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Bebé nasce sem rosto e médico que fez ecografias é alvo de processo
Portugal 6 min. 18.10.2019

Bebé nasce sem rosto e médico que fez ecografias é alvo de processo

Portugal 6 min. 18.10.2019

Bebé nasce sem rosto e médico que fez ecografias é alvo de processo

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
O obstetra que não detetou as malformações graves, nos exames pré-natais ao Rodrigo, nascido há 11 dias, em Setúbal, já tem oito queixas contra si.

Bebé nasce sem rosto por causa de ecografias mal analisadas

 

Um bebé nasceu sem olhos, nariz e sem parte do crânio, no Hospital de São Bernardo, em Setúbal, no passado dia 7 de outubro, malformações graves que chocaram a equipa médica e os pais.

A mãe do recém-nascido, Rodrigo, fez as três ecografias de acompanhamento numa clínica privada em Setúbal, e o obstetra que as realizou sempre disse que estava tudo bem. Só que não estava e o médico não detetou os graves problemas do feto, noticiou o Correio da Manhã.

Foi só num último exame, uma ecografia 5D realizada noutra clínica quando os pais foram alertados para a possibilidade de que o seu bebé viesse a nascer com problemas. De acordo com declarações da madrinha de Rodrigo, ao Correio da Manhã, os pais contactaram Artur Carvalho que os terá descansado, dizendo que estava tudo bem.

 

 A ausência de olhos deteta-se logo no feto com 12 semanas de gestação e ausência de nariz às 22 semanas, explicou Álvaro Cohen, Associação Portuguesa de Diagnóstico Pré-natal ao jornal Público.

A ausência de alguns destes elementos é uma “anomalia grave” e não detetar a falta do nariz é um “erro grosseiro”, vinca este especialista que é também o coordenador da comissão técnica em ecografia obstétrica do Colégio de Ginecologia/Obstetrícia da Ordem dos Médicos.

Os pais de Rodrigo já apresentaram queixa ao Ministério Público contra este médico, de seu nome Artur Carvalho e veio agora a descobrir-se que já o obstetra já foi alvo de outras oito queixas por motivos semelhantes apresentadas ao conselho disciplinar da Ordem dos Médicos, estando atualmente quatro processos em curso, incluindo este último, de acordo com a agência Lusa.

Além de ser chefe de serviço de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital de São Bernardo, desde 1990, este obstetra também realiza ecografias em clínicas privadas há muitos anos, sendo atualmente sócio de um destes estabelecimentos em Setúbal, próximo do hospital, onde a mãe de Rodrigo realizou estes exames. Sendo Artur Carvalho o seu médico.

O caso de Luana em 2011

Em janeiro de 2011 os jornais noticiavam o nascimento de uma bebé com malformações graves, cujas ecografias de acompanhamento também tinham sido realizadas pelo médico, Artur Carvalho, lembra o Diário de Notícias.

Foi o caso de Luana que quando nasceu os médicos não tiveram coragem de a mostrar logo à mãe, como escreve este diário.

A bebé veio ao mundo com as pernas ao contrário, os joelhos a dobrar para a frente, e na face não tinha queixo.

Também neste caso, os relatórios das ecografias realizadas por Artur Carvalho indicaram que estava tudo dentro dos parâmetros normais. Só que, a mãe de Luana não realizou a segunda ecografia pois este obstetra não lhe disse que tal era necessário.

Os pais de Luana apresentaram queixa do médico, e o conselho disciplinar da Ordem dos Médicos (OM)  instaurou um processo que acabou por ser arquivado. Como os outros três envolvendo este médico que já na altura existiam. De lá para cá foram instaurados mais quatro processos contra este médico por esta comissão. Carlos Pereira Alves, presidente do conselho disciplinar da OM disse ao Público que sobre o caso de Rodrigo “não há qualquer processo dirigido à Ordem dos Médicos”

 

A possibilidade de interromper a gravidez

Tanto no caso de Luana como agora no de Rodrigo, só depois do parto é que os pais comprovaram que o seu bebé tinha problemas graves. Os médicos davam-lhe apenas algumas horas de vida, mas ele já tem 11 dias.

Em ambos os casos, bem analisadas as ecografias iriam denunciar as malformações graves de que padecem estes bebés e os pais de Luana e Rodrigo poderiam escolher, dentro dos prazos previstos na lei, se pretendiam levar a gravidez até ao fim, ou interrompê-la.

Estes problemas seriam detetados na segunda ecografia, às 22 semanas e até às 24 semanas os pais poderiam tomar a decisão e se achassem ser o melhor, interromper a gravidez. Como lembra o Diário de Notícias o prazo até às 24 semanas é dado quando a malformação não põe em causa a sobrevivência do bebé, como a trissomia 21.

Já quando as malformações colocam em causa a própria vida do bebé, dando-lhe muito pouco tempo de vida, então os médicos nem esperam que o bebé nasça, e colocam fim à vida do feto, ainda dentro do útero da mãe. Mas nestes casos, é preciso uma autorização técnica do hospital onde a paciente é seguida. Até às 10 semanas cabe apenas à mãe decidir.

O caso de Rodrigo encaixa-se neste quadro de expectativa de uma esperança de vida muito curta, por isso os médicos lhe davam apenas algumas horas de vida, embora ele já resista há 11 dias.

A importância fundamental das ecografias

De acordo com Álvaro Cohen, presidente da Associação Portuguesa de Diagnóstico Pré-natal ao jornal Público, a primeira ecografia é feita às 12 semanas para uma “avaliação dos órgãos” do feto. E já se consegue ver se “o bebé tem ou não olhos”. Neste exame deteta-se se o bebé tem algumas doenças específicas como a trissomia 21 faz-se o rasteio de complicações maternas, explica este médico.

A segunda ecografia, realizada às 22 semanas, é onde se faz uma avaliação morfológica, ou seja, das estruturas do feto. Na cabeça, recorda, têm de ser reconhecidas uma série de estruturas, faz-se a medição da cabeça, do cerebelo, ena face deve ser visto o nariz, as órbitas, os cristalinos, os lábios e nos membros inferiores e superiores têm de ser vistos os dedos”, vinca Álvaro Cohen salientando que a ausência do nariz trata-se de uma “anomalia grosseira porque faz parte da avaliação da face”.

No relatório desta ecografia, o médico tem de reportar obrigatoriamente se viu ou não viu todos estes elementos, acrescenta.

Pode acontecer por posição do feto, como ele estar de costas ou por a mãe ser obesa ou por outra situação não se conseguir realizar a ecografia, lembra este médico ao Público. “Quando o médico não vê as estruturas tem de explicar porque não viu e deverá sugerir que a ecografia seja repetida antes das 24 semanas, para tentar ver o máximo possível.”

O crescimento do bebé e os sinais de saúde são vistos na terceira ecografia.

 

Por seu turno, o Ministério da Saúde vai pedir à Ordem dos Médicos esclarecimentos sobre os processos que envolvem este médico obstetra, declarou fonte do gabinete da ministra da Saúde à Lusa dizendo que Marta Temido tem estado a acompanhar o caso.

O Ministério adianta também que “vai ainda solicitar à Ordem dos Médicos esclarecimentos sobre os processos que envolvem este médico”.


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