Escolha as suas informações

Breaking News
Opinião Portugal 5 min. 27.01.2022
Legislativas

Breaking News

Legislativas

Breaking News

LUSA
Opinião Portugal 5 min. 27.01.2022
Legislativas

Breaking News

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
Mas, nos tempos que correm, o que é exactamente uma derrota? O acto de perder eleições? O acto de ganhar eleições sem uma maioria parlamentar? Perder ganhando? Ganhando perdendo?

Que importa estar em estado de pré-afonia quando se discursa para um deserto que, ainda por cima, é o que melhor traduz o programa do partido, onde nem uma alminha, nem uma, nem mesmo um desses perigosos gitanes com uma caixa de chiclets se encontrava no perímetro, para dar aquela emoção de perigo iminente que o candidado da extrema-direita tanto aprecia e, claro, para manter acordados os seguranças, que não podem jogar à sueca, porque não é lá muito estético e por causa daquele homicídio qualificado, na forma tentada, do candidato do Chega em Moura a uma família dessa nacionalidade, com filhos menores, motivado, pasme-se, por ódio racial. 

O Chega despediu-se do Algarve mas, em Vila Real de Santo António, o Algarve não foi despedir-se do Chega, isto apesar do glorioso líder ter declarado que tem por esta região "good vibes", não vá andar por ali um britânico naturalizado. Para traduzir: "um sentimento  incrivelmente positivo" em terras algarvias, moços e moças elegíveis para votar, estivessem onde estivessem os seus esconderijos. 

Deve ter sido a primeira vez que André Ventura escutou o seu rouco discurso, mais por causa do eco do que de outra coisa. Uma vergonha! Uma vergonha! Redução do número de deputados! Redução do número de deputados! Fazer tremer o sistema! Fazer tremer o sistema! Eles não querem trabalhar! Eles não querem trabalhar! Mercedes à porta! Mercedes à porta! Imigrantes! Imigrantes! Acácia! Acácia! O dono já vai! O dono já vai! É só um bocadinho! É só um bocadinho! É só terminar este corridinho! É só terminar este corridinho! Querem ver isto? Querem ver isto? Este governo está marafado! Este governo está marafado! Um, dois! Um, dois! Som! Som!

Alguém dê ao rapaz um rebuçadinho do Dr. Bayard, que são tão bons que até se vendem na farmácia. Ou até não: calado, este líder fica um poeta. De certa maneira, o eco também é a repercussão sonora das nossas acções, mais ou menos como aqueles cantores românticos que fizeram carreira a cantar medley´s de outros. Raio do eco, ainda é pior que o Polígrafo. No Polígrafo as mentiras são desmascaradas de uma forma desinteressante, numa escala de pimenta na língua, mas já ninguém liga ao que lá é dito. Já o eco não é a mesma coisa. O eco não só as replica, como as atira de volta, como se fosse ditas por outra pessoa, como se fossem dois Ventura em vez de um, como se um já não bastasse.

Não foi muito agradável o eco que fez Rui Rio com um intervalo de 13 dias. Não! Não! Não a uma solução que ponha o Chega na equação governativa, que funcionaria para o candidato social-democrata a primeiro-ministro como uma espécie de castração química política, com as devidas desculpas para os órgãos de gestão do partido que, curiosamente, só deixou de ficar partido no decurso da desta campanha eleitoral, a todos os títulos estranha, contrariando as mais ambiciosas expectativas, incluindo as do próprio Rui Rio, que agora se comporta como se estivesse na posse da faca e do queijo.

Uma coisa, porém, é o voto antecipado. Outra, muito diferente, as vitórias antes de tempo. Ao que parece, o PSD já ganhou estas eleições e o PS já as perdeu. Pode ser uma coisa que deixe Rui Rio muito contente, pois nunca o tínhamos visto a sorrir tanto, deixando António Costa na oposição, o que não terá adesão à realidade, já que o primeiro-ministro já anunciou sobejas vezes que se demitiria em caso de derrota.

Mas, nos tempos que correm, o que é exactamente uma derrota? O acto de perder eleições? O acto de ganhar eleições sem uma maioria parlamentar? Perder ganhando? Ganhando perdendo? Que tipo de geringonça de direita está Rui Rio apto para fazer, se deixar na oposição o Chega, que não é flor política que se cheire e temos os Açores para prová-lo. No campo das hipóteses, é possível que o Chega se transforme no eco de todas as frustações que por aí andam nas tascas, não estivéssemos a bordo de uma crise e de uma pandemia. É até possível, com todas as diferenças civilizacionais e ideológicas que devem ser assinaladas, que o Chega se transforme numa espécie de BE da extrema-direita, sem saber como comportar-se quando está do lado oposto da oposição, Deus nos livre, que é outra força a ter em conta para o gato Camões e, quem sabe, para a engrenagem de uma nova geringonça de esquerda.

Até ao momento mais esotérico desta campanha, naquele estranho comício-arruada-introspecção em Vila Real de Santo António, que já nos tinha proporcionado a visão inesquecível do grande timoneiro do Chega ao comando de uma bicicleta. Ainda bem que as ruas estavam desertas, pois até na bicla André Ventura é ziguezagueante. Perdeu-se assim para a BTT um inspector tributário, sempre lamentável. Talvez por ninguém o estar a ouvir, numa deriva quase delirante, Ventura disparou a frase do ano: "Vocês fazem-me sentir que um dia posso ter uma maioria absoluta". Importa-se de repetir, que até o eco avariou. Já não era o eco que se ouvia, era o ego. Doutor Ventura, não andará a abusar das "good vibration"? Vocês, quem? Os seus seguranças fazem-no sentir que um dia poderá ter uma maioria absoluta? Esta nem precisa de ser submetida ao polígrafo. Um dia destes ainda alguém se lembra de dizer que esta frase, proferida tão próximo de Marrocos, já terá contido pelo menos uma vaga de imigrantes.

Tudo não terá passado de um valente susto, embora não tão grande com o da tal família sueca, à qual o candidato do Chega por Moura fez tiro ao alvo, pecado dos pecados, disparando contra a sua caravana. Pronto, já passou. Foi só para dar um cheirinho de Maquiavel no deserto que tem sido esta campanha.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.