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Avenida da Liberdade: A aritmética de Santana
Editorial Portugal 3 min. 20.09.2018 Do nosso arquivo online

Avenida da Liberdade: A aritmética de Santana

Avenida da Liberdade: A aritmética de Santana

Foto: Reuters
Editorial Portugal 3 min. 20.09.2018 Do nosso arquivo online

Avenida da Liberdade: A aritmética de Santana

Sérgio Ferreira Borges
Sérgio Ferreira Borges
À hora a que esta edição chegar às mãos dos leitores, já Pedro Santana Lopes terá entregue, no Tribunal Constitucional, mais de 7.500 assinaturas que vão legalizar o seu novo partido, o Aliança.

Com isto, estão lançados os dados para mais um episódio que pode, ou não, entrar na história da democracia portuguesa.

Não se vê grande entusiasmo, à volta do novo partido. Mas os que acompanham Santana Lopes não escondem o seu otimismo que radica nas contas feitas, a partir dos valores das últimas eleições internas do PSD.

Na altura, Rui Rio venceu, com 54,15% dos votos, contra os 45,85% obtidos por Pedro Santana Lopes. Os apoiantes na nova Aliança acham que Santana Lopes não consegue levar consigo todos os votantes que o apoiaram nas eleições de 13 de fevereiro. Mas acreditam que pode atrair uma parte substantiva. Falei com um deles. E a conversa não ficou por aqui.

Se a votação interna de Pedro Santana Lopes se refletisse no eleitorado das legislativas, o Aliança poderia ter um valor ligeiramente superior a 8%, o que lhe garantiria um grupo parlamentar superior ao do CDS.

Apesar de os números, quando falam, serem eloquentes, isto parece-me apenas um desejo que pode estar longe da realidade. Repare-se, por exemplo, que o universo eleitoral interno do PSD é baixíssimo. São pouco mais de 70 mil votantes e, destes, só 42 mil exerceram o direito de votar. Pouco mais de 60% foram às urnas. Portanto, nem Santana, nem Rio conseguiram mobilizar vontades dentro do partido. Dentro do universo eleitoral para as europeias e legislativas, essa tarefa pode ser ainda mais difícil, sobretudo para Santana Lopes, porque é dele que agora falamos. A vitória que obteve contra João Soares, para a Câmara de Lisboa, nunca mais se repetiu. A sua passagem pela chefia do Governo não deixou saudades e o eleitorado castigou-o nas eleições seguintes, dando ao Partido Socialista, com José Sócrates, a sua única maioria absoluta.

Depois disto, perdeu duas eleições diretas no seu partido, em 2008, contra Manuel Ferreira Leite, e em 2018, contra Rui Rio. E pode dizer-se que, em 2006, perdeu contra Luís Filipe Menezes por falta de comparência. Antes, tinha perdido contra Durão Barroso e Fernando Nogueira.

Se as coisas não lhe correram bem, dentro do PSD, muito dificilmente vão correr-lhe melhor num universo nacional.

A solidariedade, em política, passa muitas vezes pelos partidos. E muitos dos que, ao longo dos anos, apoiaram Santana Lopes, só o fizeram porque ele estava no PSD. Fora do partido, poderão deixar de segui-lo. Mesmo com a oposição interna a Rui Rio em crescendo, Santana Lopes não pode iludir-se, pensando que vai colher votos e apoiantes entre esses contestatários. Eles estão muito ativos, mas querem a liderança do partido para um deles, não querem seguir atrás de uma aventura que ninguém sabe o que pode valer. Mais ainda: o PSD é um partido de poder que, a prazo, voltará a ser governo e, nessa altura, terá muitos cargos interessantes para oferecer. Um novo partido, que na mais delirante das hipóteses pode valer 8%, não terá grande coisa para oferecer a pessoas que orientaram as suas vidas para o carreirismo político.

Sondagens recentes ainda não conseguiram contactar qualquer futura intenção de voto no Aliança, o que significa que está em zero técnico. Não é uma surpresa, nem sequer significa que as coisas estejam tão mal assim. O partido só pode ser medido depois de criar uma imagem e vários multiplicadores de opinião, fundamentais, para se dar a conhecer. Portanto, ainda é cedo.

Mas Santana Lopes tem muito trabalho pela frente, se pretender que o seu novo partido entre na história da democracia portuguesa. Para já, tem de pescar à linha, dentro do PSD, alguns quadros com destaque técnico e político. Depois, virá a pesca de arrasto, aquela que trará os votos.

Rui Rio e Assunção Cristas devem estar atentos, sobretudo o primeiro. Mesmo que Santana Lopes fique longe dos 8%, pode obter uma micro-votação, decisiva para a derrota de Rio.


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A análise de Pedro Santana Lopes está errada, porque ele confunde os seus desejos com a realidade.