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Bandidos e Anjos preparavam um banho de sangue em Faro

Bandidos e Anjos preparavam um banho de sangue em Faro

Foto: AFP
Portugal 5 min. 18.07.2018

Bandidos e Anjos preparavam um banho de sangue em Faro

Do assassinato de Alcindo Monteiro até à detenção de 59 motards em Portugal, há uma história de violência crescente no chamado país dos brandos costumes. 450 inspetores da Judiciária foram chamados a desmantelar o grupo Hells Angels, em Portugal, nas vésperas de 100 bandidos entrarem no país para uma ação de vingança.

Lisboa, madrugada do dia 11 de Junho de 1995. As primeiras horas de Domingo, depois de uma final da Taça de Portugal no dia 10 de junho - em tempos baptizado pelo regime de Salazar, como o Dia da Raça. Na cidade, centenas de pessoas comemoravam a vitória do Sporting. No Rossio, a Juve Leo faz a festa banhando-se na fonte. Longe desse cenário de alegria, as ambulâncias não paravam de passar com as sirenes no máximo. Uma dezena de homens negros eram transportados para as urgências do hospital de São José. Faces desfiguradas, caras inchadas de pancada e narizes partidos. Um deles tinha o cabelo arrancado à força e a nuca macabramente amolgada. Lia-se no relatório médico deste ferido mais grave: “Hemorragias sub-pleurais e sub-endocirdicas; edema pulmonar; graves lesões traumáticas crânio-vasculo-encefálicas; lesão no tronco cerebral; edema cerebral muito marcado; fractura da calote craniana”. O homem tinha-se esvaído até ficar sem sentidos na rua Garrett, em frente à montra da luxuosa loja da Gianni Versace. Encontraram-lhe no bolso uma velha carteira com o Bilhete de Identidade português, pouco dinheiro e um caderninho com números de telefone. Tinha 27 anos, chamava-se Alcindo Monteiro, negro, e foi espancado até à morte, perante a indiferença dos que passavam. 

No centro de Lisboa, a poucos metros do largo contingente que fazia a guarda do Governo Civil, uma noite de violência decorreu em pleno Bairro Alto. Só depois da 2.30 horas da manhã que a polícia começou a atuar. Prendem nove pessoas, sete homens e duas mulheres, um grupo facilmente identificável pelo o uso de vestuário normalmente associados aos boneheads, os skinheads fascistas ou nazis. Passados os primeiros interrogatórios, mais dez indivíduos são detidos. Neste grupo apanhado pela polícia, entre os 40 que participaram nas agressões da noite, vão encontrar-se Mário Machado, 2º cabo da Polícia Aérea, anos depois líder dos Hammerskins, fação mais violenta dos cabeças rapadas de ideologia nazi, e, recentemente, fundador do capítulo do grupo de motards Los Bandidos em Portugal, e um skin que tem como alcunha Rambo, que posteriormente será preso em julho de 2018, na operação que vai deter cerca de 60 pessoas ligadas ao grupo de motociclistas Hells Angels, que meses antes tinha atacado membros do Los Bandidos num restaurante do Prior Velho, ataque que deixou três feridos graves e a que Mário Machado se safou por ter chegado atrasado.

As ligações e choques entre Mário Machado e os Hells Angels têm uma longa história: em 2009, Mário Machado terá baleado na perna “Thor” dos Hells Angels, por causa do motard não autorizar a constituição de um grupo de skinheads na sua zona, Algarve. À procura de um acordo, Machado deslocou-se ao Algarve, na companhia de Bruno Monteiro e Nuno Cerejeira, todos elementos do Portugal Hammerskins. Thor não quis conversar e Machado não hesitou e baleou-o na perna. O ferido recusou fazer qualquer declarações à polícia. Em maio de 2010, Mário Machado é julgado por raptos, tortura e agressão de traficantes de droga a quem, com os seus companheiros, roubavam e ficavam com o dinheiro dos traficantes. Posteriormente, Mário Machado viria a abandonar os Hammerskins, dirigidos então pelo seu ex-amigo Bruno Monteiro, a quem acusou de só serem “criminosos travestidos em nacionalistas”, e veio, mesmo, segundo a imprensa, a ameaçar a namorada deste, dizendo que ou lhe passava 30 mil euros ou sofria as consequências.

Dez anos depois, em março de 2018, num sábado, enquanto representantes europeus dos Los Bandidos almoçavam com os portugueses, resguardados num restaurante do irmão de Mário Machado, no Prior Velho, cerca de 20 elementos dos Hells Angels, encapuçados, invadiram o local e caíram sobre os rivais, atacando-os com facas, paus, barras de ferro e martelos. Entre os sete feridos, três estavam em estado muito grave. Um dos hospitalizados que ficou em pior estado é o líder do capítulo de Los Bandidos na Alemanha.

Mário Machado safou-se por pouco. Atrasado, o líder português chegou ao local e, ao dar conta das motos e carrinhas do grupo rival que bloqueavam as entradas da rua onde se situa o restaurante do irmão, manteve-se afastado. Só quando os outros fugiram, já com a Polícia no terreno, o líder do grupo Nova Ordem Social regressou ao local. Confrontado pelos jornalistas que ali acorreram, Mário Machado respondeu com um gesto – passou com a mão rente ao pescoço, evocando a imagem de uma decapitação – e fez uma promessa: “A festa não acabou, vocês com certeza vão ter muito para falar no futuro!”.

Há cerca de uma semana, segundo garante o “Diário de Notícias”, o SIS veio alertar para o elevado risco da habitual concentração de motards em Faro, que decorre entre 19 e 22 de julho, poder-se transformar num banho de sangue. As secretas portuguesas (SIS) consideram provável poder haver uma vingança dos Bandidos ao ataque no Prior Velho. Os espiões tinham relatos de movimentações de elementos dos Bandidos na cidade de Faro - possivelmente estariam a reunir e a esconder antecipadamente armas, para que não fossem detectadas pelas autoridades nas habituais operações stop que antecedem o evento motard. O SIS aventava a possibilidade dos Bandidos entrarem no recinto do encontro motard em carrinhas pick up, que alugariam em Espanha, para atropelar membros dos Hells Angels - um pouco à semelhança de outros ataques terroristas internacionais. Com milhares de pessoas nas ruas apanhadas neste ajuste de contas. Um cenário de terror.

Toda esta operação seria executada por uma unidade especial dos Bandidos, composta essencialmente por elementos alemães, da nacionalidade do chefe ferido, que se deslocariam a Portugal. Conhecidos pela designação irónica de: "Taking Care of Bussiness" (TCB), uma centena deles estaria junto à fronteira espanhola, em prevenção.

Perante este cenário, o diretor nacional da Polícia Judiciária, Luís Neves, decidiu então lançar uma operação com cerca de 450 inspetores. Entre os detidos figuravam um mestre de artes marciais de 69 anos e um antigo skinhead que dá pelo nome de Rambo.

Nuno Ramos de Almeida

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