da mítica cervejaria, fundada a 29 de julho de 1972.

"Já fechou, infelizmente tinha de ser. Não havia hipótese", lamenta António Ferreira, que serviu à mesa na Cervejaria Galiza, no Porto, durante 33 anos e foi, desde o final do ano passado, um dos membros da nova comissão de gestão de trabalhadores que impediu o estabelecimento encerrasse. "Olhe agora ando aqui a fazer umas obras cá em casa, a pintar, também para me desanuviar um bocado a cabeça, desviar um bocadinho a atenção". 

Em janeiro, ao Contacto, contava com entusiasmo, apesar do cansaço, enquanto olhava para o balcão com francesinhas prontas a servir, que aquelas paredes já ali guardavam "toda uma vida". Agora, ao telefone, a voz tem outro sabor. 

"Era complicado e o pessoal já estava a ficar desanimado. Estava-se a fazer um esforço há muito tempo e havia cansaço psicológico", lamenta. "Isto foi um bocadinho difícil, emocionalmente eu estava muito ligado à casa, mas pronto, tive de me convencer, também graças à ajuda familiar para conseguir ultrapassar estas coisas".

Trata-se de uma luta que já durava desde o dia 11 de novembro, quando os cerca de 30 trabalhadores da Cervejaria Galiza ocuparam o restaurante e impediram que se esvaziasse o local, pela calada da noite, e os despedissem sem qualquer explicação. Desde então, foram os próprios trabalhadores, alguns com décadas de serviço à casa, a tomar as rédeas da situação com uma gestão diária do espaço e vigília noturna permanente. Nuno Coelho, do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Hotelaria, Turismo, Restaurantes e Similares disse ao Contacto, na altura, que o caso era insólito por "terem sido os trabalhadores a conseguir que a empresa recuasse no fecho do estabelecimento".

A empresa a cargo da Cervejaria Galiza tinha interposto um recurso para um Processo Especial de Revitalização, aceite pelo Tribunal do Comércio de Vila Nova de Gaia numa tentativa de salvar a situação financeira do estabelecimento. Nessa altura, porém, além dos cerca de dois milhões de euros em dívidas ao fisco e à Segurança Social, somava-se ainda o atraso nos pagamentos do subsídio de natal de 2018 a segunda tranche do salário desse mês.

A função de encontrar solução para o desfecho da emblemática cervejaria fundada em 1972 passaria então para o Ministério do Trabalho, e a empresa, os representantes dos trabalhadores e o sindicato reuniram várias vezes a partir de dezembro na Direção-Geral do Emprego e das Relações do Trabalho, no Porto. Nas reuniões, houve a promessa do avanço de um processo de insolvência controlada e da recuperação da empresa, o que salvaguardaria os postos de trabalho. Algo que nunca se concretizou.

Entretanto, em janeiro, os trabalhadores festejavam a onda de solidariedade dos clientes da Galiza e, apesar do cansaço, o balanço promissor e a nova direção que o navio tomava. Saldaram as dívidas com os fornecedores, pagaram o subsídio de natal de 2018 e 2019, bem como os salários dos últimos três meses de 2019, sobrando "apenas", as dívidas ao Estado.

Mas entretanto, a pandemia. "Já não dava mais. A pandemia foi o xeque-mate.", lamentou António. Apesar das dificuldades, a Cervejaria Galiza, emblemática casa na cidade do Porto, manteve-se sempre aberta com o serviço de take-away. A atividade baixou para "cerca de 20 a 25% daquilo que era habitual", com exceção dos fins-de-semana, que ajudavam a recuperar e "a equilibrar um bocadinho". 

"Estou bastante triste, eu e uma grande parte que já estava lá há muito tempo", desabafa Luís Barbosa, que serve à mesa na Galiza há 36 anos. "Principalmente os que têm contacto com os clientes, como é o meu caso, sentíamos a vontade dos clientes para que se mantivesse aberto, e tínhamos sempre força para manter aquilo aberto".  Luís também foi um dos membros da comissão de gestão de trabalhadores, assumindo a responsabilidade extra da faturação. A expectativa é o único estado a que se resume o seu espírito atual e partilha da esperança de António, já que no dia 4 de agosto está marcada uma assembleia de credores com possíveis futuros investidores. 

"Não houve nada a fazer. A pandemia foi fatal". Explica que a empresa não teve direito a lay-off. "Éramos 30 empregados e a faturação de 20 e poucos mil não dava. De 125-140 mil passamos a facturar 20 e tal mil, não houve hipótese", comenta.  


Porto, 06/01/2020 - A Cervejaria Galiza, que ultrapassou uma situação complicada mas seus funcionários impediram o encerramento da casa, agora são eles próprios que gerem a casa, a até ficam lá de guarda toda a noite para não ser possível os senhorios levarem nada.
(Rui Oliveira/Contacto)
Porto. A aventura dos trabalhadores da Cervejaria Galiza
Os 30 funcionários bateram o pé e ocuparam o seu trabalho, uma onda de solidariedade por parte dos clientes e o recuo da decisão do encerramento da casa.

Segundo António, com a reabertura a 18 de maio, em que o restaurante podia reabrir com 50% das mesas, "veio algum alento" e conseguiram-se pagar mais alguns salários, mas "já não dava". A insolvência aconteceu a 8 de junho e os trabalhadores "ainda aguentaram até ao dia 7 de julho", exatamente um mês depois da insolvência ter sido declarada. O administrador em comando ter-lhes-á dado "alguma abertura". "Ele não quis tomar logo a decisão de fechar o estabelecimento. Após uma reunião com a comissão de trabalhadores em que expusemos a realidade toda, dissemos que éramos capazes de levar aquilo para a frente", conta António. 

Com a condição de que teriam de conseguir pagar os impostos, foi-lhes dado um voto de confiança, mas por volta do dia cinco do mês de julho, com as contas feitas aperceberam-se que não ia ser sustentável. "Então aí o gestor reuniu com o pessoal todo, e no dia sete tomámos a decisão em conjunto, perante todas as condições que tínhamos, que era melhor optar pelo encerramento e esperar com serenidade o desfecho da assembleia de credores".

Mas Luís está certo que se não fosse a pandemia estariam abertos pelo menos até ao dia 4 de agosto, até à assembleia de credores e eles próprios poderiam resolver o que têm a resolver. Só que a faturação não era suficiente".

A 4 de junho, o juiz Sá Couto, do Juízo de Comércio de Vila Nova de Gaia, declarou "em estado de insolvência" a Sociedade Atividades Hoteleiras Galiza Portuense, proprietária da Cervejaria Galiza, na sequência do requerimento apresentado pela Sociedade Real Sabor, de Vila Nova de Gaia, no qual reclama 11.951 euros.

Segundo a agência Lusa, o tribunal nomeou Ricardo Passagem como administrador de insolvência, que deveria "proceder, de imediato, à apreensão de todos os bens do insolvente, ainda que arrestados, penhorados ou por qualquer forma apreendidos ou detidos, seja em que processo for, com ressalva dos que hajam sido apreendidos por virtude de infração, quer de caráter criminal, quer de mera ordenação social". O juiz fixou ainda "em 30 dias o prazo para a reclamação de créditos" por parte dos credores.

Segundo António Ferreira, na reunião com o administrador de insolvência, em julho, chegaram "a consenso que não dava para continuar". Mas só se convenceu a maioria porque "havia desespero de alguns trabalhadores e preferiam receber o fundo de desemprego do que aceitar o corte salarial de um terço, que foi proposto pelo administrador da insolvência", explicou Luís Barbosa. Tanto Luís quanto António admitem que preferiam a redução salarial até agosto. "Vistas as coisas agora, acho que deve haver muita gente arrependida, porque havia muita gente com medo de que não iria receber, mas o que é certo é que também ainda não receberam", comenta Luís. 

"Estou muito triste, gostava muito de trabalhar lá. E agora tive de ir inscrever-me no fundo de desemprego com esta idade, eu que nunca lá estive inscrita, até me vieram as lágrimas aos olhos", conta Margarida Sousa que trabalhava na Galiza há 16 anos, onde se tornou chefe de copa. Desde novembro, "não arredou pé" para ajudar a cervejaria a manter-se em funcionamento. "Eu acreditei que ia ficar ali até à minha reforma, mas infelizmente fechou antes. Agora ando aqui a dar umas caminhadas para ver se me distraio, mas não é a mesma coisa".

Em comunicado, o Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Hotelaria, Turismo, Restaurantes e Similares do Norte anunciou que a Cervejaria Galiza encerrava no dia sete de julho, depois de os trabalhadores não terem conseguido chegar a acordo com o administrador de insolvência numa reunião ocorrida no dia seis. 

"A direção do sindicato lamenta o encerramento da Galiza pois o restaurante é viável, mesmo em tempos de pandemia aguentou-se e os salários foram sempre pagos", escreveu a unidade sindical em comunicado.

No entanto, Luís, António e Margarida têm esperança que as portas da Galiza se voltem a abrir. Sabem, através do administrador da insolvência, que existem três possíveis interessados em "pegar na Galiza" e, aparentemente, dois deles pretendem manter a casa e os funcionários. 

"Pelo menos um deles já reuniu connosco e mostrou mesmo o interesse de manter os funcionários. Apresentou uma proposta em que fica com a maior parte dos trabalhadores. Só não fica com todos porque alguns não querem ficar, que já querem ir para a reforma", conta António já com um tom de voz mais animado. "Estamos um bocadinho optimistas que, se calhar, se tudo correr bem, nos finais de setembro poderemos voltar à Galiza. Temos esperança. A Galiza ainda não fechou de vez". 

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