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Autárquicas portuguesas. Vai passar a procissão
Portugal 21 min. 24.09.2021
26 de setembro

Autárquicas portuguesas. Vai passar a procissão

26 de setembro

Autárquicas portuguesas. Vai passar a procissão

Ilustração: Contacto
Portugal 21 min. 24.09.2021
26 de setembro

Autárquicas portuguesas. Vai passar a procissão

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
Esta campanha autárquica é mais uma telenovela de produção nacional. É na TV e nas redes sociais que tudo decorre.

Esta é daquelas alturas psicadélicas em que os jogos de dominó são interrompidos no jardim, as desgraças nada podem contra as soluções, em que impossíveis não há e o mundo, tal como o conhecemos, porta a porta, freguesia por freguesia, se vai tornar idílico, em que os esquecidos não se esquecem e os desfavorecidos se favorecem e os atropelos se desatropelam e todos contam e ninguém fica para trás e se vai acabar de vez com as vergonhas debaixo do céu, os PDM´s vão ficar catitas, a pobreza vai ser erradicada, nascem maternidades como cogumelos, há mais pontes do que rios, o país rejuvenesce, o interior torna-se num mar de gente, os emigrantes regressam, os jovens permanecem, há trabalho e teletrabalho, emprego para dar e vender, saúde na doença, segurança nas ruas, oportunidade a cada esquina, chovem apoios sociais, habitações condignas, saneamento, reformas, intergeracionalidade, equidade, subsídios, bazucas por toda a parte, tudo ao alcance de um voto.

É daquelas alturas em que os políticos, como peixes fora de água, dispostos às mais tristes figuras, mais descansados por ser aconselhável e até desejável o álcool-gel, descem à terra em mangas de camisa e se tornam seres visionários, bebendo penalties de tinto, comendo bifanas, pisando chão duro, fazendo da plebe um plebiscito, fazendo os possíveis para comunicar no mesmo dialecto, personalizando o povo enquanto se faz passar por este, alguns prometendo fazer o que não conseguiram, outros prometendo fazer o que os outros prometeram e não fizeram, reinventando como podem as mais provectas ladainhas, como aquela de transformar cada um dos munícipes numa prioridade. É nesta altura que as pessoas são quem mais interessa, não é verdade? Dizem que sim. Daquelas alturas em que o cão persegue a sua cauda. Como uma religião, que promete a salvação a troco de um dízimo. Todo o cerimonial pré-sufrágio tem algo de religioso. Não envolvesse promessas, votos, urnas e, se Deus quiser, a cruz no nosso quadradinho.

Por estranho, algo distingue esta campanha de outras campanhas autárquicas: a sua velocidade estonteante, à qual já alguém chamou apropriadamente de "Fast & Furious". Os líderes partidários têm andado a acumular milhas de norte a sul, como se não houvesse amanhã. À chegada de António Costa à cidade de Faro, um jornalista mais expedito, não foi de modas: "Senhor primeiro-ministro, como é que chegou de Lisboa a Faro (277,2 quilómetros, mais coisa, menos coisa) numa hora e quarenta?" António Costa, no seu lendário savoir faire, a testa um pouco suada, o cabelo em uniformidade de branco sobre a face bronzeada de quem não prescinde de gozar pelo menos 15 dias de férias no Algarve (ele próprio o disse), o tradicional optimismo „irritante“ aliado a um sorriso bazuqueiro, respondeu não respondendo a essa questão em particular. 

E esta coisa da velocidade dos carros de Estado, depois do trágico acidente na A6, que envolveu a viatura oficial de Eduardo Cabrita, o indemissível ministro da Administração Interna, tendo deixado uma vítima mortal, uma família sem eira nem beira e um certo desconforto no Governo, começa a tornar-se recorrente. Ainda no outro dia veio à estampa que o primeiro-ministro tinha feito em menos de duas horas os 300 e tal quilómetros entre Vila Nova de Gaia e Lisboa. Será que o Plano de Recuperação e Resiliência, o famigerado PRR, a mãe de todas as bazucas, já fez das suas? Será que Portugal já é servido por um TGV e ninguém sabe? Se fosse o caso, com certeza que por estes dias já teria sido inaugurado umas quantas vezes. Como o primeiro-ministro também não se deslocou a Faro num caça da Força Aérea, o que seria um erro de palmatória, em plena campanha eleitoral a única conclusão plausível é que os jornalistas não podiam estar bons da cabeça. 

O que, aliás, não deixa de fazer algum sentido. Toda a gente menos os políticos já percebeu que estas campanhas do comício e da arruada, dos mercados e das feiras, do brinde e do abracinho, já foi chão que deu uva. A impressão que dá é que só incomodam as pessoas, que tratam as comitivas com uma certa condescendência, exactamente como a generalidade dos políticos faz com eles, diga-se de passagem. A chamada campanha eleitoral clássica já está para lá de demodé. É mais ou menos como aquelas fábricas de conservas em Matosinhos que ainda param para rezar um terço. A existência destas campanhas e a sua cobertura é um fenómeno circense de autofagia galopante, como aqueles casais que não se separam para não ter que mudar de casa.

Se há coisa que Lisboa tem, embora em minoria, são lisboetas. A dona não sei quantos, que mora em Alfama e num primeiro andar, ouviu um ruído anormal lá em baixo. Apitos e vozes megafónicas e soundbites de trazer por casa e mais não sei quê. Foi à janela, para ver o que se passava. Da sua janela, se esticasse o braço, podia apanhar a roupa da vizinha. Se quisesse poupar na conta da EDP, que implica a taxa para a RTP e mais uma data de coisas que ela tem de pagar sem saber, como quase todos nós, podia desligar a sua televisão e ouvir do outro lado a telenovela. Ou as notícias: "A campanha de Fernando Medina desloca-se esta tarde ao tradicional bairro de Alfama".

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Olha... nem de propósito, lá vinha a trupe quadrienal a descer a calçada, com as suas t-shirts, os seus bonés, as suas bandeirinhas, atrás do candidato, por sua vez uma extensão do aparelho socialista. Um putativo número dois putativo número um em campanha, mesmo com máscara, é sempre uma coisa digna de se ver.

Onde é que ela tinha deixado a bandeira do PS que lhe tinham oferecido nas últimas eleições, em que ela e o prédio eram quatro anos mais novos? Caraças, pá! "Ó Medina, aguenta aí, meu!" Em campanha, as pessoas já aprenderam que podem dizer o que quiserem ao políticos, sabendo que lhes entra por um ouvido e sai pelo outro. É um acordo mútuo escrito no vazio: os eleitores fingem que acreditam nas promessas e os candidatos fingem que registam o que lhes dizem. Em campanha, os políticos acham graça a tudo e mais alguma coisa que não lhe seja atirado à cara. É preciso ter cuidado. Hoje em dia não se sabe se a cada janela não haverá um negacionista, com acusações e máscaras para atirar. Neste dia, Medina optou por uma KN95, com válvula de respiração, de tons nenúfar, para fazer pendant com a sua camisa, em falso negligé com umas calças azuis, daquelas que se usam quando se está de férias ou em campanha eleitoral, períodos raramente coincidentes.

Uma campanha política num período de férias seria psicodramático, algo que os políticos só utilizam como último recurso. "Sôdotoure, é só um bocadinho, que eu já venho!" Toda a comitiva, que ali tinha chegado acenando a toda a gente com ares de quem se tinha cruzado com amigos de infância, ficou de máscara para o ar, como se tivesse bilhete para uma aurora boreal. Com o aquecimento global, um gajo sabe lá...

Querida munícipe, tinha todo o tempo que o erário público tinha para lhe dispensar, desde que não exagerasse. Se fosse preciso, ofereciam-lhe uma bandeira do PS novinha em folha, embora este acto não valesse um átomo do outro em contexto eleitoral. Ainda por cima, com a câmeras das televisões au point. Para gáudio da comitiva, já um pouco impaciente, eis que a dona não sei quantos reapareceu à janela com a bandeira certa no momento certo, embora enrolada no pau, salvo seja. Ante tamanho aparato, ela bem tentou desenrolá-la como se a desfraldasse, mas não conseguiu, talvez por estar nervosa, talvez por ter um elástico a prendê-la. Era, no entanto, bem visível que se tratava de um estandarte socialista, com uma rosa nos perdidos e achados daquela circunstância. Que momento exultante para a história do socialismo: lá em cima o eleitorado, cá em baixo o eleito, entre eles uma bandeira que teimava em não se expor, muito menos da forma que se expõem os candidatos quando apelam ao voto.

As imagens que se seguiram foram de certo modo esotéricas, de certo modo dispensáveis no imaginário de quem as viu. Empoleirado nas costas de um acólito vestido exactamente da mesma forma que ele só que em melhor forma, ambos amparados por um terceiro elemento, vestido de igual, por sua vez amparado com os olhos por um séquito de outras fashion-victims, Fernando Medina, cicloviómano bipolar numa constante fase maníaca, fazia de tudo para manter intactos os traços da sua jovialidade perdida, sabe-se lá há quanto tempo, em que quadrante da Invicta. Ficou para posteridade aquela foto dele a ir de encontro daquela alfacinha típica, que se inclinou, mas só quanto baste. Aquela, ela sabia de gingeira, era uma daquelas raras circunstâncias em que os políticos, por um voto, são capazes de trepar pelas paredes. Alguém lançou o repto para as câmeras. "Gostava de ver o dr. Moedas a fazer isto..." A micro-multidão despertou da letargia: "Medina! Medina! Medina!" Medina não podia acenar. Estava agarrado à bandeira.

Por terras do major

Vindo sabe-se lá de onde, para não ter que se calcular no tempo os quilómetros percorridos, chegou Jerónimo de Sousa à freguesia de Fânzeres, concelho de Gondomar, onde não há muito tempo, no pontificado do major Valentim Loureiro, se distribuiam electrodomésticos, mesmo para quem não conseguia pagar as contas da electricidade. Ver o secretário-geral do PCP a sair de um veículo topo de gama, com seguranças a abrir-lhe a porta, é como observar a vida sexual de um dormedário, mesmo que não pertença à Frente Polisário, com a qual o PCP é historicamente solidário. Jerónimo de Sousa já não vai para novo, sendo que o nome para a sua sucessão parece já ter sido encontrado no espectro comunista. Quem é o candidado presidencial do PCP? E o candidato à CM de Lisboa? E candidato ao que mais aí venha? João Ferreira. Esta campanha tem sido particularmente desgastante para os líderes partidários, embora em alguns casos o termo possa parecer abusivo. Por falar nisso, até André Ventura, que tem mais seguranças por metro quadrado do que Joe Biden, perdeu a voz, de tanto desdizer o que os outros dizem, de tanto vociferar em bicos de pés. Em estado de afonia, o líder do Chega é um poeta.

Jerónimo de Sousa já tem na sua pochette política muitas batalhas. Território algum lhe causa hesitações. Levava o discurso escrito em letras garrafais. Não se pode dizer que tenha levado ali um banho de multidão. A assistência não era muita, mas era rija, uma espécie de coluna durruti geriátrica, que reagia prontamente assim que Jéronimo de Sousa carregava nos botões do capital, da luta dos trabalhadores, a política do quero, posso e mando, retirando os paninhos quentes às memórias recentes da geringonça, acusando o primeiro-ministro de andar em campanha, a arremessar a bazuca por todo o território. A bazuca tornou-se a centralina desta campanha. No dia seguinte, em Vialonga, o secretário-geral PCP, puxou de um tema bistro, algo arriscado antes do almoço: "No bife do lombo dos interesses do capital o PS não toca".

Dias antes, a Iniciativa Liberal andava a passear pela zona Oriental de Lisboa, a atirar calhaus de marketing para o chão, onde devia estar a ser construída uma promessa de sucessivos executivos camarários: um hospital. João Cotrim de Figueiredo apresentava-se em mangas de camisa, com as cores liberais e as pelosidades a céu aberto. 

E Bruno Horta Soares, candidato da IL por Lisboa, aquele rapaz que foi para o debate da RTP dizer "merda", escandalizando até o autoproclamado comunicador Nuno Graciano, candidato do Chega, que às vezes parece ter engolido o software da CMTV. Por causa da sua extrema descontracção de linguagem, Bruno Horta Soares teve de pagar as favas, sendo obrigado a usar gravatas amarelas e uma daquelas fitas, tipo Srº do Bonfim, azul-cueca.

No domingo, a IL promoveu uma arruada em Matosinhos. À velocidade com que as comitivas se movem, torna-se difícil uns não se cruzarem com outros. Não foi o caso da IL, em que a meia-dúzia de liberais presentes na iniciativa apenas se cruzaram com eles próprios. Caminhando pela marginal de Leça, João Cotrim de Figueiredo aproveitou um colar de microfones para ensaiar um discurso "tosta mista", com uma camada liberal e outra proto-comunista, falando em nome dos trabalhadores que foram despedidos na refinaria da Galp. Alguns camaradas de arruada não conseguiram esconder uma certa estranheza no discurso de tão experimentado marketeer. Vá lá que corria o vento e as bandeiras liberais compensavam o anacronismo da situação com ruído visual.

Nas estufas de sol a sol

Catarina Martins, a coordenadora do Bloco de Esquerda, elegeu para leitmotiv de toda a campanha bloquista a habitação. Só em Odemira, quando fez uma visita à verdadeira multinacional que trabalha das estufas de sol a sol para as multinacionais que os exploram, a dirigente do BE traçou o caminho contrário para aquele território pintado de branco plástico até à linha de mar, por mero detalhe incluso no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, só na teoria protegido. Catarina Martins, que tem passado os últimos dias a defender a habitação e o arrendamento acessível, para ali defende que "nem mais um metro de estufa". Depois foi embora, que estava com pressa. Nem houve tempo de dar uma saltada ao eco resort Zmar, onde o tema "habitação" também é muito caro.

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No dia anterior, Catarina Martins tinha dado ao mundo uma novidade: parece que a requalificação do bairro da Jamaica, atravessado na garganta de André Ventura como um rebuçadinho do Dr. Bayard, tem o começo previsto para 2026. No bairro, que a comitiva BE visitou, nem sabiam o que fazer com tanta e tão esfuziante alegria, guardando os sorrisos para as próximas eleições. A coordenadora do BE, mesmo noutras paragens, não perde uma unica ocasião para negar que passou um cheque em branco em Lisboa. Nos últimos tempos, o BE vive numa certa ambiguidade de oposição e de charme remoto ao PS. É também uma questão de habitação. No condomínio do poder.

"Se calhar, às vezes somos monotemáticos". Não. Acha? "Milhões para aqui, milhões para acolá. Então e as 170 mil casas, senhor primeiro-ministro? E os meios complementares de diagnóstico?", inquiriu Catarina Martins, um destes dias, já na Póvoa do Varzim. É aguardar pela bazuca, que anda a correr o país mais rápida que um fenómeno atmosférico.

"Chega! Chega!" Mas, afinal, o que é que se passava com Rui Rio, que estava de visita ao Minho e às vindimas? Que conversa era essa, líder laranja? "Só um bocadinho, só um bocadinho, não ponha mais". Ah bom, estava a falar do vinho, que uma menina em traje de folclore vertia para a sua malga. Rio tem andado bastante descontraído pelo país, como aquelas equipas que jogam contra os grandes sem ter nada a perder se não as eleições, a pedir Omega 3 em ervanárias, a aprofundar conhecimentos sobre PPR´s, a citar Zeca Afonso aqui e ali, naquela parte do "traz um amigo também", quando se refere ao voto. "Gosto muito pouco de mentir", disse Rui Rio quando foi questionado se era a primeira vez que "trabalhava" na vindima. Depois de um penalty de maduro que o fez estremecer dos pés à cabeça, pediu que lhe indicassem o caminho do palanque. É ali, dr. Rui Rio, naquele quadradinho laranja entre as uvas. Como o jejum já vai longo, a beberagem caiu-lhe na fraqueza como uma bazuca.

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No dia seguinte, a bordo de um Rolls Royce mais clássico que o mítico circuito da Boavista, o líder laranja apareceu espirituoso, pullover às costas, óculos escuros, uma certa pinta de líder à pendura. Já na ponte de Ponte de Lima, Rui Rio, assim como a comitiva laranja, parecia algo perturbado com o foguetório. Não nos podemos esquecer da ressaca do confinamento. "Isto parece a III guerra mundial, pá!", disse o líder, na sua melhor personificação popular, quase tanto quando lhe dá para puxar o tema do Rendimento Social de Inserção, vulgo RSI. Pelo menos não disse chega. Para fazer campanha pelos outros já basta a sua oposição.

Inês de Sousa Real, a porta-voz do PAN – Partido das Pessoas, dos Animais e da Natureza -, tem gerado bom ambiente por onde quer que passe, menos na selva das redes sociais, onde vale tudo, mais precisamente no Twitter, onde não vale menos.

Está bem que o PAN é pelos animais, mas também não era preciso ameaçar de morte uma líder partidária e deputada da nação, num caso logo reportado pela própria às autoridades competentes. A linguagem era de altíssimo calibre: "Ó p...., mete-te a pau com o que dizes senão vais ser morta". Mas o que é que a porta-voz do PAN terá dito para deixar neste estado este franco-twitteiro? Terá sido aquela coisa da castração em massa de todos os animais adoptados? Seria um dissidente vegan ao serviço da carne? Tê-lo-á irritado aquela ideia peregrina de fazer uma ciclovia de 36 quilómetros entre Sintra e Odivelas em alternativa ao IC19, que é tão divertido para a malta do tunning? De qualquer forma, o autor da ameaça tinha deixado uma pista: o seu nome.

No dia seguinte, estava tudo mais calmo. Inês de Sousa Real deslocou-se ao Parque Biológico de Gaia, onde uma quantidade apreciável de aves engaioladas esperavam por ela. "Olá! Olá! Olá! Olá!", disse um papagaio de serviço. A porta-voz do PAN esboçou um sorriso dúbio. Custava-lhe ver animais assim, fora do seu habitat natural, embora tivesse de reconhecer que se tratava de uma analogia perfeita para o que devia acontecer a certas aves-raras que andam no Twitter.

No táxi do CDS

Num jornal matutino, a notícia não era uma, mas três numa só, numa pirâmide condensada: "Francisco Rodrigues dos Santos, líder do CDS, desloca-se à Chamusca". 1: O CDS existe. 2: Aparentemente tem um líder. 3: Ia à Chamusca. Avaliada por um desses polígrafos da moda, de absolutamente certo só a existência da Chamusca, orgulhosa vila ribatejana, terra de toiros e de cavalos, de forcados e de tios, que não tinha culpa de lá aparecer assim de repente o "Chicão", com meia-dúzia de chiquinhos a pentear a franja, todos muito juntos, para parecer muitos, como numa formação ordenada de rugby. Chicão deseja transportar no seu táxi o CDS de volta aos bons velhos tempos do arco do poder, sabendo que isto é uma coisa e outra é querer.

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No dia seguinte, a bomba: a candidata do CDS à Junta de Freguesia de Palmela tinha sofrido um atentado quando andava a colar cartazes com o seu marido. Linda Oliveira ficou muito abalada. Enviou imediatamente uma nota para as redacções e depois ligou para a GNR. Já era noite cerrada quando se encontrava na avenida dos Caminhos de Ferro, Palmela. Estava tão escura a noite quanto a roupa que envergavam dois indivíduos numa mota, com as luzes apagadas, que dispararam, de acordo com a versão de Linda Oliveira, dois tiros de caçadeira na sua direcção e depois desapareceram ao abrigo do breu, ouvindo-se mais dois disparos. Chicão, a caminho de Oliveira do Hospital, a sua terra-natal, onde é candidato à Assembleia Municipal, ainda assim em coligação, deteve-se perante a comunicação social para cavalgar o assunto em que o CDS se tinha tornado, pelos vistos, à lei do cartucho.

Francisco Rodrigues dos Santos puxou da cartilha. Tratava-se de um atentado à democracia, perpetrado por forças extremistas. Quais forças? Os jornalistas às vezes fazem com cada pergunta. "Forças, sem dúvida, extremistas. Parece que voltámos ao tempo do PREC". Este líder tem uma característica indubitável: ninguém o leva a sério, muito menos quando se põe a perurar sobre a ditadura da esquerda. Nem 24 horas depois, a própria GNR de Palmela deitou água na fervura centrista. Tratava-se de um incidente, que nada tinha a ver com a candidata à JF de Palmela. Era só uma daquelas questões rurais, que se resolvem de caçadeira. Não havia mortos nem feridos. Tudo normal.

Tristonho, dirigiu-se para a feira mais próxima, à boa maneira PP (leia-se: Paulo Portas). Na feira, já a respirar os ares de Oliveira do Hospital, Chicão abriu o coração ao primeiro feirante que lhe deu um bacalhau apertado, com lingerie bordeaux a pairar sobre as suas cabeças: "Ajudem-me! Dêem-me força!". Força não havia, mas se quisesse umas calças de ganga estavam a um preço espectacular. O líder seguiu para o berço. E só depois rumou a Coimbra, para um lugar ainda mais apropriado: o "Portugal dos Pequenitos".

Então e para o nosso líder não vai nada, nada, nada? "Tuuudooo!" Para o nosso líder não vai nada, nada, nada? "Tuuudooo!" A coisa não estava a correr bem. A apoteose só tinha eco na boca de uma senhora, que tinha um sorriso cintilante por causa dos reflexos da luz no aparelho dentário, entre outras coisas recomendado para combater o bruxismo. Em Coimbra, cidade dos estudantes, não se via nenhum no comício do Chega, indoors, que é mais Chega-friendly. Ainda está bem presente aquela vez que o líder foi atingido por uma chiclete. Das duas, uma: ou o Chega tem mais seguranças que apoiantes ou então prefere não mostrar os apoiantes que tem, já para não falar em certos candidatos, como o da Covilhã ou de São Brás de Alportel, que nos últimos dias emergiram em tempo real, direitinhos para a galeria dos tesourinhos deprimentes. É o que dá quando se anda a recrutar candidatos nos classificados.

No palco, um candidato do partido, conseguiu articular uma frase. "Chamamos ao palco do dr. André Ventura. Temos uma surpresa..." As câmeras procuraram-no imediatamente, capturando um momento raríssimo: algo genuíno. Ventura fora surpreendido. O que é que viria dali? Querem ver que era a madame Le Pen? O filho do Bolsonaro e o malta do Vox só chegam a Portugal na próxima sexta. Em gincana pelo aparato securitário, o líder abriu caminho para o palco, em pulgas e sorrisos amarelos. Afinal, era um cabaz, dentro de uma cestinha, sobre um napperon da cor do Chega, azul-noir. Do cabaz se retirou um produto "extremamente tradicional português, uma marca muito espectacular, dr. Ventura: licor... de merda!!!" Até os seguranças arreganharam a taxa social única. Ventura agradeceu a lembrança e, chegando-se ao microfone, disse apenas: "Bom... não sei se me estão a passar alguma mensagem..." Se tivesse dito "bom... sou extraterrestre", a reacção teria sido a mesma. Palminhas para o líder, que sabe estar e, no dia seguinte, logo pela manhã, já estava na feira de Lourosa, Porto, onde se tinha improvisado um palco.

A etnia feirante não estava a gostar daquele filme. Mal o líder do Chega chegou, "acabou-se a feira", disse uma vendedora de sapatos. Quem ia comprar desapareceu, quem ia vender teve de arrumar os trapinhos. "Cada um faz os comícios que quiser. A feira acabava às 14h00. Não podiam ter esperado, pá!?", lamentava-se outro feirante, a ferver por dentro. "Não puxem por mim". À tarde, um momento de enorme partilha, numa das tradicionais ruas do Porto. André Ventura chegou, percorreu 200 metros em 10 minutos, tomou um banho de seguranças, mandou um bitaite sobre o facto de Marta Temido, ministra da Saúde, se ter deslocado àquele mesma cidade para uma acção de campanha a bordo de uma viatura do Estado, sabe-se lá a quantos quilómetros/ hora. Disse que era uma vergonha, pediu a sua demissão (dela), explicou o aparato de seguranças pelo número de ameaças que a sua pessoa recebe (ele), acenou, quase fazendo saltar os Ray-Ban contrafeitos do segurança ao seu lado. Queria ter repetido aquela ideia de transformar Portugal numa Suiça, mas nem houve tempo. Esta campanha está a ser um autêntico licor.

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